Veia
positiva
Pensar que tem gente que fica
boquiaberta com a boa sorte de estar viva nesta era de drones. Os drones circulam
na troposfera como olho grande que a todos nos registram agitados, só não
alcançam que em nós as esperanças redundam em decepções que levam a atos azedos.
Logo, é burro qualquer alumbramento por estes badulaques limitados, pois, vigilantes
e idealistas, apuramos nossa viagem pelo planeta com maior engenho. Dispomos de
recursos orgânicos mais sofisticados que estes trecos eletroeletrônicos que gravitam
nuvens e nevoeiros.
Eles flutuam no céu, nós trovejamos ao sol.
Não ansiando cegamente que sejamos
aprimorados por condutores e semicondutores, ainda que se mapeie como hão de nos
aquilatar os sentidos, pensemos as nossas chagas à luz do luar.
Que boa sorte é estar vivo pra poder
contar, melhor ainda, pra poder deixar de alguma forma registrada a aventura
que é viver numa época de bueiros alterados. Pois hoje os bueiros mostram com
quantos cabos aterrados tanta comunicação é mantida.
Embora haja pessoas que abram a boca quando
autorizadas a falar bobagens de botequim ou poesia concreta.
Embora haja quem não acredite que bocas
no chão sirvam pra que dejetos e porcarias subam dos esgotos como os alagamentos.
Sim, há rios, córregos e riachos que não
suportam ficar represados e transbordam suas águas imundas. Águas empesteadas
que a muitos de nós nos indignam, elas também acabam adoentadas e morrem.
Mundanos bestificados, sabemos o quanto apreciamos
o planetinha porque inundamos marginais e autopistas com o que de humano temos
de melhor: os caminhões a diesel que vão fumando sem parar.
Máquinas inteligentes calculam o estrago
que produz um caminhão a cem por hora contra outro em igual velocidade na
direção contrária, mas o meu cérebro, que tem raízes no solo, não comandará
máquinas voadoras que cativam crânios avantajados nem calculará o impacto.
Ainda assim, há quem denuncie essa gente
que gosta mesmo é de ter dúvidas sólidas a respeito destes tempos de amores
líquidos nunca liquidados. Sempre há agrado que falta a quem acha que bueiro serve
de escape aos esgotos efervescentes em bicharocos escrotos.
Se minha opinião revela uma verdade
inquestionável, é que mereço um prêmio. Putisgrila! Nada de mandarem fotos que
drones costumam tirar: embaçadas, sem nenhum traço do faro talentoso de lentes como
um Sebastião Salgado, uma Claudia Andujar ou um Fernando Val.
Como, de fato, entendo que penso, pego
um carrinho de mão e vou catando coquinho que encontro cá embaixo, à flor da
terra. Pesado que nem aguento empurrá-lo, viro o everest menor onde o chão careça
de vida jamais ajardinada, sem palmo de grama mais verde que natural.
Não fundo outro mundo, o novo século que
estou sonhando agora. Com pupila e retina em sincronia, eu não o fotografo como
relíquia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de maio de 2022.
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