domingo, 15 de maio de 2022

Faro fino

 

Faro fino

 

Tem cheiro horrível à entrada da casa. Com sol forte, o troço piora. É preciso que chova logo ou as pessoas terão de prender a respiração pra não ficarem nauseadas.

Apertar as narinas. Não respirar pela boca. Tudo pra estar certo de que é possível diminuir o fartum que tanto desgraça o ambiente.

Em vão se o céu azul não facilitar. Sensibilizado, o outono suaviza o tom, mas nada pressupõe uma aragem benéfica.

Chuva, chuva boa, chuva que faça a faxina na área, tal desejo não será atendido. Mesmo que se tome providências como pular três vezes na perna direita, girar no sentido horário por sete segundos e sussurrar “sim, eu posso” até que venha alguém dizer que “sim, eu posso” é ideia ridícula que não ajuda bulhufas na formação de nuvens benfazejas.

Com um céu tão espaçoso, o bodum seguirá nauseante.

Não é preciso exagerar, pensar que condescendentes não têm foco pro motivo dessa carniça a céu descoberto.

É simples, basta postar-se em posição de vigilância estrita pro fato ser revelado.

A verdade dos fatos sempre transparece, é só interpretá-la de modo lúcido, imparcial, justo. Sim, quem anda no caminho da justiça encontra a verdade ainda que haja gente que ache cansativa a mentalização de um mundo melhor.

Indo do desejo ao ato, qualquer um pode achar a razão pra tamanha fedentina à porta de casa.

Habitar o mundo é algo muito aborrecido a quem se recusa a fechar as cortinas quando o sol incomoda. As pálpebras existem porque têm função, todavia mantê-las abertas torna difícil enxergar direito quando a luz está irritante. Dá pra fazer viseira com a mão, mas o braço cansa. Já o sol, o brioso sol, esse daí não conhece lassidão nunca.

Com dose generosa de limão na caipirinha do almoço, espantoso é buscar conforto depois de bater um pratão de feijoada. O sofá regurgita quem traz nas tripas a paz por empanturramento. E pavoroso é comer como se o preço da comida fosse dobrar a cada remarcação.

Caída depois do susto de estar salivando a mais não possa, expulsa do soninho bom, a camaradinha socializa seu pesadelo.

O que não existia passou a existir com o tapume. O terreno que não tinha semelhança com área baldia entra nessa especulação. O que era propriedade sem ninguém a cuidá-la com o agrado de uma capinagem de vez em quando, veio o dia em que o madeirite floresceu. E foi-se a invisibilidade. E houve porta e nela pôs-se em aviso: entrada restrita a pessoal autorizado. Deu-se o milagre da valorização que tem a ver com a falta de olho mágico que permita seguir a construção. Subirá vistoso o prédio, cuja posse dos apartamentos iluminados pelo sol cortês será concedida a quem pode rir à toa, já que tem crédito que faz a gentileza de não cabalar dez mil por cento de sua renda.

Ela não diz o que tem tramado.

Baixinha, a vigilante quer ter uma bexiga grande que nem gente alta que não passa vexame ao batizar um poste.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de maio de 2022.

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