terça-feira, 17 de maio de 2022

Caipora!

 

Caipora!

 

E traz as mãos enfaixadas quem conta que ficou descontrolado ao saber que seu cachorro morrera. Mesmo não sendo a responsável por essa morte, murros foram dados na parede mesmo assim.

Há pessoas que reagem muito mal quando informadas de supetão, ou pouco a pouco. Engana-se quem pensa que a gradação detalhada do infortúnio ajude a amenizar a dor. Pra quem exagera pra caraca, o impacto de notícia trágica é uma pancada brutal. De fato, a autoridade dos patéticos fica arranhada sem uma dose boa de canastrice.

Quando falaram que um ônibus atropelara seu bicho de estimação, a resposta furibunda quem deu foi a direita, de encontro à parede.

De imediato, o gesto mostra que a distância da orelha ao cérebro é curta em pessoas que tomam banho de modo modelar. Sem dúvida, a perfeita remoção do cerume merece louvores, evidentemente.

Disseram que a vítima do atropelamento era um pastor.

Inteligências fulminantes, que estreitam meia palavra a conclusões, reafirmam que o pior surdo é aquele que ouve muito bem.

Ouvira bem, muitíssimo bem. O seu pastor não voltaria mais, nunca mais. Como o cachorro massacrado era o seu, não era do vizinho que vivia se vangloriando de madrugadas mal dormidas, era irrelevante que os pneus assassinos fossem de um micro-ônibus.

Pode parecer que os latidos do mundo não estejam sincronizados com as batidas do coração de quem dorme de orelha em pé. Contudo, é normal acreditar que uma noite de sono entrecortado torne plausível sentir o peso de pulgas pulando na escuridão. Ou os leves movimentos dos cílios ocorreriam de forma gratuita. E compreender o ritmo da vida por algum absurdo qualquer é sustentar argumentação estapafúrdia.

Insistiram que o cão atropelado trazia um pingente no qual o nome inscrito era Rex. Pastor chamado Rex? Só conhecia um, o seu.

Tem gente fingida que se faz de tonta apenas pra tirar vantagem da situação, pois, entre a necessidade e a liberdade, o camelo passa pelo buraco da fechadura.

Quem entra no espelho não tem outra finalidade que não seja a de lucrar com a especulação, sobrepondo o positivo no negativo. Uma vez que uma ação raivosa nada tem de pecaminosa, é honroso deixar que os sinos dobrem.

Rex morreu porque a van precisou jogar pro lado para não pegar a bicicleta que trocou de faixa de repente.

O acaso tem leis que o azar perde tempo quando quer justificar.

Mesmo não sendo obrigatório ir olhar o quintal, já que não precisava ter certeza de que o Rex morto era mesmo o Rex, tão logo viu que não tinha coleira na corrente, a esquerda socou a parede.

O fato é que a pessoa que dirigia a van, cheia de crianças indo pra escola, evitou bater no ciclista que levou um susto danado com o cão que saltou pro meio da rua. E foi desse jeito, foi escancarando caninos assustadores de capa preta que ele teve morte na hora.

Rex, seu amado Rex, era pastor, mas era alemão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de maio de 2022.

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