terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Só um café

 

Só um café

 

Como farpa, o sono permanece cutucando, íntimo, feito dente que dói quando em contato com água gelada, arrepia, e provoca tamanho incômodo.

Assim incomodado, sentindo-me boneco que derrete pela vibração da cera, percebo a bobagem do sentimento. Ou melhor, noto a tolice de imaginar-me coisa fabricada, reproduzida em série nos intestinos de uma fábrica, e salgo a boca.

Quero crer que me fabrico por meu engenho e empenho, não para correr mundo dando lucro porque descartável. Irrita-me pensar a mim mesmo como um brinquedo efêmero.

Ranzinza, não me contenta o fútil.

É bom tirar os braços de cima da mesa. É bom mesmo dar conta do café posto. Não adianta ficar retraído, a dar a manhã por perdida.

Se o pacote está no fim, vou comprar a bolacha de água, só água mesmo; nada de água e sal, que a deste tipo enerva-me de tão seca.

Explico-me.

Posso argumentar que vejo a mulher da minha vida deitada numa esteira na Praia do Futuro, sob o sol majestoso, que bronzeia rápido, sem precisar ficar questionando sua força, a sua potência, no abril de seu esplendor às três da tarde.

Bem, se aí pusesse os meus olhos a perfumar as suas coxas com ambição, salivaria indiscreto, a resgatar os perfumes da sua boca.

Tocado pela ternura, quero o café sem frustração, e bebo só.

Engasgo.

Viro outro tanto do café, o que destranca a garganta. Nem sei por que fico repetindo “riscar seu nome na areia com o pé”; sei, Miçanga é música boa de ouvir, porém veio feito pedra no bocado da reflexão.

Abro o jornal.

Leio porque preciso, porque muito me instrui, bem me alerta, faz o bastante para que eu pense melhor, com a calma dos ponderados e com aquela raiva que remove entulhos. Leio, porque é lendo que não mascaro as minhas ignorâncias quanto à variação do euro e ao valor nutritivo da fatia de pão integral mastigada por mim. Leio, embora a porta trepide quando os carros passam sobre buracos.

Fico amargo, azedo, e largo tudo. Tudo? Só o celular.

Não vou negar o privilégio de viver ajustado, mas trabalho para ter direito a salário que me permite pagar a comida que quero na mesa, ter chuveiro quente no frio de lascar de julho e garantir a ida rápida ao serviço no assento de minha preferência.

Distraído, o meu olhar traça planos.

De tesoura em punho, cortaria imagens coloridas, juntaria, colaria de novo. As minhas colagens de homem cinza tirariam do esboço o canto adormecido.

Bebo com gosto.

E olho a mesa posta, que pus, que a grana da semana me deixou ter à disposição de minhas angústias, infelicidades, tantos malogros.

Sem açúcar, já faz anos, não encaro a vida de outro jeito.

Sim, gosto de café.

Tenho pão de muitos grãos e tenho o pó extraforte das Gerais.

Tenho a melancolia dos sozinhos, uma vez que a borra desenha a amada a sorrir da parte ensolarada da praça, onde jorra café.

E peço mais o quê?

Quente ou frio, possa o sabor dos meus afetos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2021.

 

 

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