Pequenos
prazeres
É vendo
que se aprende a amarrar o cadarço dos sapatos. É vendo que se aprende a
escovar os dentes. Também é vendo que se aprende a dormir sentado, mas a cochilar
em pé aprende-se sozinho.
Copiar
os outros não tem nada de especial, mas ganha tempo quem imita os gestos que
outras pessoas executam sem que seja preciso dar atenção maior. Automáticas é
que as pessoas tocam a rotina banal de ir vivendo sem notar o quão
insatisfatória é a vida.
Juízo,
não invente de sair correndo com tênis desamarrado porque o ônibus acaba de dobrar
a esquina.
Pra
não ser chacoteado feito bobo, não veja problema onde não há: em tênis sem
cadarço, basta enfiar o pé; dormindo em copo d’água, a dentadura não machuca; mas
só busão lotado pega gente atrasada.
O hábito
mais corriqueiro pode ser bem diferente?
A
pessoa que olha o celular pode ignorar a grávida que traz na mão um pacote de
fraldas, é seu direito ocupar-se com a leitura e o carrinho cheio não ficará
mais leve, mas há sorriso que convence sem que seja forçoso pedir preferência
nas filas de cada dia.
Mesmo que
ninguém tenha servido de exemplo, a iniciativa de agir por conta própria pode produzir
umas boas alegrias.
Se a
luz está acesa sem necessidade, apague-se. Se o banho pode durar dez minutos, banhe-se.
Se alguém alega pressa, botando fé que seja desculpa, ceda-se a vez sem compartilhar
a boa ação.
É
claro que gentileza não implica em fazer-se de palhaço, porque a decisão de
comportar-se assim ou assado não é dever, é direito.
Quem
pertence à turma dos que não cumprimentam quem entra na sala sem cumprimentar, tudo
bem achar que faz o certo.
Se uma
pessoa pede licença pra dizer o que pensa mesmo sem ser convidada, não é
preciso gritar para que seja interrompida.
Dá para
fazer do mundo um lugar mais luminoso mesmo sem ficar dizendo amém a todo
instante, mas não tem janela aberta que impeça a chuva de molhar o chão do
quarto. Se está molhado, enxugue-se ou corra-se o risco de escorregadinha caricata
ou tombaço estrepitoso.
Só não
tem graça pensar que uma pessoa que suporta em silêncio o que lhe está fazendo
mal é paciente. Quem não responde a ofensas, humilhações e ataques vis é mais
do que palerma, é complacente.
Será?
Manter
no tornozelo uma correntinha de prata não equivale a exibir coleira de ouro no
pescoço, ainda que ambas tenham sido dadas como presente. Quem ama sente a
instabilidade que o amor provoca.
Se a
franja no olho incomoda, que ela seja aparada. Se as entradas vão ficando
indisfarçáveis, raspe-se a cabeça.
E
pessoa que usa barbeador elétrico não está dispensada de saber como não se
cortar com lâmina de barbear.
Há
quem cuspa na mão pra que a saliva ajude a limpar o corte, mas isso não
funcionará direito se estiver chupando bala. Pra não ficar com a careca melada,
seja usada a água da pia. Lave-se com água mineral quem for outro babaca esbanjador.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 12 de maio de 2022.
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