Acontece
que desconfio, vem aí um velho conhecido e vem quando estou bem ocupado. Em
geral, o ataque de nervos começa insinuante, como algo inseparável das coisas
do mundo. E a lei do menor esforço diz que as miudezas do dia ajeitam-se por si.
Prefiro
viver sem sobressaltos ou tomando cuidado pra cachola não desandar. A
instabilidade é o móvel da vida e é natural querer controlar o que me afeta, mas
os problemas crescem quando esqueço que não é razoável achar tudo tão natural.
Preciso forçar algum equilíbrio entre o que ajuda e o que prejudica a ir em
frente, embora isso possa causar mágoas leves ou sofrimentos.
Pisando
e repisando a trilha cotidiana de trabalhar, não tenho tempo pra surtar. Por
que agiria contra a bonança de ter as contas em ordem? Tenho aproveitado as
tranquilas noites de sono. Não pretendo estragar este período bom, de pequenas
alegrias. Quero que dure.
Confesso
a minha resignação à sobriedade.
O
que não significa que vivo em paz. Não confundo conformismo e paz. A
tranquilidade está em aceitar que a paz absoluta não existe. Só que viro pensar
sobre o pensado, remoendo-me, insistindo em moldar a realidade. Se ela é argila,
acho pedregulhos pra ferir as minhas mãos no torno que não para.
Contradições
e sínteses fazem a vida; antagonismos paralisam.
E
paro porque não vejo saída. E não encontro saída. Sinto que virei jabuti que se
debate de pernas pro ar, um agitado que não sai do lugar. No fundo, percebo que
lutar contra quem sou é causa perdida.
Literalmente,
abro a porta e saio. Não fui obrigado, eu quis.
No
quintal, olho o céu. Sem especular, vejo as nuvens. Fico, gosto de acompanhar
as nuvens. Gosto de fazer o que me acalma. De algum modo, preciso ficar menos
agitado. Só não quero me forçar.
Estou
à toa? Não sei. Percebo que um minuto não vai fazer falta ao dia. A hora não
para. A Terra não para. Quem precisa ficar parado sou eu. Preciso dar essa
paradinha. Paro um instante. Me disponho a ficar parado. Que seja só por um
segundo, não muito. Pois um segundinho só não dá aflição, até anima.
Dona
vida, não se preocupe comigo. Agora estou largado, tomando sol, mas voltarei em
breve. Logo, logo estarei de volta, no batente. Sem reclamações à toa. Sem rechaçar
as fraquezas. Sem buscar tentações pras minhas taras.
Não
serei leviano. Sei que as nuvens passam. Sai o sol, entra a lua. A euforia come
o tédio. Mas não beberei pinga pra dor de cabeça. Para não arrumar dores de
cabeça, bebo água.
Bebendo,
outra noite, fiquei vendo a lua.
O
sono veio sutil. O sonho veio cheio de bichos. Não mato formigas nem mariposas.
Se urubus rondam carniças, prefiro as andorinhas. Se as pombas bicam o chão, que
os corvos voem na lavoura da gravura. Se bem que barata pisoteio sem dó e traças
espremo sem piedade. No meu sono sem roncos, a lua brotou dourada.
Com
esse cão que lambe a pinga da minha boca, faço o quê?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 29 de maio de 2022.
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