O
convite
Finalmente tocaram a campainha, mas não
corri atender.
Se estivesse atrás da porta, a pessoa, com
o dedo no ar, ficaria com cara de quem acha louvável quem torce pra que as notícias
do mundo cheguem logo ao seu destino, à minha porta.
Também abriria rápido se estivesse em
dia de faxina. Pra caprichar, tenho uma escovinha de dentes só pra limpar as
ranhuras, frufrus que causam inveja em quem pensa que tenha me custado uma grana
alta. Nada disso, porque a comprei em liquidação numa loja que estava pra abrir
falência. Mesmo barata, dá trabalho mantê-la apresentável. É por isso que, sujinha,
está dando na vista de quem passa na calçada.
Com as novidades tardando chegar, fui ficar
no lado oposto da sala, na lavanderia, minha área favorita de casa, porque, coincidentemente,
entre a cadeira de balanço e o fogão, tem essa porta tão minha amiga, por sua
ojeriza a lingueta de tranca à luz do dia.
Apesar do frio, longe da comichão de querer
que alguma mulher de lenço no pescoço viesse bater palmas no portão, nem percebi
o quanto fiquei vendo as roupas balançando no varal.
E o vento levitava de leve um vestido da
vizinha, não um vestidinho, mas um senhor vestido vermelho sem alcinha. E vê-lo
era bem menos estressante que ficar gritando com cachorro que não parava de
latir pra gato arisco, bailarino de muro coalhado de cacos de vidro.
Haja suposições pra ter estourado tanta
pipoca.
Por conta do frio, não passei café.
Gelado, cafezinho fica intragável. Podia apreciar o sossego sem temer hesitações?
Foi pelo gostinho que me decidi por abrir uma garrafa de guaraná. Por abri-la e
bebê-la.
Mas não ia bebendo agradecido comigo, bebericava
a cada vez que punha pipoca na boca pois tinha errado no sal. Tendo a língua salgada,
que perereco não salivar fel em prosa e verso.
Tocaram a campainha. Fui ver quem era.
Não tinha ninguém.
E não tinha, por que me demorei feito
criança que disfarça as ânsias do coração aos pulos fazendo fita de birrenta
infeliz?
Comia pipoca.
Demorei atender, mas mensageiro pode
sair correndo como gente folgazã que nem ajuíza o quanto tal atitude tem de ofensa
pirracenta?
Ofende, e muito.
Não é fácil esconder o sangue quente na
cara enfurecida da gente, mas não chispei as frustrações em quem só estava
passando. Calçada é lugar de passagem, mas que gente era aquela que resolveu
passear, atravancando o caminho?
Cuspi os piruás pra sarjeta. Fiz
questão.
Nesta minha trama de pessoa na iminência
de receber convite a tão festejado evento, queria que aguardassem. Soubessem me
esperar só um pouco. Pois eu vinha determinado a mostrar toda minha humildade,
a minha respeitosa humildade.
Ternamente comovido com tamanha deferência
a mim, logo eu que não tenho nome na praça nem como papador de pipoca, fui eu que
abri a porta pra ninguém.
Mais chato do que ficar esperando? É acabar
de mãos abanando.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de maio de 2022.
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