quinta-feira, 19 de maio de 2022

Terror noturno

 

Terror noturno

 

Inda tá linda a lua azul da melancolia da minha alma aconchegada no sereno silêncio da solidão. Ainda estaria, mas acordo estragado: o brilho azul da lua inebriante da madrugada não passa da lampadazinha da TV, cujo cabo de energia está sempre na tomada. Não é a luazinha, é a ansiedade que me estraga o sono.

Dormir a noite toda é coisa de boboca, é preciso temer as aranhas saindo das aranhas que se multiplicam nas sacolinhas de plástico que pegam poeira embaixo da cama.

Quem não acorda suando frio não tem como me desprezar porque desprezo quem acha normal não ter pesadelos com aranhas galgando os pés da cama.

Como não despertar por motivo tão pouco fútil?

Desperto com a careca enregelada. Tenho uma frente fria presa no meu quarto; e dela me livraria se fosse à cozinha.

Poupo-me, fico debaixo das cobertas.

Se desligasse a geladeira, iria pro lixo meu leitinho morno das horas congeladas. E não me controlo a ponto de não passar por essas horas, que me esticam o drama como estômago que ronca um vazio que leite frio algum há de saciá-lo.

Breve é a vida quando é longa a agonia.

Costumo afundar no breu da insônia, para que a noite fique dividida em duas partes antagônicas. De um lado, não me convenço a moderar as aflições. Doutro, elevo o desassossego de imaginar-me arrancando os cabelos que não tenho.

Posto que me aborrece à beça a careca exposta ao frio: dane-se!

Dou luz verde às aranhas que comem a mosca azul que me rodeia. Entrando em mim por minhas desesperanças de gente cansada. Pois muito me esgoto a pular etapas, correr com o andor, perder-me à toa.

Não sei dizer se me sinto bem. Ainda que esteja disposto a seguir às cegas, sem destino ungido, de improviso em improviso. Que a falta de assunto, embora não me falte agora, sirva-se de meu cansaço e em mim sejam injetados os pigarros, uma dorzinha no pescoço e o medo de esquecer o que tenho pra fazer quando o dia raiar e a cidade ficar cheia de gente querendo que seus problemas sejam logo resolvidos.

A noite não se mexe. O ar gelado não me acalanta. Não nino a mim que sou menino que se sente abrigado no seio noturno que apavora, enerva, desconcerta. Muito, mas muito mesmo?

Não há silêncio que faça a cidade ficar calada, parada, morta.

Sequer há mortos que estejam imobilizados, que a carne vai pouco a pouco sumindo dos ossos. Ficarão os cabelos. Ficará o universo.

Terei análise na hora do café. Se falarei de aranhas, moscas e TV? Contarei que me perdi do que inicialmente tinha pensado quando me sentar ao computador? Mentirei apenas um pouquinho só pra não ser desmascarado?

Na escuridão da madrugada, enfiado na cama, querendo que passe a vontade de urinar, me seguro como posso. Acho que posso.

É noite, não vou fugir da escuridão. Se acendesse a lâmpada? Nem assim. Se não pensasse no assunto? Muito menos.

Sabe, doutor, sou paciente porque não sei esperar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de maio de 2022.

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