quinta-feira, 26 de maio de 2022

Música pros ouvidos

 

Música pros ouvidos

 

ꟷ Está vendo a mulher ali, no primeiro andar?

ꟷ Ela é casada, cara.

ꟷ Que é isso, também sou casado.

ꟷ E casados não traem, sequer desejam. Sei...

ꟷ Desejar coisa proibida não é legal, e eu conheço o meu lugar.

ꟷ Tá legal. Não vou perder o feriado com discussão besta.

ꟷ OK. Vamos mudar de assunto.

ꟷ O que a mulher do sobrado está comendo?

ꟷ Não tenho olho biônico, mas parece que é caqui.

ꟷ Só falta ser caqui chocolate.

ꟷ E de onde você tirou tal palpite?

ꟷ Se ela tiver o gosto igual ao seu, é caqui chocolate.

ꟷ Não tem pandemia de gosto, existe nódoa. Então, você acertou. Caqui mole faz um aguaceiro quando mal a gente morda. Precisa muito cuidado para não acabar manchando a roupa. Por isso, gosto de caqui chocolate, que não produz tanta água. Isso é o que importa.

ꟷ Todo mundo sabe que caqui é campeão pra manchar roupa. Mas, por que você gosta tanto de caqui? Um almofadinha que sempre andou na estica, como pode ter esta tara por fruta que mancha tanto?

ꟷ Além de não enxergar bem, você está surdo? Eu disse que caqui chocolate é diferente dos outros tipos, ele não mancha à toa.

ꟷ Não queira me desmentir, pois me lembro muito bem. Você vivia comendo caqui. Não importava quem fosse à sua casa, você era um cara mesquinho. Comia sozinho, escondido.

ꟷ Nunca fui egoísta. Eu não comia o ano todo, era só na época.

ꟷ Comia, sim, senhor. Demorava uma eternidade, e a gente ficava esperando na rua porque a sua mãe não gostava que a gente chutasse bola contra a parede da sua casa. E aquilo era de encher.

ꟷ Você está insuportável hoje. Está ruim das ideias, é?

ꟷ Ouça-me bem. Você comia tudo e depois aparecia com a cara de pau de ficar limpando as mãos na roupa, como se estivesse vindo do banheiro.

ꟷ Mostrar as mãos limpas é sinal de asseio. E mais ainda, até hoje mostro as mãos quando vou cumprimentar as pessoas. Eu não guardo nada na manga. Eu comia uma bolachinha e mais nada.

ꟷ Comia pouco, é? Você se enfarava. Ficava com o bocão que até dava nojo. A bochecha inchada. Uma coisa horrível de se ver. Parecia papo de sapo. Como sapo quando fica coaxando, sabe?

ꟷ Você adora aumentar as coisas, cara.

ꟷ Mas você ficava com os olhos arregalados. Seu rosto virava uma máscara. O mais estranho que a sua cara meio que zombava da gente. De boca cheia, os olhos vidrados, fazendo uns ruídos esquisitos, você virava outra pessoa.

ꟷ Que besteira! Eu era o monstro comedor de caqui?

ꟷ Você não dava medo, cara. Na verdade, eu ria muito.

ꟷ Você ria de mim comendo caqui? Não me lembro disso.

ꟷ Ria um bocado. E sabe o que aquela sua careta lembrava?

ꟷ Como vou saber. Você que está inventando, desembuche.

ꟷ Lembra da música What a wonderful world?

ꟷ Cara, era o Louis Armstrong que tocava.

ꟷ Você parecia com ele tocando corneta.

ꟷ Não era corneta. Ele tocava trompete.

ꟷ Que seja. Pra mim é tudo a mesma coisa.

ꟷ Cara, você podia disfarçar e não ficar babando feito idiota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2022.


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