quinta-feira, 4 de março de 2021

Uma senhora lição

 

Uma senhora lição

 

O homem provou o feijão antes do resto.

Ele queria o paladar afetado por temperos, tanto azedinhos quanto adocicados; queria se deliciar com a pitadinha do sal, o defumado do bacon; e da chicória, teve na língua aquela textura ótima.

Era feijãozinho caseiro o que degustava devagar.

Era muito bom desfrutar de uma comida tão gostosa. Certamente feita por gente que sabe o que faz, e que gosta muito do que faz.

Havia esse toque, podia perceber, daí a sua alegria infantil.

O olhar brilhava, e aquela vivacidade vinha da confirmação de que há no mundo quem ama trabalhar a serviço do feito com capricho.

E a chicória era um capricho a ser louvado, e louvou.

Porém, a mulher refreou-se. Apesar de contrariada, não franziu a testa. Acabou perdendo a leveza de mastigar com serenidade.

Certa de que aquele sujeito estava se achando superior ao marido que disse chicória em vez de escarola.

Ela não recuou, continuou demonstrando a sua contrariedade.

Olhava firme. Quanto mais a raiva fervia, mais sustentava o olhar.

Ambos tinham o direito de falar do jeito que quisessem.

O que a irritava sobremodo era a empáfia daquele senhor que não escondia a condescendência. Como se autorizasse a fala estragada da escumalha que vive maltratando a língua.

Não era nenhuma bobagem enfezar com tamanha afronta.

Ela era diferente do esposo, e como era.

Se tomasse pé da situação, ele ficaria triste e daria de ombros. Ela não engoliria aquele desdém babaca, daí o seu despeito explícito.

Se ele é dos que separam a goiaba bichada, ela a aproveita para fazer uma goiabada bem gostosa.

Enquanto ela gargalha, ele apenas sorri.

Não iria apressar a refeição. E mastigava deixando ver que sentia prazer ao mostrar-se consciente deste prazer, porque podia escolher o modo como comia. Até mostrar-se satisfeita.

E tinha isso desde criança. Tinha essa quedinha por uma cena.

Punha gosto em desacelerar quando a queriam rápida.

Mantinha a perna cruzada se lhe pediam joelhos emparelhados.

Na hora da rasteirinha, salto alto.

Na vez do pranto, o riso.

Se podia pagar, pedia desconto.

Mesmo sendo da paz, não a provocassem. Pois encarava os seus medos, pegava coragem se a queriam acabrunhada. Topava o tapa.

Desde miudinha, era mesmo este caso sério.

Ela não precisava ser lembrada da humilhação por causa de uma redação. A professora pedira uma história já contada. Ainda que não fosse exigida originalidade, ela teria de ser bem contada.

Então, achando-se inteligente o bastante para enfiar palavras que a maioria de sua turma nem sabia que existiam, ela quis impressionar e O homem nu do Fernando Sabino virou O prelado pelado.

Querendo espanto, resolveu explicar o título.

Foi dizendo que burro precisava ir consultar um dicionário, já que sacristão ou sacripanta não tinham cabimento, porque prelado era um ilustre coroinha nu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de março de 2021.

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