quinta-feira, 11 de março de 2021

Cão à solta

 

Cão à solta

 

Imerso nos acontecimentos, sinto-me eco latejante do caos.

Embebido na estupidez insana de uma indignação febril, descalço as sandálias da civilidade para pisotear o quintal de terra.

Besta, revolvo com os pés, esburaco e amasso; vou mesclando os grãos do solo. Não choro nem sangro, urino. Minha urina escorre por minhas pernas em frenesi. Colérico, escarro o chão que não mastigo.

Marco passo, mijo-me todo, dobro-me à fúria ꟷ a que destino?

Quero o monstro.

Quero que seja revelada a face hedionda, e assim encará-la.

Das mil faces que não domino, vislumbro umas poucas, essas que me permitem força à convicção, porquanto enlouquecido.

Quero-me transtornado, ignominioso, potente.

Quero-me atroz, demoníaco, tomado pelo indubitável.

Quero o monstro vivo, muito invulnerável. Muito, portanto sujeito a conjunturas e suas reverberações.

Todavia, abro os olhos, e a pitonisa apocalíptica abre sua caixinha de maquiagem e, sem fagulhas que atordoam, oferece pó de arroz.

Sem ganas de bicho-papão, não será urinando que vou extravasar as mágoas; só borrarei a minha máscara de cavaleiro valente.

Valho. Posso o que valho? Dou-me por válido quando cotidiano.

E vou, pois o dia tornou a vir. Como sempre, e simples, ele raiou.

Então, abro a janela, passo o café, pratico a realidade.

Para ter o cafezinho de cada dia, sem bobear, fervo a água.

Por água clorada, encho o filtro.

Banal e calado, leio jornais. Em dor e riso, faço a leitura.

E o mundo me entorpece, mas vivo neste rio de cujas águas não escapo. E faço-as mortíferas quando nelas me afogo e benfazejas se irrigam brotos de bambu. São águas, que lavam e banham.

Para o café no copo, o néctar das manhãs cai recolhido na leiteira depois que a água quente lambe as colheradas do pó no papel.

Para matar a sede, só encho o meu copo depois que as velas do filtro diminuem as incertezas quanto à água da rua.

Como lidar com aberrações que querem banalizado o inominável?

Como estancar a saliva do babão covarde?

Há monstros que assustam e amedrontam, mas temem a noite.

Há escuridão no quarto, corpo na cama, um travesseiro à nuca.

O alento diz ao cérebro que funcione sem parada. Não paro.

Dormindo, a mente coa os eventos. Prossigo...

Recordando, me animo com os acasos da memória. Acho.

A memória me mantém razoavelmente prático e lúcido.

Mantenho o fluxo pelas coronárias, consumo pouco sal.

Conservo a plasticidade dos neurônios, pelo riso espontâneo.

Para dar maior salubridade ao mel, que as abelhinhas da cozinha sigam a zunir em busca do que lhes seja pitorescamente imperativo.

Solto às ruas dos poetas, solto o tintim por tintim dos cartesianos, e prescrevo o filtro de barro como ampulheta.

Instante a instante, vejo a noite escoando; gota a gota, passo o dia pela torneirinha; gole a gole, saúdo a vida.

Não me envenene à monstruosidade o esquecimento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de março de 2021.

terça-feira, 9 de março de 2021

Jeitinho

 

Jeitinho

 

A vida é isso, e isso passa. Se não passa, tem coisa errada. Fica perigoso, sugere desatenção, e isso não se faz. Não convém desafiar o destino. Sim, a pessoa distraída meio que se descuida. E ver a vida passar é destino e, com isso, dá-se o caso por encerrado. Mas, neste caso, o que há é a ilusão de estar adiando o inevitável, até que venha o próximo enrosco. De enrascada em enrascada, vai-se vivendo, algo simples assim. Se isso for assim, que seja. Se assim é a vida, então a explicação fica justificada. E a vida, ora, a vida demanda isso.

Com isso boiando na sombra da cabeça na calçada, Catarina não atravessa a rua sobre a faixa de pedestres.

Para chegar na hora marcada, precisa urgente tomar um atalho. E atalha que faz certo ao cortar caminho em linha reta, direta no alvo.

E o centro do mundo, agora, é o salão, pois tem mesmo que dar um jeito naquele cabelo mais grisalho de tanta morte, tanta, que vem sem aviso nem nada, e vem a qualquer hora, via TV, via zap.

E pelo que vê e ouve sobre o que há e houve, puxa vida, sente a vida passando por demais agitada e numa pressa alucinada que tira a lentidão que precisa ter para conseguir dar conta do que faz.

Sabe que precisa mostrar que se empenha, por isso não se nega a compartilhar o seu dia a dia, sem ter vergonha da vida que leva.

Fica horrorizada só de pensar que possam achar que ela faz tudo nas coxas, afobada, leviana, vivendo como se nem ligasse de prestar conta do que esperam dela.

Mas, se estão cobrando, a querem muito bem. Se a querem bem, é porque a amam de verdade. Que beleza! Ser amada é ser querida e ser querida é ser desejada. E para manter isso, que a queiram linda e formosa, faz bem em correr dar um trato no visual.

É bom, mesmo, tirar da frente do espelho a desleixada.

Portanto chegasse pontualmente, ou adeus à vez agendada.

E nova oportunidade? Só dali a meses, talvez a um ano.

