domingo, 12 de junho de 2022

O desenlace

 

O desenlace

 

Sozinho, é solitário ouvir passos distantes. A cidade não dorme nem um segundo sequer. E há parapeitos em passarelas, pontes, viadutos. Encolhido na cama, o coração silva de vez em quando. E a paixão que rege a fadiga dos ossos estimula à febre. É difícil lidar com homem que treme ao menor sinal de euforia noturna.

A noite veio calma. Em maré crescente, a lua varre o céu com a sua luz silente. Recolhido à chama da mansidão, o namorado quer a flama de quem não se contenta com o futuro.

Querem que pense no que se avizinha. Vem que vem. Com fôlego que assusta um pouco, e faz duvidar que tenha freio. Que seja possível fugir quando a colisão apresentar-se inevitável.

Queria dormir, mas outubro é um meteorito vindo na sua direção. É um tiro disparado do escuro além do horizonte. É o futuro que vem de bem longe. E futuro come o que pega pela frente.

Ê namorado que não dorme, o escuro do quarto não o protege. Sem ganas de defender-se, peça o sono dos cansados, queira sonho menos violento. E o futuro corta o caminho, cruza o amor com a frustração.

A escuridão gela o ar. Respira-se sem conforto. O sopro do rancor confrange o coração. O amargurado inveja quem oferece o que tem de melhor. Não que seja o mais caro, muito especial, sem igual.

Ele vem, e vem pronto pra derrubar quem esbarra, nocautear quem esmurra, zombar quando estapeia, escarrar em boca aberta, topar feito pedra, tontear de fome, imbecilizar com historinha, e causar estragos, tantos, porque é assim, bem assim. E que assim não seja.

O disparate vem de encontro a quem acha de marcar bobeira bem no caminho. Que calendário tem agendas a cumprir, cumpram-se.

Não quer pensar além da conta. Quer o sono, que não vem. Porque outubro há de vir, mas que não venha outro tiro no escuro. Aqueloutro outubro? Não dispare a mentira. Aquele outubro segue evidente. E não houve segredo sequer surpresa. O que foi dito foi o que se cumpriu. E foi assim. Está sendo. Pra que não siga sendo, interrompa-se o fluxo.

Agora é junho. Hoje é domingo. Tem o Dia dos Namorados.

O namorado gostaria de ter comprado um buquê de rosas, enviou a foto. Queria jantar, bombons e motel, e não pôde. E o que pode?

O futuro continua o mesmo. Vem alargando anos, meses, dias. Vem comendo instante a instante. Fazendo cara de que sabe que isso tudo tem acontecido como imaginado, elaborado, implementado. No roteiro do previsto, o futuro são mágoas, feridas, fraturas, fissuras, chagas. O futuro é lágrima que não rola, é o amanhã que não sacia, é a fome da ampulheta desgovernada.

Outubro, outubro, outro rumo pro futuro. Outubro, está muito escuro em junho. Outubro, que futuro?

Amanhece, a namorada acorda. Não sonhou com macarronada ao meio-dia. Ela conta que são duas, são pessoas enamoradas.

Elas que se abracem, se beijem, se desejem.

Com afetuoso pudor, que o amor tenha praça pra se manifestar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de junho de 2022.

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