Cão
à solta
Imerso nos acontecimentos, sinto-me eco
latejante do caos.
Embebido na estupidez insana de uma
indignação febril, descalço as sandálias da civilidade para pisotear o quintal
de terra.
Besta, revolvo com os pés, esburaco e
amasso; vou mesclando os grãos do solo. Não choro nem sangro, urino. Minha
urina escorre por minhas pernas em frenesi. Colérico, escarro o chão que não
mastigo.
Marco passo, mijo-me todo, dobro-me à
fúria ꟷ a que destino?
Quero o monstro.
Quero que seja revelada a face hedionda,
e assim encará-la.
Das mil faces que não domino, vislumbro umas
poucas, essas que me permitem força à convicção, porquanto enlouquecido.
Quero-me transtornado, ignominioso, potente.
Quero-me atroz, demoníaco, tomado pelo
indubitável.
Quero o monstro vivo, muito invulnerável.
Muito, portanto sujeito a conjunturas e suas reverberações.
Todavia, abro os olhos, e a pitonisa
apocalíptica abre sua caixinha de maquiagem e, sem fagulhas que atordoam, oferece
pó de arroz.
Sem ganas de bicho-papão, não será
urinando que vou extravasar as mágoas; só borrarei a minha máscara de cavaleiro
valente.
Valho. Posso o que valho? Dou-me por
válido quando cotidiano.
E vou, pois o dia tornou a vir. Como
sempre, e simples, ele raiou.
Então, abro a janela, passo o café,
pratico a realidade.
Para ter o cafezinho de cada dia, sem
bobear, fervo a água.
Por água clorada, encho o filtro.
Banal e calado, leio jornais. Em dor e
riso, faço a leitura.
E o mundo me entorpece, mas vivo neste
rio de cujas águas não escapo. E faço-as mortíferas quando nelas me afogo e
benfazejas se irrigam brotos de bambu. São águas, que lavam e banham.
Para o café no copo, o néctar das manhãs
cai recolhido na leiteira depois que a água quente lambe as colheradas do pó no
papel.
Para matar a sede, só encho o meu copo
depois que as velas do filtro diminuem as incertezas quanto à água da rua.
Como lidar com aberrações que querem banalizado
o inominável?
Como estancar a saliva do babão covarde?
Há monstros que assustam e amedrontam,
mas temem a noite.
Há escuridão no quarto, corpo na cama, um
travesseiro à nuca.
O alento diz ao cérebro que funcione sem
parada. Não paro.
Dormindo, a mente coa os eventos.
Prossigo...
Recordando, me animo com os acasos da memória.
Acho.
A memória me mantém razoavelmente prático
e lúcido.
Mantenho o fluxo pelas coronárias, consumo
pouco sal.
Conservo a plasticidade dos neurônios, pelo
riso espontâneo.
Para dar maior salubridade ao mel, que as
abelhinhas da cozinha sigam a zunir em busca do que lhes seja pitorescamente imperativo.
Solto às ruas dos poetas, solto o tintim
por tintim dos cartesianos, e prescrevo o filtro de barro como ampulheta.
Instante a instante, vejo a noite
escoando; gota a gota, passo o dia pela torneirinha; gole a gole, saúdo a vida.
Não me envenene à monstruosidade o
esquecimento.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de março de 2021.
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