O
elefante
Já sei, eu fui o elefante na sala de
jantar.
Estava bem desconfiado de que um
terremoto sacudiria a modorra, tomando café da manhã foi o que me surpreendeu.
Fiquei paralisado, boquiaberto.
Via TV, a minha aposta pro dia foi
ratificada.
E não acho café-pequeno sorrir
abestalhado, até porque a corrente de eventos desconcertantes começou cedo.
Como se diz, a carranca me pegava de
orelha a orelha.
Queria ter engolido o que mastigava. A
vida, entretanto, não atende expectativas, nem as suplicadas de joelhos.
Fazer o quê, fui pego de boca na botija.
A boca era a minha; a botija, a reação a opinião controversa.
Ouvi. Repeti-a em voz alta, pensei estar
meio grogue de sono. Não estava, não. Tinha ouvido a barbaridade. Teve quem a
analisasse.
Para que uma opinião seja compreendida
com correção, não basta considerar os lados a favor e contra, recomenda-se
escolher um deles.
Às vezes, no afã de esmiuçar até a raiz
do problema, vai se tirando casca depois de casca, como cebola. Mas nem tudo
tem no seu âmago um talinho verde que germina com o tempo. Muita coisa tem
vento, tem só o cheiro que agrada ou incomoda.
Penso na água sanitária quando o ralo do
banheiro é lavado. Passo mal quando respiro o ar que sobe. Pro nariz não arder,
uso a mão. Até um corte de nada queima na hora. Poderia ter calçado luva.
Deve ser por isso que lavo o banheiro de
quinze em quinze dias, só encurto o intervalo se a urina seca torna sufocante sentar
um instante no vaso.
Costumo abrir uma revista. Leio sem
pressa, que o mundo vai estar lá fora ainda que eu demore. Fico o tanto que me
for necessário.
Quando as letras saltam da página, a
mão agita mole a bandeira de todas as rendições, permaneço o que preciso. Minha
digestão engrena melhor quando as tripas rodam sem amuamentos.
No fundo, trago cá dentro esse rebelde
que não se sujeita dócil.
Quando criança, brincava de tudo com
todos. Adolescente, entrava na moda da turminha. Como ligo pra não dançar, jogo
como adulto.
Não sou adulto que se alimenta do bom e
do melhor. Custa caro.
Uma bolachinha de banana adoça a boca,
como numa boa. Gosto tanto que vou comendo sem calcular o custo. Me delicia o
pacote todo.
Que a gastrite esqueça de mim por um
momento, e me deixe comer. Acho bom que o estrago ocorra depois, bem mais
tarde, que nem vou voltar à origem. Azedo, sem os porquês.
Uma vez empanturrado, com o estômago pegando
fogo, quero mais é cutucar a ferida, achar o que muito me contraria.
Biscoito de gergelim não estorvaria o
andamento natural do mundo, não mergulharia no contrafluxo. Eu experimentaria a
ebulição de vibrar sem rubor, de boca fechada, o mindinho saliente.
Não falo pra inglês ouvir. Que bicho
está pegando? Sei que piranha ataca jacaré, mas piracucu come piranha.
Controvérsia pra lá, controvérsia pra
cá, controversemos.
No duro, morde em mim um Bakunin que adora
pão integral.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 09 de junho de 2022.
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