domingo, 7 de março de 2021

O sabiá

 

O sabiá

 

Em certa alvorada de nuvens carregadas, estirado enviesado na cama, contorcido pela espinha espicaçada pelo tanto dos seus ossos estranhos ao sono pleno noturno, o suposto pescador viu-se fisgado pela tentação de ir à forra.

De caniço e samburá, foi.

Foi-se pela estrada no robusto jipe comedor de poeira, parceiro de décadas, sem molejo para o confortável dos luxos acessórios. É carro próprio ao chão batido para a sua travessia até a serpente que dança pela mata adentro.

E foi convicto de que poderia esquecer os trabalhos diários, pois a sua alma cansada de cultivar-se urbana entre urbanos irritadiços não estava só abatida, vibrava escuridão, entrevada numa energia imbecil que fazia a água virar a mesma, feito gelo desfeito.

Pela paz, foi à luta.

No barco, recolhidos os remos, aliviou-se, estava respirando como se nas veias o oxigênio do cosmos o sintonizasse com a correnteza.

Observou o rio. Estava influenciado pela quietude que amansa.

A fluidez silenciosa fazia tranquilizante o ar a quem pedia livrar-se do neurótico que grunhia, grunhia, vivia grunhindo, sem nem mesmo notar que assustava os carás, punha sobressaltadas as preás.

Sem cavalos de batalha, calou-se.

Sob chuva, concentrou no braço a força pensada para jogar longe a linha. Tanto pensou em alcançar um cardume de suculentos peixes graúdos que o fio foi acabar enroscado no galho de uma árvore alta, cuja copa densa de amarelo tão vivo punha-se contrastante ao ocre barrento da cobra de morosidade enervante.

Deu um puxão. A linha arrebentou. E o barco girou.

Só com um braço, remou. E o barco girou torto.

De que lado aquela coisa estava? Pelo jeito, do avesso.

Não era de esmorecer dócil, portanto esmoreceria rezingando.

De fibra comprovada por bravias bravatas, soltou a rede sobre as águas. Viu-a sumir. E deixou que sumisse. Molemente, afundando.

Todavia, logo veio outra puxada. Tratou de subi-la. Foi a trazendo à tona. E como queria que a rede voltasse sem auê.

O peso, porém, obrigou-o a dar um tranco.

Por tamanha brutalidade, o barco girou. Novamente, girou.

Chega! Basta! Fora!

E subiu à estrada. Foi amassando o barro. Indo com o sentimento doloroso, muito humano, que é a frustração.

De mãos abanando, compraria tilápias na primeira peixaria.

Já no alto, com vista ampla da várzea, nem ligou para o lodo todo.

Teria poderes fora do normal o mais comum dos homens?

Pois ele tinha mais de um, tinha dois.

Como burro de carga, vinha carregado de tralhas. Já como burro d’água, virara e revirara a canoa desnorteada.

Que domingo insolente!

Avaliando vã a sua filosofia, pensou que um super-herói bacana não encana porque não passa de um banana.

Com o Cruzeiro do Sul muito além do céu fechado, ao sabiá que não canta o encantado por curió suplicou uma realidade mais solar.

Foi quando, facilmente lunático, caiu de cara na lama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de março de 2021.

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