Porque o salão tem muita fama, tem muito bem consideradas suas profissionais; até a própria dona, aliás, é famigerada cabeleireira, pela merecida aposentadoria atrás do nome, deste seu renome construído com a dedicação de gente porreta, decidida, de pessoa que não abre mão da qualidade feita por experiência própria, passando exemplo.

Ali é lugar afamado pelo atendimento às clientes. Sim, somente e tão somente, são atendidas mulheres. Afinal, preserva-se o prestígio evitando-se obscenidades.

Uma dessas obscenidades é deixar buraco, pois lugar vago gera ociosidade. No código da proprietária, perder a hora é deixar de fazer dinheiro; e isso provoca prejuízo, porque funcionária desocupada não tem serventia.

Clientela tagarelando e socializando seus problemas, tudo bem; já tesouras ociosas, isso não. A empreendedora tem horror àquele papo furado gostoso que faz passar o tempo.

Gente!

Enfática, apontando os dígitos no celular, fala a chinesa:

ꟷ Catalina, paciência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2021.

 

domingo, 7 de março de 2021

O sabiá

 

O sabiá

 

Em certa alvorada de nuvens carregadas, estirado enviesado na cama, contorcido pela espinha espicaçada pelo tanto dos seus ossos estranhos ao sono pleno noturno, o suposto pescador viu-se fisgado pela tentação de ir à forra.

De caniço e samburá, foi.

Foi-se pela estrada no robusto jipe comedor de poeira, parceiro de décadas, sem molejo para o confortável dos luxos acessórios. É carro próprio ao chão batido para a sua travessia até a serpente que dança pela mata adentro.

E foi convicto de que poderia esquecer os trabalhos diários, pois a sua alma cansada de cultivar-se urbana entre urbanos irritadiços não estava só abatida, vibrava escuridão, entrevada numa energia imbecil que fazia a água virar a mesma, feito gelo desfeito.

Pela paz, foi à luta.

No barco, recolhidos os remos, aliviou-se, estava respirando como se nas veias o oxigênio do cosmos o sintonizasse com a correnteza.

Observou o rio. Estava influenciado pela quietude que amansa.

A fluidez silenciosa fazia tranquilizante o ar a quem pedia livrar-se do neurótico que grunhia, grunhia, vivia grunhindo, sem nem mesmo notar que assustava os carás, punha sobressaltadas as preás.

Sem cavalos de batalha, calou-se.

Sob chuva, concentrou no braço a força pensada para jogar longe a linha. Tanto pensou em alcançar um cardume de suculentos peixes graúdos que o fio foi acabar enroscado no galho de uma árvore alta, cuja copa densa de amarelo tão vivo punha-se contrastante ao ocre barrento da cobra de morosidade enervante.

Deu um puxão. A linha arrebentou. E o barco girou.

Só com um braço, remou. E o barco girou torto.

De que lado aquela coisa estava? Pelo jeito, do avesso.

Não era de esmorecer dócil, portanto esmoreceria rezingando.

De fibra comprovada por bravias bravatas, soltou a rede sobre as águas. Viu-a sumir. E deixou que sumisse. Molemente, afundando.

Todavia, logo veio outra puxada. Tratou de subi-la. Foi a trazendo à tona. E como queria que a rede voltasse sem auê.

O peso, porém, obrigou-o a dar um tranco.

Por tamanha brutalidade, o barco girou. Novamente, girou.

Chega! Basta! Fora!

E subiu à estrada. Foi amassando o barro. Indo com o sentimento doloroso, muito humano, que é a frustração.

De mãos abanando, compraria tilápias na primeira peixaria.

Já no alto, com vista ampla da várzea, nem ligou para o lodo todo.

Teria poderes fora do normal o mais comum dos homens?

Pois ele tinha mais de um, tinha dois.

Como burro de carga, vinha carregado de tralhas. Já como burro d’água, virara e revirara a canoa desnorteada.

Que domingo insolente!

Avaliando vã a sua filosofia, pensou que um super-herói bacana não encana porque não passa de um banana.

Com o Cruzeiro do Sul muito além do céu fechado, ao sabiá que não canta o encantado por curió suplicou uma realidade mais solar.

Foi quando, facilmente lunático, caiu de cara na lama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de março de 2021.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Uma senhora lição

 

Uma senhora lição

 

O homem provou o feijão antes do resto.

Ele queria o paladar afetado por temperos, tanto azedinhos quanto adocicados; queria se deliciar com a pitadinha do sal, o defumado do bacon; e da chicória, teve na língua aquela textura ótima.

Era feijãozinho caseiro o que degustava devagar.

Era muito bom desfrutar de uma comida tão gostosa. Certamente feita por gente que sabe o que faz, e que gosta muito do que faz.

Havia esse toque, podia perceber, daí a sua alegria infantil.

O olhar brilhava, e aquela vivacidade vinha da confirmação de que há no mundo quem ama trabalhar a serviço do feito com capricho.

E a chicória era um capricho a ser louvado, e louvou.

Porém, a mulher refreou-se. Apesar de contrariada, não franziu a testa. Acabou perdendo a leveza de mastigar com serenidade.

Certa de que aquele sujeito estava se achando superior ao marido que disse chicória em vez de escarola.

Ela não recuou, continuou demonstrando a sua contrariedade.

Olhava firme. Quanto mais a raiva fervia, mais sustentava o olhar.

