A
denúncia
Iria acontecer novamente. Já estava
acontecendo, pois desejava pular aquela etapa. E como ardia. Se não bufava de
raiva, agitava-se. De quando em quando, ia fumar seu cigarro à janela. Baforava,
com a aflição de quem visivelmente confinado, uma jaguatirica na gaiola.
Portanto, vê-lo à janela passava seus encantos
ꟷ por mostrar-se natural, cômicos; por vigiar-se tão zeloso, risíveis.
Como exemplo disso ou daquilo, ocorreu-lhe
a convicção de que a sua cabeça, ou melhor, o cérebro era caixa para armazenar
ideias.
Não, não era o cérebro. A mente era
recipiente aos pensamentos. Mas não como um fichário com ideias devidamente
anotadas nem um arquivo-morto com pastas do A ao Z organizando-as.
Se assim fosse, na verdade, isso tudo
seria coisa de bibliotecário usando um método de catalogação, e não era o seu caso.
Aconteciam atritos, fricções e faíscas.
Uma combustão doida, pois a cachola fervia de realidade.
Para efeitos de justiça, e para não se
envergonhar da maneira que pensava, a imagem que a ele ocorreu mais próxima da
autenticidade do seu jeito de pensar era a de uma latinha.
Uma latinha para manter aquecidos seus
pensamentos pelo maior tempo possível. Então, pensava nas leis da termodinâmica
favoráveis a uma lenta dissipação do calor consumido na preparação dos juízos,
nutridos como alimento.
Queria dominar a energia que o amor e o
ódio geravam, como se a sopa mental fervilhasse por afetos. Queria aumentar ou diminuir
o fogo para obter mudanças químicas, físicas ou físico-químicas.
Mas, diante das imprevisibilidades do
fogo, fugia das inovações.
Isto é, a sua mente opera como marmitex,
pondo lado a lado o ovo que ficou frito em óleo de girassol, o feijão
carioquinha cozinhado na pressão com alho, sal e uma pitadinha generosa de
cominho, o arroz branco cozido em água levemente salgada.
Cresce o olho, saliva a boca, de barriga
rangada: pensa o ávido.
Hediondo, segundo ele, era ter de ficar
em banho-maria.
Preocupado com a encomenda que seria
entregue na sua casa, o pipoqueiro da esquina não tinha aberto seu ganha-pão.
Fazia já dois dias que enviaram o negócio, e nada de o entregarem.
O prejuízo nem era assim assustador,
pois o dono do carrinho não precisava do telefone para atender pedidos.
Precisava urgente do carregador para poder
publicar as imagens que conseguiu gravar no celular antes de esgotar a bateria.
Ele tinha certeza de que o perigo estava
à solta, porque as coisas mais estarrecedoras sempre acontecem quando ninguém
vê.
No fundo, o perverso revela tarde sua
maldade porque não chama atenção sobre a crueldade do mundo que traz em si.
Ele, todavia, só registrou o que viu.
Em vez de sair gritando por socorro, a
criança não apenas aceitou aquilo, abocanhou-o e fez cara de que estava
delicioso chupá-lo.
Que vergonha um desconhecido dar balinha
de graça!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de fevereiro de 2021.
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