domingo, 5 de junho de 2022

Pas de deux

 

Pas de deux

 

A mulher ouviu que o mundo não é lugar muito fácil. Nele sobrevive quem faz o possível pra não ficar exposto ao perigo. Como não se deve correr riscos, fundamental é ficar atento. Quando a realidade apresenta um problema que parece sem solução, a inteligência humana descobre um jeito. Porque a humanidade é engenhosa, não há de ser um desafio que a impedirá de superar o que lhe barra seu caminho. Ela acha meios de avançar. Vislumbrando o ponto que lhe favoreça, o homem esperto assegura o passo adiante. E ele faz com que os demais progridam sem sacrifícios inúteis. Para que a sua jornada seja exemplar, o homem não luta em vão. Há propósito e há de haver perseverança. Se a suçuarana ronda a picada, que o facão abra novas trilhas. Se a montanha dificulta o caminho, que a broca esventre a terra. O generoso lega a sua marca. É humano contar com a tenacidade de quem vence na vida. Quem vem atrás que se oriente pelo destemor. Entretanto, há pessoas que não se deixam guiar. E perdidas na travessia sombria, cegas à luz do destino, ignoram-se sem norte.

A mulher soube escutar o que disseram.

O causo era pra parecer verdadeiro. Tinha que passar uma verdade moralmente instrutiva. Que tivesse a força de um pito corretivo. Porque adultos quando precisam tomar bronca, que se sintam sacudidos. Sem que haja espaço pra listar incongruências, falsidades, besteirinhas.

Quem contava começou mal, pois não soube dizer onde aconteceu. Numa cidade, no meio do mato, à beira de rio ou de piscina. À noite, à tarde, de madrugada. Se chovia ou estava abafado. No bar da esquina, comendo pizza, num carro estacionado, indo pro litoral.

Ô historinha mal contada, sem graça, cheia de furos. Precisaria que fosse falada por gente nascida pra mentir sem levantar suspeitas. Que as pessoas ficassem interessadas apenas no que era dito.

Acharam um lampião. Aberto o registro, em vez de gás pra manga, a luz não se fez. Em esplendor esquisito, cresceu foi uma sombra.

E aquela fumaça era opaca, inodora. Calada, ela flutuava.

O homem tinha o lampião como um tesouro. Se o lampião soltou o gênio, deveria atender os três pedidos. Não roubou e não comprou, foi a sorte que o fez ser o dono. Sendo dono, o certo era que tivesse poder sobre o demônio do lampião.

Como tinha a sensação de que era dono de um demônio do bem, o homem do lampião esperava que houvesse entendimento.

Enquanto pensava, o seu primeiro pedido fora aceito: ele perdeu o medo de falar em público.

Temendo virar uma besta sem freio, achando ridículo não fechar a matraca, ele sabia que um tagarela incomoda muita gente.

Travando ponto a ponto, o segundo pedido veio socorrê-lo. Deveria ter previsto a dificuldade de falar de modo lúcido, coerente, agradável de se ouvir.

Desaparecida a gagueira, o homem nem precisou formular o pedido derradeiro: ele gargalhou com todos os dentes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de junho de 2022.

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