Só
um café
Como farpa, o sono permanece cutucando, íntimo,
feito dente que dói quando em contato com água gelada, arrepia, e provoca tamanho
incômodo.
Assim incomodado, sentindo-me boneco que
derrete pela vibração da cera, percebo a bobagem do sentimento. Ou melhor, noto
a tolice de imaginar-me coisa fabricada, reproduzida em série nos intestinos de
uma fábrica, e salgo a boca.
Quero crer que me fabrico por meu
engenho e empenho, não para correr mundo dando lucro porque descartável. Irrita-me
pensar a mim mesmo como um brinquedo efêmero.
Ranzinza, não me contenta o fútil.
É bom tirar os braços de cima da mesa. É
bom mesmo dar conta do café posto. Não adianta ficar retraído, a dar a manhã por
perdida.
Se o pacote está no fim, vou comprar a bolacha
de água, só água mesmo; nada de água e sal, que a deste tipo enerva-me de tão
seca.
Explico-me.
Posso argumentar que vejo a mulher da
minha vida deitada numa esteira na Praia do Futuro, sob o sol majestoso, que bronzeia
rápido, sem precisar ficar questionando sua força, a sua potência, no abril de
seu esplendor às três da tarde.
Bem, se aí pusesse os meus olhos a
perfumar as suas coxas com ambição, salivaria indiscreto, a resgatar os perfumes
da sua boca.
Tocado pela ternura, quero o café sem
frustração, e bebo só.
Engasgo.
Viro outro tanto do café, o que
destranca a garganta. Nem sei por que fico repetindo “riscar seu nome na areia
com o pé”; sei, Miçanga é música boa de ouvir, porém veio feito pedra no
bocado da reflexão.
Abro o jornal.
Leio porque preciso, porque muito me
instrui, bem me alerta, faz o bastante para que eu pense melhor, com a calma
dos ponderados e com aquela raiva que remove entulhos. Leio, porque é lendo que
não mascaro as minhas ignorâncias quanto à variação do euro e ao valor
nutritivo da fatia de pão integral mastigada por mim. Leio, embora a porta
trepide quando os carros passam sobre buracos.
Fico amargo, azedo, e largo tudo. Tudo?
Só o celular.
Não vou negar o privilégio de viver ajustado,
mas trabalho para ter direito a salário que me permite pagar a comida que quero
na mesa, ter chuveiro quente no frio de lascar de julho e garantir a ida rápida
ao serviço no assento de minha preferência.
Distraído, o meu olhar traça planos.
De tesoura em punho, cortaria imagens
coloridas, juntaria, colaria de novo. As minhas colagens de homem cinza
tirariam do esboço o canto adormecido.
Bebo com gosto.
E olho a mesa posta, que pus, que a
grana da semana me deixou ter à disposição de minhas angústias, infelicidades, tantos
malogros.
Sem açúcar, já faz anos, não encaro a
vida de outro jeito.
Sim, gosto de café.
Tenho pão de muitos grãos e tenho o pó
extraforte das Gerais.
Tenho a melancolia dos sozinhos, uma vez
que a borra desenha a amada a sorrir da parte ensolarada da praça, onde jorra
café.
E peço mais o quê?
Quente ou frio, possa o sabor dos meus
afetos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de fevereiro de 2021.
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