Tentava
organizar as ideias mesmo debaixo da garoa. Pensei: que faça sol. Mas a garoinha
não me ouviu. Murmurei que o céu ficaria bem melhor se ficasse ensolarado. A
garoa fina, irritante, deu uma de surda.
Não
sabia como energizar o pensamento. Ainda não sei. Tanto que concluí que a
situação me era adversa porque fraquejava. Pois é, nos momentos decisivos,
costumo me descontrolar.
Deixo
de ser positivo, duvido em demasia, tenho medo.
Quem
dera despertasse em mim a potência de domesticar a minha vontade em obra,
insistiria na bravura. Que o sol entendesse o pedido, poderia ter mudança. Mas
a garoa, bem burrinha, se fez de difícil.
Precisava
zombar da coragem que tanto imagino, veio o vento.
Eu
podia inocentar a segunda-feira. Ou crer que a fina garoa gelada estava me
fazendo um bem. Havia opções. A cabeça não tinha força o bastante pra parar de
cismar.
Garoas
são o tempo e o ser humano nasce perdedor. O remediável: usa-se guarda-chuva,
busca-se abrigo em marquise, ou ambos.
Eu
esperava o tempo melhorar quando Luisinho veio conversar.
Lamentamos
o clima. Agouramos o dia. Pedimos um cafezinho.
O
bom de um cafezinho é que ele nunca falha. Pensamentos bobos surgem. A gente
bem que tenta segurar o riso, mas o alívio é maior.
Pessoas
que ficam de bem consigo têm esse talento pra fazer o sol brilhar no céu. Basta
esquecer-se enquanto ri.
Luisinho
inveja os povos, os cientistas malucos, seus doutores que sempre aprimoram as ideias
malucas. Ainda que a chuva aperte, o sol castigue como o diabo, o café esfrie
no copo, eles nunca desistem.
Pessoa
que ri de si vive melhor? Vive o instante.
Ideias
malucas são serraia em calçada estreita às sete da manhã? A multidão nem vê o
buraco porque tem logo que bater o ponto.
Discordamos
por prazer. Gostamos de falar. A gente se desentende como duas cabeças num
corpo único.
Ele
bebia seu café com açúcar, o meu era sem.
Ele
nem ligava pras gotas da garoa, eu me encolhia todo.
Assim
na vida, assim na morte, que dá azar ter sorte. Ou não.
Pois
um leão alado com bocarra maior que o juízo só tem condições mentais pra
julgamentos sumários. Tem que pagar pelo erro. Errar todo mundo erra, e o
caminho passa pela criatura porque as pessoas deram de passar pelo mesmo lugar.
Elas vão pela via de mão única, passam às portas da caverna da guardiã das
estradas e seguem pro abismo.
É
abismo o IPVA, o IPTU, o ISS, o INSS.
Didi,
Dedé, Mussum e Zacarias são o riso. Xô, abismo!
Devorado
por dentro, e por acaso.
Nada
de carpa ou cará? Quem dera saber. Não fora num domingo? Quisera lembrar-me. Tinha
tratores descendo a Quinze carregados de verdura? Do Pocinho de São Sebastião
pra Ibiúna sem TV a cabo, era sábado, o último de maio.
Paga
promessa quem pode pagar, quem não pode mas deve, quem precisa dar jeito, quem
perde por esperar, quem se desespera.
Quede
que ninguém morde a cachorra das gentes?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 31 de maio de 2022.
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