domingo, 22 de maio de 2022

O convite

 

O convite

 

Finalmente tocaram a campainha, mas não corri atender.

Se estivesse atrás da porta, a pessoa, com o dedo no ar, ficaria com cara de quem acha louvável quem torce pra que as notícias do mundo cheguem logo ao seu destino, à minha porta.

Também abriria rápido se estivesse em dia de faxina. Pra caprichar, tenho uma escovinha de dentes só pra limpar as ranhuras, frufrus que causam inveja em quem pensa que tenha me custado uma grana alta. Nada disso, porque a comprei em liquidação numa loja que estava pra abrir falência. Mesmo barata, dá trabalho mantê-la apresentável. É por isso que, sujinha, está dando na vista de quem passa na calçada.

Com as novidades tardando chegar, fui ficar no lado oposto da sala, na lavanderia, minha área favorita de casa, porque, coincidentemente, entre a cadeira de balanço e o fogão, tem essa porta tão minha amiga, por sua ojeriza a lingueta de tranca à luz do dia.

Apesar do frio, longe da comichão de querer que alguma mulher de lenço no pescoço viesse bater palmas no portão, nem percebi o quanto fiquei vendo as roupas balançando no varal.

E o vento levitava de leve um vestido da vizinha, não um vestidinho, mas um senhor vestido vermelho sem alcinha. E vê-lo era bem menos estressante que ficar gritando com cachorro que não parava de latir pra gato arisco, bailarino de muro coalhado de cacos de vidro.

Haja suposições pra ter estourado tanta pipoca.

Por conta do frio, não passei café. Gelado, cafezinho fica intragável. Podia apreciar o sossego sem temer hesitações? Foi pelo gostinho que me decidi por abrir uma garrafa de guaraná. Por abri-la e bebê-la.

Mas não ia bebendo agradecido comigo, bebericava a cada vez que punha pipoca na boca pois tinha errado no sal. Tendo a língua salgada, que perereco não salivar fel em prosa e verso.

Tocaram a campainha. Fui ver quem era. Não tinha ninguém.

E não tinha, por que me demorei feito criança que disfarça as ânsias do coração aos pulos fazendo fita de birrenta infeliz?

Comia pipoca.

Demorei atender, mas mensageiro pode sair correndo como gente folgazã que nem ajuíza o quanto tal atitude tem de ofensa pirracenta?

Ofende, e muito.

Não é fácil esconder o sangue quente na cara enfurecida da gente, mas não chispei as frustrações em quem só estava passando. Calçada é lugar de passagem, mas que gente era aquela que resolveu passear, atravancando o caminho?

Cuspi os piruás pra sarjeta. Fiz questão.

Nesta minha trama de pessoa na iminência de receber convite a tão festejado evento, queria que aguardassem. Soubessem me esperar só um pouco. Pois eu vinha determinado a mostrar toda minha humildade, a minha respeitosa humildade.

Ternamente comovido com tamanha deferência a mim, logo eu que não tenho nome na praça nem como papador de pipoca, fui eu que abri a porta pra ninguém.

Mais chato do que ficar esperando? É acabar de mãos abanando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de maio de 2022.

Nenhum comentário:

Postar um comentário