quinta-feira, 9 de junho de 2022

O elefante

 

O elefante

 

Já sei, eu fui o elefante na sala de jantar.

Estava bem desconfiado de que um terremoto sacudiria a modorra, tomando café da manhã foi o que me surpreendeu. Fiquei paralisado, boquiaberto.

Via TV, a minha aposta pro dia foi ratificada.

E não acho café-pequeno sorrir abestalhado, até porque a corrente de eventos desconcertantes começou cedo.

Como se diz, a carranca me pegava de orelha a orelha.

Queria ter engolido o que mastigava. A vida, entretanto, não atende expectativas, nem as suplicadas de joelhos.

Fazer o quê, fui pego de boca na botija. A boca era a minha; a botija, a reação a opinião controversa.

Ouvi. Repeti-a em voz alta, pensei estar meio grogue de sono. Não estava, não. Tinha ouvido a barbaridade. Teve quem a analisasse.

Para que uma opinião seja compreendida com correção, não basta considerar os lados a favor e contra, recomenda-se escolher um deles.

Às vezes, no afã de esmiuçar até a raiz do problema, vai se tirando casca depois de casca, como cebola. Mas nem tudo tem no seu âmago um talinho verde que germina com o tempo. Muita coisa tem vento, tem só o cheiro que agrada ou incomoda.

Penso na água sanitária quando o ralo do banheiro é lavado. Passo mal quando respiro o ar que sobe. Pro nariz não arder, uso a mão. Até um corte de nada queima na hora. Poderia ter calçado luva.

Deve ser por isso que lavo o banheiro de quinze em quinze dias, só encurto o intervalo se a urina seca torna sufocante sentar um instante no vaso.

Costumo abrir uma revista. Leio sem pressa, que o mundo vai estar lá fora ainda que eu demore. Fico o tanto que me for necessário.

Quando as letras saltam da página, a mão agita mole a bandeira de todas as rendições, permaneço o que preciso. Minha digestão engrena melhor quando as tripas rodam sem amuamentos.

No fundo, trago cá dentro esse rebelde que não se sujeita dócil.

Quando criança, brincava de tudo com todos. Adolescente, entrava na moda da turminha. Como ligo pra não dançar, jogo como adulto.

Não sou adulto que se alimenta do bom e do melhor. Custa caro.

Uma bolachinha de banana adoça a boca, como numa boa. Gosto tanto que vou comendo sem calcular o custo. Me delicia o pacote todo.

Que a gastrite esqueça de mim por um momento, e me deixe comer. Acho bom que o estrago ocorra depois, bem mais tarde, que nem vou voltar à origem. Azedo, sem os porquês.

Uma vez empanturrado, com o estômago pegando fogo, quero mais é cutucar a ferida, achar o que muito me contraria.

Biscoito de gergelim não estorvaria o andamento natural do mundo, não mergulharia no contrafluxo. Eu experimentaria a ebulição de vibrar sem rubor, de boca fechada, o mindinho saliente.

Não falo pra inglês ouvir. Que bicho está pegando? Sei que piranha ataca jacaré, mas piracucu come piranha.

Controvérsia pra lá, controvérsia pra cá, controversemos.

No duro, morde em mim um Bakunin que adora pão integral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2022.


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