Ambos tinham o direito de falar do jeito que quisessem.

O que a irritava sobremodo era a empáfia daquele senhor que não escondia a condescendência. Como se autorizasse a fala estragada da escumalha que vive maltratando a língua.

Não era nenhuma bobagem enfezar com tamanha afronta.

Ela era diferente do esposo, e como era.

Se tomasse pé da situação, ele ficaria triste e daria de ombros. Ela não engoliria aquele desdém babaca, daí o seu despeito explícito.

Se ele é dos que separam a goiaba bichada, ela a aproveita para fazer uma goiabada bem gostosa.

Enquanto ela gargalha, ele apenas sorri.

Não iria apressar a refeição. E mastigava deixando ver que sentia prazer ao mostrar-se consciente deste prazer, porque podia escolher o modo como comia. Até mostrar-se satisfeita.

E tinha isso desde criança. Tinha essa quedinha por uma cena.

Punha gosto em desacelerar quando a queriam rápida.

Mantinha a perna cruzada se lhe pediam joelhos emparelhados.

Na hora da rasteirinha, salto alto.

Na vez do pranto, o riso.

Se podia pagar, pedia desconto.

Mesmo sendo da paz, não a provocassem. Pois encarava os seus medos, pegava coragem se a queriam acabrunhada. Topava o tapa.

Desde miudinha, era mesmo este caso sério.

Ela não precisava ser lembrada da humilhação por causa de uma redação. A professora pedira uma história já contada. Ainda que não fosse exigida originalidade, ela teria de ser bem contada.

Então, achando-se inteligente o bastante para enfiar palavras que a maioria de sua turma nem sabia que existiam, ela quis impressionar e O homem nu do Fernando Sabino virou O prelado pelado.

Querendo espanto, resolveu explicar o título.

Foi dizendo que burro precisava ir consultar um dicionário, já que sacristão ou sacripanta não tinham cabimento, porque prelado era um ilustre coroinha nu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de março de 2021.

terça-feira, 2 de março de 2021

Fim de festa

 

Fim de festa

 

Que as duas meninas eram gêmeas, as suas roupas idênticas não deixavam dúvidas.

Tinham um vistoso laço de fita amarela no coque lateral no campo direito da cabeça. Calçavam lustroso sapatinho preto de boneca cujo cadarço era de cetim aveludado da mesma cor.

Que elas eram diferentes, o modo como cada uma entrou na festa permitiu a suposição.

Com cara de quem está querendo sair correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.

Que ambas eram cativantes, em minutos os convidados estavam simpáticos ou antipáticos.

Logo, a jovem senhora pôs-se a comer coxinha, entretida a relatar os feitos da sua prole exemplar. Logo, o jovem marido bebia cerveja, pois a sua garganta secava pelo excesso de opiniões.

Mas nenhum vestido era impermeável à visão.

A mais exuberante na peraltice correu abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo de alegria.

A menos atrevida tratou de fingir direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável de sua elegante figura.

Mas tecido algum era intocável.

Choramingando, frustrada com a própria incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso que caiu do bolinho assim que ela o mordeu.

Gritando, endiabrada como as coleguinhas sapecas, Marina não ia ficar tomando refrigerante e usando guardanapo de papel para limpar a boca cheia de energia.

Todavia, nenhuma roupagem era modelar.

A dupla univitelina largou tudo que fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.

Brincalhão, sequer adestrado pela coleira de um nome, era um ser fofinho, solto por natureza.

Num átimo, Marina e Mariana esqueceram suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para elas.

Impossível que ele não fosse destinado a elas!

Nem pai nem mãe abalariam aquela certeza: o cão era vítima.

Estava errado. Precisava ser consertado, devia. Aquele erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.

Ignorar o caso seria feio, muito feio, e elas não eram feias.

O coitado daquele cãozinho maravilhoso estava em mãos erradas. Aquele menininho bobão era muito criança que nem iria saber cuidar como deveria do bichinho indefeso.

Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha crueldade.

Portanto, como verdadeira combatente das mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote.

Portanto, como autêntica heroína contra vilões malvados, Mariana quis apoderar-se do pobre animalzinho.

Sem controle, a festa virou gritaria, tapa, unhada, choro, um caos.

Com o pandemônio instalado, nem as velas do bolo foram acesas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2021.

 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

A denúncia

 

A denúncia

 

Iria acontecer novamente. Já estava acontecendo, pois desejava pular aquela etapa. E como ardia. Se não bufava de raiva, agitava-se. De quando em quando, ia fumar seu cigarro à janela. Baforava, com a aflição de quem visivelmente confinado, uma jaguatirica na gaiola.

Portanto, vê-lo à janela passava seus encantos ꟷ por mostrar-se natural, cômicos; por vigiar-se tão zeloso, risíveis.

Como exemplo disso ou daquilo, ocorreu-lhe a convicção de que a sua cabeça, ou melhor, o cérebro era caixa para armazenar ideias.

Não, não era o cérebro. A mente era recipiente aos pensamentos. Mas não como um fichário com ideias devidamente anotadas nem um arquivo-morto com pastas do A ao Z organizando-as.

Se assim fosse, na verdade, isso tudo seria coisa de bibliotecário usando um método de catalogação, e não era o seu caso.

Aconteciam atritos, fricções e faíscas. Uma combustão doida, pois a cachola fervia de realidade.

