terça-feira, 10 de maio de 2022

Veia positiva

 

Veia positiva

 

Pensar que tem gente que fica boquiaberta com a boa sorte de estar viva nesta era de drones. Os drones circulam na troposfera como olho grande que a todos nos registram agitados, só não alcançam que em nós as esperanças redundam em decepções que levam a atos azedos. Logo, é burro qualquer alumbramento por estes badulaques limitados, pois, vigilantes e idealistas, apuramos nossa viagem pelo planeta com maior engenho. Dispomos de recursos orgânicos mais sofisticados que estes trecos eletroeletrônicos que gravitam nuvens e nevoeiros.

Eles flutuam no céu, nós trovejamos ao sol.

Não ansiando cegamente que sejamos aprimorados por condutores e semicondutores, ainda que se mapeie como hão de nos aquilatar os sentidos, pensemos as nossas chagas à luz do luar.

Que boa sorte é estar vivo pra poder contar, melhor ainda, pra poder deixar de alguma forma registrada a aventura que é viver numa época de bueiros alterados. Pois hoje os bueiros mostram com quantos cabos aterrados tanta comunicação é mantida.

Embora haja pessoas que abram a boca quando autorizadas a falar bobagens de botequim ou poesia concreta.

Embora haja quem não acredite que bocas no chão sirvam pra que dejetos e porcarias subam dos esgotos como os alagamentos.

Sim, há rios, córregos e riachos que não suportam ficar represados e transbordam suas águas imundas. Águas empesteadas que a muitos de nós nos indignam, elas também acabam adoentadas e morrem.

Mundanos bestificados, sabemos o quanto apreciamos o planetinha porque inundamos marginais e autopistas com o que de humano temos de melhor: os caminhões a diesel que vão fumando sem parar.

Máquinas inteligentes calculam o estrago que produz um caminhão a cem por hora contra outro em igual velocidade na direção contrária, mas o meu cérebro, que tem raízes no solo, não comandará máquinas voadoras que cativam crânios avantajados nem calculará o impacto.

Ainda assim, há quem denuncie essa gente que gosta mesmo é de ter dúvidas sólidas a respeito destes tempos de amores líquidos nunca liquidados. Sempre há agrado que falta a quem acha que bueiro serve de escape aos esgotos efervescentes em bicharocos escrotos.

Se minha opinião revela uma verdade inquestionável, é que mereço um prêmio. Putisgrila! Nada de mandarem fotos que drones costumam tirar: embaçadas, sem nenhum traço do faro talentoso de lentes como um Sebastião Salgado, uma Claudia Andujar ou um Fernando Val.

Como, de fato, entendo que penso, pego um carrinho de mão e vou catando coquinho que encontro cá embaixo, à flor da terra. Pesado que nem aguento empurrá-lo, viro o everest menor onde o chão careça de vida jamais ajardinada, sem palmo de grama mais verde que natural.

Não fundo outro mundo, o novo século que estou sonhando agora. Com pupila e retina em sincronia, eu não o fotografo como relíquia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de maio de 2022.

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