Copo
a copo
Entre apressadas e lentas, assim se
dividem as pessoas.
Sem demonstrar o entusiasmo que sentia
provocado por ideia tão rotunda, levemente tocado pela certeza de que o poço
desceria esse trago a mais, porque o sábio era explorador de pensamentos ácidos,
corrosivamente tóxicos, salivares, então bebi outro gole.
Quem corre atrás do prejuízo está certo
de que não deve assumir o peso da consciência, ainda que a lassidão faça
demorar mais um segundo até unir o lastro da sombra improdutiva ao corpo ocioso.
Fui enchendo os copos, seguimos bebendo.
Pensei ter ouvido que o mundo, pela baba deixada pelo sugador de gargalo, estaria
dividido entre empregados e desempregados, mas eu também já estava bem bonzinho
para ter compreensões econômicas.
Econômicas: de economia, não é por
economia; antes a pecha de lento que a de leviano, caso os estressados peçam clareza.
Poderia ter acrescentado que a
segregação passa pelo patrimônio gordo disfarçado em finérrima digital abonada
pelo código binário, de zero e um, que satisfaz mercados que financiam seus mercadores.
Poderia, mas continuei passivo na
jogada. Sem blefar nem dar de barato que os dados estavam na mesa, descartados
como simpáticos a vigaristas que veneram santos mortos de sede, segurei o zap.
Não tenho pressa de chegar ao poço como
se pote fosse, de barro ou de pau, fosse o que fosse, até um cântaro de água
doce, tão doce que penso em barril ou tonel, jamais em odre ou cantil.
Minha cantilena sabe o que é preciso ser
feito para que a garganta seja saciada. Não me basta querer água, tenho que ir
atrás do copo, abrir a torneira ꟷ da pia, se potável; do filtro, por precaução;
do galão, se o bolso tem fundo. Há prazer molhar o bico assim?
Com cerveja, calei a boca, dobrei a
língua e amansei a mente.
Nem bêbado vou impedir quem faz questão
de ocupar o centro da roda, embora pareça de uma pobreza espiritual achar que a
luta entre nababescos e famélicos precise de árbitros imparciais, centrados
pelo razoável da esperança.
Diante de indivíduo tão autêntico, sequei
num gole o que me cabia da garrafa servida entre usuais degustadores de conversa
mole.
Já alegrinho pelo simpósio ao balcão do
pé-sujo, deixei de rodeio quando vi na TV a sonda da NASA soltando um drone em
Marte.
Ora, era hora de jogar limpo, sem cartas
na manga. Aquilo não era conquista da humanidade. Os bastardos abastados que parassem
de dar-se posse do planeta todinho.
Como era de trucar, ele trucou.
Elogiou a minha boa vontade em ajustar a
realidade ao meu juízo; realçou que nunca me achou um retardado, só um tanto retardatário
quanto aos assuntos mais quentes. Brindou, como se fosse minha a ideia de que
as moças iriam mesmo segurar os telespectadores com uns coloridos boletins meteorológicos
de Lua, Terra e Marte.
Com o GPS apontando um deserto pela frente,
quis nova rodada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2021.
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