terça-feira, 31 de maio de 2022

O monstro

 

O monstro

 

Tentava organizar as ideias mesmo debaixo da garoa. Pensei: que faça sol. Mas a garoinha não me ouviu. Murmurei que o céu ficaria bem melhor se ficasse ensolarado. A garoa fina, irritante, deu uma de surda.

Não sabia como energizar o pensamento. Ainda não sei. Tanto que concluí que a situação me era adversa porque fraquejava. Pois é, nos momentos decisivos, costumo me descontrolar.

Deixo de ser positivo, duvido em demasia, tenho medo.

Quem dera despertasse em mim a potência de domesticar a minha vontade em obra, insistiria na bravura. Que o sol entendesse o pedido, poderia ter mudança. Mas a garoa, bem burrinha, se fez de difícil.

Precisava zombar da coragem que tanto imagino, veio o vento.

Eu podia inocentar a segunda-feira. Ou crer que a fina garoa gelada estava me fazendo um bem. Havia opções. A cabeça não tinha força o bastante pra parar de cismar.

Garoas são o tempo e o ser humano nasce perdedor. O remediável: usa-se guarda-chuva, busca-se abrigo em marquise, ou ambos.

Eu esperava o tempo melhorar quando Luisinho veio conversar.

Lamentamos o clima. Agouramos o dia. Pedimos um cafezinho.

O bom de um cafezinho é que ele nunca falha. Pensamentos bobos surgem. A gente bem que tenta segurar o riso, mas o alívio é maior.

Pessoas que ficam de bem consigo têm esse talento pra fazer o sol brilhar no céu. Basta esquecer-se enquanto ri.

Luisinho inveja os povos, os cientistas malucos, seus doutores que sempre aprimoram as ideias malucas. Ainda que a chuva aperte, o sol castigue como o diabo, o café esfrie no copo, eles nunca desistem.

Pessoa que ri de si vive melhor? Vive o instante.

Ideias malucas são serraia em calçada estreita às sete da manhã? A multidão nem vê o buraco porque tem logo que bater o ponto.

Discordamos por prazer. Gostamos de falar. A gente se desentende como duas cabeças num corpo único.

Ele bebia seu café com açúcar, o meu era sem.

Ele nem ligava pras gotas da garoa, eu me encolhia todo.

Assim na vida, assim na morte, que dá azar ter sorte. Ou não.

Pois um leão alado com bocarra maior que o juízo só tem condições mentais pra julgamentos sumários. Tem que pagar pelo erro. Errar todo mundo erra, e o caminho passa pela criatura porque as pessoas deram de passar pelo mesmo lugar. Elas vão pela via de mão única, passam às portas da caverna da guardiã das estradas e seguem pro abismo.

É abismo o IPVA, o IPTU, o ISS, o INSS.

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são o riso. Xô, abismo!

Devorado por dentro, e por acaso.

Nada de carpa ou cará? Quem dera saber. Não fora num domingo? Quisera lembrar-me. Tinha tratores descendo a Quinze carregados de verdura? Do Pocinho de São Sebastião pra Ibiúna sem TV a cabo, era sábado, o último de maio.

Paga promessa quem pode pagar, quem não pode mas deve, quem precisa dar jeito, quem perde por esperar, quem se desespera.

Quede que ninguém morde a cachorra das gentes?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de maio de 2022.


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