Terror
noturno
Inda tá linda a lua azul da melancolia da
minha alma aconchegada no sereno silêncio da solidão. Ainda estaria, mas acordo
estragado: o brilho azul da lua inebriante da madrugada não passa da lampadazinha
da TV, cujo cabo de energia está sempre na tomada. Não é a luazinha, é a
ansiedade que me estraga o sono.
Dormir a noite toda é coisa de boboca, é
preciso temer as aranhas saindo das aranhas que se multiplicam nas sacolinhas
de plástico que pegam poeira embaixo da cama.
Quem não acorda suando frio não tem como
me desprezar porque desprezo quem acha normal não ter pesadelos com aranhas
galgando os pés da cama.
Como não despertar por motivo tão pouco
fútil?
Desperto com a careca enregelada. Tenho
uma frente fria presa no meu quarto; e dela me livraria se fosse à cozinha.
Poupo-me, fico debaixo das cobertas.
Se desligasse a geladeira, iria pro lixo
meu leitinho morno das horas congeladas. E não me controlo a ponto de não
passar por essas horas, que me esticam o drama como estômago que ronca um vazio
que leite frio algum há de saciá-lo.
Breve é a vida quando é longa a agonia.
Costumo afundar no breu da insônia, para
que a noite fique dividida em duas partes antagônicas. De um lado, não me
convenço a moderar as aflições. Doutro, elevo o desassossego de imaginar-me
arrancando os cabelos que não tenho.
Posto que me aborrece à beça a careca
exposta ao frio: dane-se!
Dou luz verde às aranhas que comem a
mosca azul que me rodeia. Entrando em mim por minhas desesperanças de gente
cansada. Pois muito me esgoto a pular etapas, correr com o andor, perder-me à toa.
Não sei dizer se me sinto bem. Ainda que
esteja disposto a seguir às cegas, sem destino ungido, de improviso em
improviso. Que a falta de assunto, embora não me falte agora, sirva-se de meu
cansaço e em mim sejam injetados os pigarros, uma dorzinha no pescoço e o medo
de esquecer o que tenho pra fazer quando o dia raiar e a cidade ficar cheia de
gente querendo que seus problemas sejam logo resolvidos.
A noite não se mexe. O ar gelado não me
acalanta. Não nino a mim que sou menino que se sente abrigado no seio noturno que
apavora, enerva, desconcerta. Muito, mas muito mesmo?
Não há silêncio que faça a cidade ficar
calada, parada, morta.
Sequer há mortos que estejam imobilizados,
que a carne vai pouco a pouco sumindo dos ossos. Ficarão os cabelos. Ficará o
universo.
Terei análise na hora do café. Se falarei
de aranhas, moscas e TV? Contarei que me perdi do que inicialmente tinha pensado
quando me sentar ao computador? Mentirei apenas um pouquinho só pra não ser
desmascarado?
Na escuridão da madrugada, enfiado na
cama, querendo que passe a vontade de urinar, me seguro como posso. Acho que posso.
É noite, não vou fugir da escuridão. Se
acendesse a lâmpada? Nem assim. Se não pensasse no assunto? Muito menos.
Sabe, doutor, sou paciente porque não
sei esperar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de maio de 2022.
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