domingo, 21 de fevereiro de 2021

Copo a copo

 

Copo a copo

 

Entre apressadas e lentas, assim se dividem as pessoas.

Sem demonstrar o entusiasmo que sentia provocado por ideia tão rotunda, levemente tocado pela certeza de que o poço desceria esse trago a mais, porque o sábio era explorador de pensamentos ácidos, corrosivamente tóxicos, salivares, então bebi outro gole.

Quem corre atrás do prejuízo está certo de que não deve assumir o peso da consciência, ainda que a lassidão faça demorar mais um segundo até unir o lastro da sombra improdutiva ao corpo ocioso.

Fui enchendo os copos, seguimos bebendo. Pensei ter ouvido que o mundo, pela baba deixada pelo sugador de gargalo, estaria dividido entre empregados e desempregados, mas eu também já estava bem bonzinho para ter compreensões econômicas.

Econômicas: de economia, não é por economia; antes a pecha de lento que a de leviano, caso os estressados peçam clareza.

Poderia ter acrescentado que a segregação passa pelo patrimônio gordo disfarçado em finérrima digital abonada pelo código binário, de zero e um, que satisfaz mercados que financiam seus mercadores.

Poderia, mas continuei passivo na jogada. Sem blefar nem dar de barato que os dados estavam na mesa, descartados como simpáticos a vigaristas que veneram santos mortos de sede, segurei o zap.

Não tenho pressa de chegar ao poço como se pote fosse, de barro ou de pau, fosse o que fosse, até um cântaro de água doce, tão doce que penso em barril ou tonel, jamais em odre ou cantil.

Minha cantilena sabe o que é preciso ser feito para que a garganta seja saciada. Não me basta querer água, tenho que ir atrás do copo, abrir a torneira ꟷ da pia, se potável; do filtro, por precaução; do galão, se o bolso tem fundo. Há prazer molhar o bico assim?

Com cerveja, calei a boca, dobrei a língua e amansei a mente.

Nem bêbado vou impedir quem faz questão de ocupar o centro da roda, embora pareça de uma pobreza espiritual achar que a luta entre nababescos e famélicos precise de árbitros imparciais, centrados pelo razoável da esperança.

Diante de indivíduo tão autêntico, sequei num gole o que me cabia da garrafa servida entre usuais degustadores de conversa mole.

Já alegrinho pelo simpósio ao balcão do pé-sujo, deixei de rodeio quando vi na TV a sonda da NASA soltando um drone em Marte.

Ora, era hora de jogar limpo, sem cartas na manga. Aquilo não era conquista da humanidade. Os bastardos abastados que parassem de dar-se posse do planeta todinho.

Como era de trucar, ele trucou.

Elogiou a minha boa vontade em ajustar a realidade ao meu juízo; realçou que nunca me achou um retardado, só um tanto retardatário quanto aos assuntos mais quentes. Brindou, como se fosse minha a ideia de que as moças iriam mesmo segurar os telespectadores com uns coloridos boletins meteorológicos de Lua, Terra e Marte.

Com o GPS apontando um deserto pela frente, quis nova rodada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2021.

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