Para efeitos de justiça, e para não se envergonhar da maneira que pensava, a imagem que a ele ocorreu mais próxima da autenticidade do seu jeito de pensar era a de uma latinha.

Uma latinha para manter aquecidos seus pensamentos pelo maior tempo possível. Então, pensava nas leis da termodinâmica favoráveis a uma lenta dissipação do calor consumido na preparação dos juízos, nutridos como alimento.

Queria dominar a energia que o amor e o ódio geravam, como se a sopa mental fervilhasse por afetos. Queria aumentar ou diminuir o fogo para obter mudanças químicas, físicas ou físico-químicas.

Mas, diante das imprevisibilidades do fogo, fugia das inovações.

Isto é, a sua mente opera como marmitex, pondo lado a lado o ovo que ficou frito em óleo de girassol, o feijão carioquinha cozinhado na pressão com alho, sal e uma pitadinha generosa de cominho, o arroz branco cozido em água levemente salgada.

Cresce o olho, saliva a boca, de barriga rangada: pensa o ávido.

Hediondo, segundo ele, era ter de ficar em banho-maria.

Preocupado com a encomenda que seria entregue na sua casa, o pipoqueiro da esquina não tinha aberto seu ganha-pão. Fazia já dois dias que enviaram o negócio, e nada de o entregarem.

O prejuízo nem era assim assustador, pois o dono do carrinho não precisava do telefone para atender pedidos.

Precisava urgente do carregador para poder publicar as imagens que conseguiu gravar no celular antes de esgotar a bateria.

Ele tinha certeza de que o perigo estava à solta, porque as coisas mais estarrecedoras sempre acontecem quando ninguém vê.

No fundo, o perverso revela tarde sua maldade porque não chama atenção sobre a crueldade do mundo que traz em si.

Ele, todavia, só registrou o que viu.

Em vez de sair gritando por socorro, a criança não apenas aceitou aquilo, abocanhou-o e fez cara de que estava delicioso chupá-lo.

Que vergonha um desconhecido dar balinha de graça!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de fevereiro de 2021.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A beleza do fogo

 

A beleza do fogo

 

Preciso tirar uma folga para pensar no que ando fazendo comigo. O alarme soou domingo passado, logo à entrada do supermercado.

Eu estava torto, carregado daquelas sacolas todas.

A cabeça concentrada no almoço que teria de preparar, posto que conservo o costume de comer, regularmente e sem frescura; menos quando tem beringela, que só o cheiro já me deixa mareado.

Talvez a cabeça não esteja mesmo funcionando muito bem, pois, ao ouvir o homem pedir fogo, gelei de cabo a rabo.

Fiquei no ar um instante, que nem sei quanto tempo durou, porque peguei viajar pela primeira nuvem que veio a calhar.

Boiando o susto, comecei com uma fogueira de São João, só que tinha alguma coisa esquisita com a figura, já que imediatamente intuí que era outra era, no céu o cometa Halley negava fosse junho; tinha a luneta caçando a cauda daquele ser ꟷ ser ou coisa ou objeto, a indefinição me levou a dilatar o universo além do embaraço; e nada disso, por sinal, deveria estar perfilando a sua sombra nesta história, ainda mais às onze e pouco deste carnaval suspenso, a muitos anos daquela cósmica passagem.

Apesar da pinta de brucutu, quis manter a simpatia. Contrariando certo pragmatismo urbano, ostensivamente insensível, optei o recato de agir como cidadão cordato que transmite ao corpo um tom menos hostil. Cara de pau, mas sorridente.

Com o piloto automático fazendo água, reagi como quem recusa o papel de vilão e, para não morder a própria boca, surfei o sorriso.

Convém a desculpa de que ninguém que surja abrupto de algum silenciamento miserável deixe de passar a impressão de um iminente choque obsceno.

Quando vi que empaquei, pelejei pela calma.

Focaria no almoço de logo mais. Poderia a franqueza das pessoas que fogem do cinismo. Destacaria que a sua necessidade de fogo era mesmo fundamental.

E dizer que fumar faz mal? Que é bom deixar o vício? Que gente boa não gasta dinheiro com o veneno que vicia, empobrece e tutela o fumante pelo medo da abstinência?

Que bacana. Mas quem tem saúde que a estrague.

Sim, a bílis tóxica, confesso pedindo perdão, reinava em mim, nas minhas inações de perplexo em displicência.

Era óbvio que precisava repousar, não ficar imóvel.

Como sou quem precisa escapulir das distrações ou as tentações vencem, descansaria se fosse pescar.

Mas, com o sol rachando a cachola, o melhor seria ficar enchendo a cara, ficar chumbado de cerveja, correndo urinar para dar conforto à bexiga e espaço aos processos orgânicos a regular o humor.

Transbordando intimidades com a justiça: não dá pé cair na rua.

Então é assim?

Então, meio ensandecido, meio sedutor de sereias engraçadinhas, feito poeta a pisar o espelho líquido com o qual a maré replica o azul do céu sobre a areia de uma realidade profilaticamente verídica, mas nem isso ateia fogo ao meu olhar de humanista mesmerizado.

Que beleza!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Só um café

 

Só um café

 

Como farpa, o sono permanece cutucando, íntimo, feito dente que dói quando em contato com água gelada, arrepia, e provoca tamanho incômodo.

