quinta-feira, 11 de março de 2021

Cão à solta

 

Cão à solta

 

Imerso nos acontecimentos, sinto-me eco latejante do caos.

Embebido na estupidez insana de uma indignação febril, descalço as sandálias da civilidade para pisotear o quintal de terra.

Besta, revolvo com os pés, esburaco e amasso; vou mesclando os grãos do solo. Não choro nem sangro, urino. Minha urina escorre por minhas pernas em frenesi. Colérico, escarro o chão que não mastigo.

Marco passo, mijo-me todo, dobro-me à fúria ꟷ a que destino?

Quero o monstro.

Quero que seja revelada a face hedionda, e assim encará-la.

Das mil faces que não domino, vislumbro umas poucas, essas que me permitem força à convicção, porquanto enlouquecido.

Quero-me transtornado, ignominioso, potente.

Quero-me atroz, demoníaco, tomado pelo indubitável.

Quero o monstro vivo, muito invulnerável. Muito, portanto sujeito a conjunturas e suas reverberações.

Todavia, abro os olhos, e a pitonisa apocalíptica abre sua caixinha de maquiagem e, sem fagulhas que atordoam, oferece pó de arroz.

Sem ganas de bicho-papão, não será urinando que vou extravasar as mágoas; só borrarei a minha máscara de cavaleiro valente.

Valho. Posso o que valho? Dou-me por válido quando cotidiano.

E vou, pois o dia tornou a vir. Como sempre, e simples, ele raiou.

Então, abro a janela, passo o café, pratico a realidade.

Para ter o cafezinho de cada dia, sem bobear, fervo a água.

Por água clorada, encho o filtro.

Banal e calado, leio jornais. Em dor e riso, faço a leitura.

E o mundo me entorpece, mas vivo neste rio de cujas águas não escapo. E faço-as mortíferas quando nelas me afogo e benfazejas se irrigam brotos de bambu. São águas, que lavam e banham.

Para o café no copo, o néctar das manhãs cai recolhido na leiteira depois que a água quente lambe as colheradas do pó no papel.

Para matar a sede, só encho o meu copo depois que as velas do filtro diminuem as incertezas quanto à água da rua.

Como lidar com aberrações que querem banalizado o inominável?

Como estancar a saliva do babão covarde?

Há monstros que assustam e amedrontam, mas temem a noite.

Há escuridão no quarto, corpo na cama, um travesseiro à nuca.

O alento diz ao cérebro que funcione sem parada. Não paro.

Dormindo, a mente coa os eventos. Prossigo...

Recordando, me animo com os acasos da memória. Acho.

A memória me mantém razoavelmente prático e lúcido.

Mantenho o fluxo pelas coronárias, consumo pouco sal.

Conservo a plasticidade dos neurônios, pelo riso espontâneo.

Para dar maior salubridade ao mel, que as abelhinhas da cozinha sigam a zunir em busca do que lhes seja pitorescamente imperativo.

Solto às ruas dos poetas, solto o tintim por tintim dos cartesianos, e prescrevo o filtro de barro como ampulheta.

Instante a instante, vejo a noite escoando; gota a gota, passo o dia pela torneirinha; gole a gole, saúdo a vida.

Não me envenene à monstruosidade o esquecimento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de março de 2021.

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