domingo, 28 de fevereiro de 2021

A denúncia

 

A denúncia

 

Iria acontecer novamente. Já estava acontecendo, pois desejava pular aquela etapa. E como ardia. Se não bufava de raiva, agitava-se. De quando em quando, ia fumar seu cigarro à janela. Baforava, com a aflição de quem visivelmente confinado, uma jaguatirica na gaiola.

Portanto, vê-lo à janela passava seus encantos ꟷ por mostrar-se natural, cômicos; por vigiar-se tão zeloso, risíveis.

Como exemplo disso ou daquilo, ocorreu-lhe a convicção de que a sua cabeça, ou melhor, o cérebro era caixa para armazenar ideias.

Não, não era o cérebro. A mente era recipiente aos pensamentos. Mas não como um fichário com ideias devidamente anotadas nem um arquivo-morto com pastas do A ao Z organizando-as.

Se assim fosse, na verdade, isso tudo seria coisa de bibliotecário usando um método de catalogação, e não era o seu caso.

Aconteciam atritos, fricções e faíscas. Uma combustão doida, pois a cachola fervia de realidade.

Para efeitos de justiça, e para não se envergonhar da maneira que pensava, a imagem que a ele ocorreu mais próxima da autenticidade do seu jeito de pensar era a de uma latinha.

Uma latinha para manter aquecidos seus pensamentos pelo maior tempo possível. Então, pensava nas leis da termodinâmica favoráveis a uma lenta dissipação do calor consumido na preparação dos juízos, nutridos como alimento.

Queria dominar a energia que o amor e o ódio geravam, como se a sopa mental fervilhasse por afetos. Queria aumentar ou diminuir o fogo para obter mudanças químicas, físicas ou físico-químicas.

Mas, diante das imprevisibilidades do fogo, fugia das inovações.

Isto é, a sua mente opera como marmitex, pondo lado a lado o ovo que ficou frito em óleo de girassol, o feijão carioquinha cozinhado na pressão com alho, sal e uma pitadinha generosa de cominho, o arroz branco cozido em água levemente salgada.

Cresce o olho, saliva a boca, de barriga rangada: pensa o ávido.

Hediondo, segundo ele, era ter de ficar em banho-maria.

Preocupado com a encomenda que seria entregue na sua casa, o pipoqueiro da esquina não tinha aberto seu ganha-pão. Fazia já dois dias que enviaram o negócio, e nada de o entregarem.

O prejuízo nem era assim assustador, pois o dono do carrinho não precisava do telefone para atender pedidos.

Precisava urgente do carregador para poder publicar as imagens que conseguiu gravar no celular antes de esgotar a bateria.

Ele tinha certeza de que o perigo estava à solta, porque as coisas mais estarrecedoras sempre acontecem quando ninguém vê.

No fundo, o perverso revela tarde sua maldade porque não chama atenção sobre a crueldade do mundo que traz em si.

Ele, todavia, só registrou o que viu.

Em vez de sair gritando por socorro, a criança não apenas aceitou aquilo, abocanhou-o e fez cara de que estava delicioso chupá-lo.

Que vergonha um desconhecido dar balinha de graça!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de fevereiro de 2021.

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