Assim incomodado, sentindo-me boneco que derrete pela vibração da cera, percebo a bobagem do sentimento. Ou melhor, noto a tolice de imaginar-me coisa fabricada, reproduzida em série nos intestinos de uma fábrica, e salgo a boca.

Quero crer que me fabrico por meu engenho e empenho, não para correr mundo dando lucro porque descartável. Irrita-me pensar a mim mesmo como um brinquedo efêmero.

Ranzinza, não me contenta o fútil.

É bom tirar os braços de cima da mesa. É bom mesmo dar conta do café posto. Não adianta ficar retraído, a dar a manhã por perdida.

Se o pacote está no fim, vou comprar a bolacha de água, só água mesmo; nada de água e sal, que a deste tipo enerva-me de tão seca.

Explico-me.

Posso argumentar que vejo a mulher da minha vida deitada numa esteira na Praia do Futuro, sob o sol majestoso, que bronzeia rápido, sem precisar ficar questionando sua força, a sua potência, no abril de seu esplendor às três da tarde.

Bem, se aí pusesse os meus olhos a perfumar as suas coxas com ambição, salivaria indiscreto, a resgatar os perfumes da sua boca.

Tocado pela ternura, quero o café sem frustração, e bebo só.

Engasgo.

Viro outro tanto do café, o que destranca a garganta. Nem sei por que fico repetindo “riscar seu nome na areia com o pé”; sei, Miçanga é música boa de ouvir, porém veio feito pedra no bocado da reflexão.

Abro o jornal.

Leio porque preciso, porque muito me instrui, bem me alerta, faz o bastante para que eu pense melhor, com a calma dos ponderados e com aquela raiva que remove entulhos. Leio, porque é lendo que não mascaro as minhas ignorâncias quanto à variação do euro e ao valor nutritivo da fatia de pão integral mastigada por mim. Leio, embora a porta trepide quando os carros passam sobre buracos.

Fico amargo, azedo, e largo tudo. Tudo? Só o celular.

Não vou negar o privilégio de viver ajustado, mas trabalho para ter direito a salário que me permite pagar a comida que quero na mesa, ter chuveiro quente no frio de lascar de julho e garantir a ida rápida ao serviço no assento de minha preferência.

Distraído, o meu olhar traça planos.

De tesoura em punho, cortaria imagens coloridas, juntaria, colaria de novo. As minhas colagens de homem cinza tirariam do esboço o canto adormecido.

Bebo com gosto.

E olho a mesa posta, que pus, que a grana da semana me deixou ter à disposição de minhas angústias, infelicidades, tantos malogros.

Sem açúcar, já faz anos, não encaro a vida de outro jeito.

Sim, gosto de café.

Tenho pão de muitos grãos e tenho o pó extraforte das Gerais.

Tenho a melancolia dos sozinhos, uma vez que a borra desenha a amada a sorrir da parte ensolarada da praça, onde jorra café.

E peço mais o quê?

Quente ou frio, possa o sabor dos meus afetos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2021.

 

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Copo a copo

 

Copo a copo

 

Entre apressadas e lentas, assim se dividem as pessoas.

Sem demonstrar o entusiasmo que sentia provocado por ideia tão rotunda, levemente tocado pela certeza de que o poço desceria esse trago a mais, porque o sábio era explorador de pensamentos ácidos, corrosivamente tóxicos, salivares, então bebi outro gole.

Quem corre atrás do prejuízo está certo de que não deve assumir o peso da consciência, ainda que a lassidão faça demorar mais um segundo até unir o lastro da sombra improdutiva ao corpo ocioso.

Fui enchendo os copos, seguimos bebendo. Pensei ter ouvido que o mundo, pela baba deixada pelo sugador de gargalo, estaria dividido entre empregados e desempregados, mas eu também já estava bem bonzinho para ter compreensões econômicas.

Econômicas: de economia, não é por economia; antes a pecha de lento que a de leviano, caso os estressados peçam clareza.

Poderia ter acrescentado que a segregação passa pelo patrimônio gordo disfarçado em finérrima digital abonada pelo código binário, de zero e um, que satisfaz mercados que financiam seus mercadores.

Poderia, mas continuei passivo na jogada. Sem blefar nem dar de barato que os dados estavam na mesa, descartados como simpáticos a vigaristas que veneram santos mortos de sede, segurei o zap.

Não tenho pressa de chegar ao poço como se pote fosse, de barro ou de pau, fosse o que fosse, até um cântaro de água doce, tão doce que penso em barril ou tonel, jamais em odre ou cantil.

Minha cantilena sabe o que é preciso ser feito para que a garganta seja saciada. Não me basta querer água, tenho que ir atrás do copo, abrir a torneira ꟷ da pia, se potável; do filtro, por precaução; do galão, se o bolso tem fundo. Há prazer molhar o bico assim?

Com cerveja, calei a boca, dobrei a língua e amansei a mente.

Nem bêbado vou impedir quem faz questão de ocupar o centro da roda, embora pareça de uma pobreza espiritual achar que a luta entre nababescos e famélicos precise de árbitros imparciais, centrados pelo razoável da esperança.

Diante de indivíduo tão autêntico, sequei num gole o que me cabia da garrafa servida entre usuais degustadores de conversa mole.

Já alegrinho pelo simpósio ao balcão do pé-sujo, deixei de rodeio quando vi na TV a sonda da NASA soltando um drone em Marte.

