terça-feira, 7 de junho de 2022

Milonga da simpatia

 

Milonga da simpatia

 

Como saí com a alma que estava no corpo, tinha que me arranjar. Às vezes, sorrio como imbecil quando ouço besteira das grandes. E há reação que me surpreende, porque o fio afiado do humor solta na lata o que bem entende. Este espírito traz um porco pra chafurdar nas boas maneiras? Sou de ranger os dentes, debochar ou me apagar.

Sentei um instante. Assim que entrei, corri sentar na poltrona atrás da pilastra. Não estava a fim de me exibir, pois nem me acho um cara exibido. Teria de esperar, esperaria como se ali não estivesse.

Se fosse recostar-me no muro do jardim, daria uns cinco minutos à fuzarca dos passarinhos. Buscaria aviões no céu se tivesse realmente algum interesse. Mas, em pé, o meu pescoço latejaria em alarme.

Tenho um desvio num bendito ossinho na nuca, e xeretar no celular com a cabeça inclinada acordaria a dorzinha velha companheira. Tinha que ficar sentado e com o telefone na linha dos olhos, era razoável que me antecipasse aos dramalhões do esqueleto.

Que motivos eu tenho pra confiar em quem faz o que não deve?

Sabendo de antemão que poderia irritar ou irritar-me, sentei, cruzei as pernas, pus-me ereto. Com a cabeça apoiada na coluna, fiz questão de me proporcionar a melhor postura. Quis o estresse sob controle, pra que as chances de não incomodar ninguém aumentassem. Navegaria por páginas e páginas sem Penélope a espetar uma agulha de tricô na minha espinha.

Entre não fazer o que não devia ou um improvável arrependimento, a sala ficou interessante. Entrou uma mulher trazendo uma caixa.

Fiz que não era comigo. Embora acompanhasse a cena de soslaio, apostei no nonchalance. De vez em quando, ergui os olhos eletrizados pela bisbilhotice. Levantei-os com a discrição de quem não tem certeza de que esteja mesmo sendo discreto. Certo, fiz o que devia.

Já a mulher... Coisa encantadora foi vê-la em ação.

Sem exagerar-se fascinante. Ao natural, em sua leveza magnética. Ela foi à assistente, viu confirmado o horário da sua consulta e veio se sentar na poltrona à minha frente.

Eu não a conhecia. Nunca a vira. Nem mesmo ali. E olha que tenho vindo três vezes por semana nos últimos dois meses. Viria mais vezes se o doutor me ouvisse, e a probabilidade de vê-la seria maior.

Não morro de medo de dentista, o que me aborrece mesmo é ficar anestesiado numa cadeira odontológica.

Descartada a dor, o que dará nos nervos, o que me desnorteará, vai ser passar quase uma hora querendo descobrir se o bolo era de morango ou chocolate.

Se pudesse parar de pensar, eu suportaria o papo furado. Meteria o pau no preço da gasolina. Arrancaria a cabeça da inflação. Mandaria pelos ares tudo que aflige, e tanto tira o sono como o apetite.

Na sua hora, a mulher passou ao consultório. Voltaram com o bolo. O aniversariante nem usava luvas. Tinha uma meia dúzia aguardando a vez. Mas, todo mundo comeu um pedaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de junho de 2022.

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