Pas
de deux
A mulher ouviu que o mundo não é lugar
muito fácil. Nele sobrevive quem faz o possível pra não ficar exposto ao perigo.
Como não se deve correr riscos, fundamental é ficar atento. Quando a realidade
apresenta um problema que parece sem solução, a inteligência humana descobre um
jeito. Porque a humanidade é engenhosa, não há de ser um desafio que a impedirá
de superar o que lhe barra seu caminho. Ela acha meios de avançar. Vislumbrando
o ponto que lhe favoreça, o homem esperto assegura o passo adiante. E ele faz
com que os demais progridam sem sacrifícios inúteis. Para que a sua jornada
seja exemplar, o homem não luta em vão. Há propósito e há de haver
perseverança. Se a suçuarana ronda a picada, que o facão abra novas trilhas. Se
a montanha dificulta o caminho, que a broca esventre a terra. O generoso lega a
sua marca. É humano contar com a tenacidade de quem vence na vida. Quem vem
atrás que se oriente pelo destemor. Entretanto, há pessoas que não se deixam
guiar. E perdidas na travessia sombria, cegas à luz do destino, ignoram-se sem
norte.
A mulher soube escutar o que disseram.
O causo era pra parecer verdadeiro. Tinha
que passar uma verdade moralmente instrutiva. Que tivesse a força de um pito
corretivo. Porque adultos quando precisam tomar bronca, que se sintam
sacudidos. Sem que haja espaço pra listar incongruências, falsidades, besteirinhas.
Quem contava começou mal, pois não soube
dizer onde aconteceu. Numa cidade, no meio do mato, à beira de rio ou de
piscina. À noite, à tarde, de madrugada. Se chovia ou estava abafado. No bar da
esquina, comendo pizza, num carro estacionado, indo pro litoral.
Ô historinha mal contada, sem graça,
cheia de furos. Precisaria que fosse falada por gente nascida pra mentir sem
levantar suspeitas. Que as pessoas ficassem interessadas apenas no que era
dito.
Acharam um lampião. Aberto o registro,
em vez de gás pra manga, a luz não se fez. Em esplendor esquisito, cresceu foi uma
sombra.
E aquela fumaça era opaca, inodora. Calada,
ela flutuava.
O homem tinha o lampião como um tesouro.
Se o lampião soltou o gênio, deveria atender os três pedidos. Não roubou e não comprou,
foi a sorte que o fez ser o dono. Sendo dono, o certo era que tivesse poder
sobre o demônio do lampião.
Como tinha a sensação de que era dono de
um demônio do bem, o homem do lampião esperava que houvesse entendimento.
Enquanto pensava, o seu primeiro pedido
fora aceito: ele perdeu o medo de falar em público.
Temendo virar uma besta sem freio, achando
ridículo não fechar a matraca, ele sabia que um tagarela incomoda muita gente.
Travando ponto a ponto, o segundo pedido
veio socorrê-lo. Deveria ter previsto a dificuldade de falar de modo lúcido,
coerente, agradável de se ouvir.
Desaparecida a gagueira, o homem nem
precisou formular o pedido derradeiro: ele gargalhou com todos os dentes.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 05 de junho de 2022.
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