Ora, era hora de jogar limpo, sem cartas na manga. Aquilo não era conquista da humanidade. Os bastardos abastados que parassem de dar-se posse do planeta todinho.

Como era de trucar, ele trucou.

Elogiou a minha boa vontade em ajustar a realidade ao meu juízo; realçou que nunca me achou um retardado, só um tanto retardatário quanto aos assuntos mais quentes. Brindou, como se fosse minha a ideia de que as moças iriam mesmo segurar os telespectadores com uns coloridos boletins meteorológicos de Lua, Terra e Marte.

Com o GPS apontando um deserto pela frente, quis nova rodada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2021.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A voz da vez

 

A voz da vez

 

Tolo o bastante para me acreditar imune aos desencantos de um mundo sem mistérios, busco estabelecer conexões lógicas ainda que a mente siga distraída.

Fácil, fácil, me distraio.

São ímãs potentes as pepitas que reluzem nos veios da memória sem que me caiba o esforço de prospectá-las além do brilho.

Inevitável, como o primeiro sutiã nas minhas retinas preservadas, acho bom dizer que negócio ter alma é propaganda.

Se entro de gaiato?

Preciso lembrar que nunca usei sutiã. Sim, desconfio de mim sem a convicção dos incrédulos profissionais. Não que isso de ter dúvidas me proteja das instabilidades da vida. Todavia, posso ao menos me concentrar.

Por exemplo, vendo na TV um filminho bom, com roteiro coerente e atores convincentes, procuro manter os olhos na história contada e, concomitantemente, trato de não morder com força um piruá.

Poxa, se não quero ter um dente quebrado por displicência minha, também não vou gostar muito de perder algum detalhe importante.

Se desejo, pago pelo que desejo. Ora essa.

Sei bem que não faz parte do pacote. Afinal, viver não tem roteiro, embora existam momentos que mereçam visitas monitoradas, porque recomendadas ou obrigatórias.

Zás! Transbordam os rios Tarauacá, Enviara, Iaco e Acre.

Zás! Pela fronteira, haitianos irrompem Peru adentro.

Puxa vida. Quando poderia estar ligado na corrente que me toma, já sinto brotar uma lágrima num dos olhos, enquanto sigo espiando a Fernanda Montenegro, de costas pra mim que a observo, dar rosto ao tom laranja daquele texto, “a esperança não existe sem você”.

Pois é, minha credibilidade de aço inoxidável como cidadão crítico vai por água abaixo assim que a areia que me constitui esse humano inflexível é lambida pela maré da renovação fraternalmente cósmica.

Minha cabeça faz confundir agora com quase ontem, esse passo atrás. Então, o quê? Poderia ter dado, mesmo, maior atenção ao ato? Com ou sem explicação, nada justifica uma besteira feita? E o cálculo torto tem jeito? Nem de bobeira a foice me escapa.

Zás! A mão não larga a Marielle da placa.

Zás! Por vacina, fazem fila em Serrana.

Na correria do mundo, não prendo a respiração, por isso mergulho de cabeça. E respiro, ainda respiro, pois ponho dormir o cérebro que filtra os seios, os sutiãs, as ideias de proteção, de amamentação.

Ladeira acima, ladeira abaixo.

E a primeira vez num ônibus sem cobrador? Já foi.

A primeira vez num ônibus sem motorista? Está chegando.

Não adianta nada, trem imperfeito, tirar atraso na banguela.

Oxe.

Sem nenhuma ironia, agora que estão tentando amordaçá-lo com a prisão, digo que esta não será a última vez que penso e digo umas palavrinhas sobre o direito de uma pessoa poder pensar e dizer o que queira, e da forma que queira, por isso aproveito esta vez única para dizer que nunca antes tinha ouvido o seu nome, Pablo Hasél.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Vacinada

 

Vacinada

 

Para muita gente, a realidade arisca gosta de fugir de quem a leva por demais a sério, esse pessoal que fica achando que joga caça ao rato, feito gato, é claro. Mas, por falta de uma perspectiva mais lúdica, nem percebe que está mesmo é num cerca-galinha endiabrado, com o bicho sempre frustrando por último.

Galináceos não comem apenas minhoca, e ideias não são assim tão sedutoras que sosseguem quem vive bicando onde pisa, atrás de informações que virem notícia, como se isso fosse milho na pança.

Ora, raposa tomando conta de galinheiro é chover no molhado, faz bocejar. Agora, galinha comandando raposeiro, isso faz pensar quem nem se dá conta da encrenca, fora o calafrio em quem vê lura e covil na velha raposeira que dicionário atesta existir.

Sim, imagine a coisa toda: a galinha faz a raposa ir comprar prego e madeira, exigindo nota fiscal e troco; a raposa pede à galinha que a faça ir dormir quando a coruja piar; a coruja fica de olhos arregalados vendo a cena do alto, empoleirada no cata-vento que gira anunciando tempestade à vista. Nem é preciso lembrar que galinha tem um medo danado de água, até de chuvisqueiro manso como galeto no espeto.

Metáforas?

O João Cabral pôs um poema a dizer: não há guarda-chuva contra o mundo, cada dia devorado nos jornais, sob as espécies de papel e tinta.

À parte a imaginação...

Sim, o mundo está lá fora, fluindo, tocando suas águas, indiferente à fogueirinha ardendo na cabeça. Longe do fumaceiro que vai indo, e vai subindo, até acabar disperso em algum lugar ali mesmo, dentro.

