Faro
fino
Tem cheiro horrível à entrada da casa.
Com sol forte, o troço piora. É preciso que chova logo ou as pessoas terão de
prender a respiração pra não ficarem nauseadas.
Apertar as narinas. Não respirar pela
boca. Tudo pra estar certo de que é possível diminuir o fartum que tanto
desgraça o ambiente.
Em vão se o céu azul não facilitar. Sensibilizado,
o outono suaviza o tom, mas nada pressupõe uma aragem benéfica.
Chuva, chuva boa, chuva que faça a
faxina na área, tal desejo não será atendido. Mesmo que se tome providências
como pular três vezes na perna direita, girar no sentido horário por sete
segundos e sussurrar “sim, eu posso” até que venha alguém dizer que “sim, eu
posso” é ideia ridícula que não ajuda bulhufas na formação de nuvens benfazejas.
Com um céu tão espaçoso, o bodum seguirá
nauseante.
Não é preciso exagerar, pensar que condescendentes
não têm foco pro motivo dessa carniça a céu descoberto.
É simples, basta postar-se em posição de
vigilância estrita pro fato ser revelado.
A verdade dos fatos sempre transparece, é
só interpretá-la de modo lúcido, imparcial, justo. Sim, quem anda no caminho da
justiça encontra a verdade ainda que haja gente que ache cansativa a mentalização
de um mundo melhor.
Indo do desejo ao ato, qualquer um pode
achar a razão pra tamanha fedentina à porta de casa.
Habitar o mundo é algo muito aborrecido
a quem se recusa a fechar as cortinas quando o sol incomoda. As pálpebras
existem porque têm função, todavia mantê-las abertas torna difícil enxergar
direito quando a luz está irritante. Dá pra fazer viseira com a mão, mas o
braço cansa. Já o sol, o brioso sol, esse daí não conhece lassidão nunca.
Com dose generosa de limão na caipirinha
do almoço, espantoso é buscar conforto depois de bater um pratão de feijoada. O
sofá regurgita quem traz nas tripas a paz por empanturramento. E pavoroso é comer
como se o preço da comida fosse dobrar a cada remarcação.
Caída depois do susto de estar salivando
a mais não possa, expulsa do soninho bom, a camaradinha socializa seu pesadelo.
O que não existia passou a existir com o
tapume. O terreno que não tinha semelhança com área baldia entra nessa
especulação. O que era propriedade sem ninguém a cuidá-la com o agrado de uma capinagem
de vez em quando, veio o dia em que o madeirite floresceu. E foi-se a
invisibilidade. E houve porta e nela pôs-se em aviso: entrada restrita a
pessoal autorizado. Deu-se o milagre da valorização que tem a ver com a falta
de olho mágico que permita seguir a construção. Subirá vistoso o prédio, cuja
posse dos apartamentos iluminados pelo sol cortês será concedida a quem pode
rir à toa, já que tem crédito que faz a gentileza de não cabalar dez mil por
cento de sua renda.
Ela não diz o que tem tramado.
Baixinha, a vigilante quer ter uma bexiga
grande que nem gente alta que não passa vexame ao batizar um poste.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de maio de 2022.
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