Caipora!
E traz as mãos enfaixadas quem conta que
ficou descontrolado ao saber que seu cachorro morrera. Mesmo não sendo a
responsável por essa morte, murros foram dados na parede mesmo assim.
Há pessoas que reagem muito mal quando
informadas de supetão, ou pouco a pouco. Engana-se quem pensa que a gradação
detalhada do infortúnio ajude a amenizar a dor. Pra quem exagera pra caraca, o
impacto de notícia trágica é uma pancada brutal. De fato, a autoridade dos
patéticos fica arranhada sem uma dose boa de canastrice.
Quando falaram que um ônibus atropelara
seu bicho de estimação, a resposta furibunda quem deu foi a direita, de
encontro à parede.
De imediato, o gesto mostra que a
distância da orelha ao cérebro é curta em pessoas que tomam banho de modo modelar.
Sem dúvida, a perfeita remoção do cerume merece louvores, evidentemente.
Disseram que a vítima do atropelamento era
um pastor.
Inteligências fulminantes, que estreitam
meia palavra a conclusões, reafirmam que o pior surdo é aquele que ouve muito
bem.
Ouvira bem, muitíssimo bem. O seu pastor
não voltaria mais, nunca mais. Como o cachorro massacrado era o seu, não era do
vizinho que vivia se vangloriando de madrugadas mal dormidas, era irrelevante
que os pneus assassinos fossem de um micro-ônibus.
Pode parecer que os latidos do mundo não
estejam sincronizados com as batidas do coração de quem dorme de orelha em pé. Contudo,
é normal acreditar que uma noite de sono entrecortado torne plausível sentir o
peso de pulgas pulando na escuridão. Ou os leves movimentos dos cílios ocorreriam
de forma gratuita. E compreender o ritmo da vida por algum absurdo qualquer é sustentar
argumentação estapafúrdia.
Insistiram que o cão atropelado trazia
um pingente no qual o nome inscrito era Rex. Pastor chamado Rex? Só conhecia
um, o seu.
Tem gente fingida que se faz de tonta
apenas pra tirar vantagem da situação, pois, entre a necessidade e a liberdade,
o camelo passa pelo buraco da fechadura.
Quem entra no espelho não tem outra
finalidade que não seja a de lucrar com a especulação, sobrepondo o positivo no
negativo. Uma vez que uma ação raivosa nada tem de pecaminosa, é honroso deixar
que os sinos dobrem.
Rex morreu porque a van precisou jogar
pro lado para não pegar a bicicleta que trocou de faixa de repente.
O acaso tem leis que o azar perde tempo quando
quer justificar.
Mesmo não sendo obrigatório ir olhar o
quintal, já que não precisava ter certeza de que o Rex morto era mesmo o Rex,
tão logo viu que não tinha coleira na corrente, a esquerda socou a parede.
O fato é que a pessoa que dirigia a van,
cheia de crianças indo pra escola, evitou bater no ciclista que levou um susto
danado com o cão que saltou pro meio da rua. E foi desse jeito, foi escancarando
caninos assustadores de capa preta que ele teve morte na hora.
Rex, seu amado Rex, era pastor, mas era alemão.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de maio de 2022.
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