Este mundo não para, flui, entre uma ideia ainda não assimilada, como as escolas de portas reabertas, e uma certeza jamais posta à prova, de que estudantes têm mais o que fazer do que ficar evitando contato no pega-pega do recreio.

À vera, com quanto fubá se faz uma bela polenta?

Por uma vida cotidiana, outra vez ordinária, sem maiores atrativos que não sejam os goles da prosa fácil nem sempre dócil nos botecos e as paradas banais quase mesmo singelas nas esquinas, à porta do posto de saúde, naquela fila, estou com mamãe; e porque a conheço, percebo que ela apressa respirar o ar das ruas que a renova.

Esperançosa, falando mais do que o costumeiro, sua voz abafada pelo pano da máscara, sua mão assegurando-se da minha, a patente emoção apoderando-se do olho que lê o mundo com a leveza vivaz de suas pupilas positivamente nervosas.

Preenchida a ficha; comprovados os dados; escolhido o braço; é a sua vez, mamãe: de tremer um pouco com o tamanho da agulha, de sentir suportável a picada, de perguntar qual laboratório fez o bendito remédio, de questionar a data da segunda dose, de recuperar a velha verve que fervilha novamente, de ir-se embora pisando o chão tantas vezes interditado.

Na bandeja, a vacina visivelmente próxima...

Evoé!

Mamãe sorrindo vacinada, além de icônica, é bonita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2021.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Doce garfada macarronada afora

 

Doce garfada macarronada afora

 

Você, se posso a intimidade, ponho gosto que puxe o fio que lhe é oferecido e ponha gosto também gozar do quitute, que este fio a você apresentado leva no sabor o gostoso das coisas graciosas. Embora, na aparência e substância, não passe de macarrão, este, entretanto, fio que seja um ótimo manjar caseiro. Parecer isento e justo, porque a mim me julgo apreciador modestamente equilibrado, postado à mesa; alguém que aprova o que afirma, ressaltando no prato a sua condição inigualável, pelo frescor, de pasto feito para o consumo imediato.

Venha, amiga. Mas não faça como o primeiro filho que irá chegar, certo de que, apesar das bochechas rosadas, a bala de menta terá o poder mágico de enganar o nariz de todo mundo, tornando primaveril o cheiro de uísque. Amiga, por favor, em caso de habitual pilequinho a emaranhar o estômago, não fique pincelando com tomilho o frango assando numa pegada que não a sua. Mesmo que seja para torrar a paciência, venha.

Venha, amigo. Só que evite ficar pigarreando para encobrir arroto de bêbado que insiste em mais um golinho de cerveja. De todo modo, fica feio agarrar o batente da porta, encanado com essa ventania que ninguém sente. Aliás, ainda que o banheiro esteja livre, dando tempo de chamar o hugo mais de uma vez, pega mal dizer que não deveria ter tomado o remédio da sinusite.

Venham, amiga e amigo, mas venham para comer. Sem apelar a sorrisinhos de pessoas que se acham críticas o bastante para acusar, sem o espelho do autoexame. Você sabe muito bem, por experiência própria, que álcool é bom demais da conta, só que dar esculacho por tirar as travas de outrem também é.

Será tentação provar caipirinha com siso?

Contudo, é preciso dar no pé para manter o atraso de sempre.

Vamos, amorosamente recapitulemos essa jornada: no jogo bruto da sobrevivência, a macarronada do domingo começa no sábado.

E tem começo quando os telefonemas são dados com a cobrança maternal, com a severidade da autoridade provecta, como senhora do bordado sobre o riscado. Sobretudo, atenção, porque telefonemas de mãe sempre devem ser encerrados com aquele "sim, senhora”, que a obediência singela tanto recomenda.

Sugestão assim, com tal cordialidade indiscutível, lembra-nos que a luta a favor da vida pode ser bastante divertida, convém que venha, então, a macarronada fraternalmente apetecível.

Ter gente chupando o dedo a contraria, ela age:

Seja bem-vinda. Seja bem-vindo.

Que os convidados conformados à circunstância, possam o riso, o abraço, o garfo farto, a emoção da lágrima feliz, as alegrias da família reunida, que o amor pede, exige, acolhe, e reparte entre iguais.

No fim da linha, minha amargura não se apraz apartando panelas raspadas das limpas. Todavia, comigo incomodado, digo que panduio cheio bem se assemelha à comorbidade adquirida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de fevereiro de 2021.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Pipoca

 

Pipoca

 

Pipoca!

Ouvindo, você dispara que é nome de cachorro sapeca, serelepe, que não para quieto, vive fazendo arte, dando trabalho o dia todo.

Nem cão nem macho, Pipoca é gata.

Pipoca!

Aqui, em vez de palavrão, é o nome da dita cuja, da espoleta que vai passando feito furacão, tirando da sua mente, de quem lê, o lugar comum que diz que gato, mas gato mesmo, é enigmático, ser repleto de mistérios, uma esfinge, não um reles quadrúpede miador passível de pulgas.

Pipoca!

Você perde as estribeiras e grita, porque imagina útil quando a dor não diminui nem mesmo massageando o joelho depois de dar aquela baita batida no estrado da bendita cama.

Como, gatos têm classe para portar-se como deus egípcio?

Menos a Pipoca, que traz alegria moderada a quem conta com a melancolia de uma tardezinha açucaradamente bucólica e faz irritado à beça quem já espera o vendaval mas erra o nível de periculosidade.

Ou seja, a gata tem muito de fofa, e muito, muito, de travessa.

Pipoca!

A própria, ela que vem e que passa, num adorável auê, de apuro em apuro, deixando o seu rastro, até que o cansaço a derrube, afinal miados, saltos e sustos pedem baterias trincando, poxa.

Pinta uma quietude... Cadê?

Como não calça tênis, está roendo os cadarços.

De novo? Quando a fome aperta, está miando por ração.

A danada nem liga pra sol ou chuva, ela sabe miar, e capricha.

Haja guarda-roupa protetor quando troveja, dá sumiço.

Quando o bicho age ansiosamente por curiosidade, a sua pieguice enxerga traquinagem de animalzinho... elétrico, feito molecão.

De fato, pueril mesmo é você ficar vidrado, para lá e para cá, com a câmera do celular acompanhando a gatinha maravilhosa que não para de fazer coisas do além, gente.

Com tão ardorosa dedicação, cuidado não ter um troço.

Relaxe um pouco. Cidadãos onipresentes também defecam. Aliás, usufruindo-se dessa prosaica obrigatoriedade de excretar as massas alimentares produtivamente digeridas, realize com louvor outra tarefa, a de cadastrar-se com folga na fila da vacina.

Entenda, não é fácil viver o tempo todo numa montanha-russa.

Sem pegar pesado, note, você está se saindo bem, entregue aos negócios normais, até que reconhece não serem bigodes as patinhas mexendo na boca da bichana.

Pipoca!

Francamente, topada de testa na pia dói para cacete, todavia isso não autoriza ninguém a soltar o monstro moral que desperdiça água potável dando descarga exclusiva à barata mortinha da silva, caraca.

Pipoca aqui? Ali. Pipoca ali? Aqui.

Por um momentâneo lapso da imaginação, deixe que a Pipoca lhe passe aquela sensação natural de estar agindo como a gata que ela é, sem a responsabilidade de manter a caixinha de areia em ordem.

Dialeticamente fraterno, faça pulsar curtições leves nas veias, não só o veneno ferino que corrói as entranhas.

Ê Pipoca que não pipoca quando pipoca amor, numa boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2021.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Bola em jogo

 

Bola em jogo

 

De algum modo indisposto, talvez abalado pela segunda-feira que está à espreita, movendo o que não sabe dizer o que seja, o mané, com cara de bocó comendo mocotó, conforme lhe sugere o opaco da tela do micro ainda desligado, parece cansado de viver num palco, apropriado às estripulias bisonhamente paródicas, contudo o espelho só serve mesmo para espalhar os espetáculos de si.

A verdade, na verdade, é vaidade, só a vaidade, nada mais que a vaidade, pois, realmente, o resto é realidade.

Puxa, eu mereço. Levemente, desvio o olhar fechando os olhos.

Pois é, tenho por costume querer o mundo explicado, aliás muito bem explicadinho, assim, exagerado que sou, entro por aquela porta, que é a constatação de que as minhas vontades são pífias perante o caos do acaso, e saio por esta: interpreto-me quando tento interpretar a realidade.

E interpreto mal, de mal a pior. Perdendo pelo riso a seriedade do patético, eis-me um pacóvio tagarela, e canastrão por caras e bocas.

Se minha mente está empacada no escuro da obscuridade, vou às compras, deixando que a lista da vida me leve pela mão.

De repente? O semáforo inesperado no meio do meu trajeto.

Cidadezinha pacata, de rua que sobe e a que desce, ter sinaleiro controlando o trânsito é demonstração de modernidade.

Do farol, alguém grita meu nome, inteiro; paro, e vejo que é gente amiga, um parceiro velho de escola, pessoa que ajudava a entender quando usar a tal Máscara de Bhaskara.

Está num carro potente, grandão, um cheio de portas, com espaço para família toda, inclusive sogra, porque é cidadão que não esconde ter sogra própria.

Como não ligo pra isso, aceno de volta.

Tocado pelo reconhecimento em plena rua de minha cidade natal?

Já perdido, com ideias em disparada, entro no supermercado.

Tentando organizar a cabeça, sigo funcionalmente cortês a quem me cumprimenta. Querendo arrumar os pensamentos, concordo que os preços estão uma barbaridade.

Mas, seu Rodrigues.

Todavia, dou de frente com o dono do possante lá do sinal.

E ele reclama do preço da lasanha, condena a politicagem que só atrapalha o Planalto, e, timidamente, desculpa-se pelo LP que jamais foi devolvido.

Que disco? Ora essa, o Disco da Vaca do Pink Floyd.

Que coisa. Nem me lembrava do adolescente que vivia para ouvir rock, os dignos representantes do rock europeu, do rock progressivo inglês, do Pink Floyd do Syd Barrett ao Genesis do Peter Gabriel.

Caraca, ocorre-me agora: serão daltônicas as vacas?

Nem sei quando a memória pisca o alerta, então, digo que o verde é para tocar adiante; o amarelo é pra tirar o pé do freio; no vermelho, desembesto de vez.

E vem um eco do meu passado me atropelando sem dó. E tromba comigo numa pinguela, atrás do campinho, onde minhas bolas viviam caindo.

Como até o coração joga comigo, peguei pavor aos pântanos.

Alto lá! Sim, senhor, isso já foi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2021.