quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A beleza do fogo

 

A beleza do fogo

 

Preciso tirar uma folga para pensar no que ando fazendo comigo. O alarme soou domingo passado, logo à entrada do supermercado.

Eu estava torto, carregado daquelas sacolas todas.

A cabeça concentrada no almoço que teria de preparar, posto que conservo o costume de comer, regularmente e sem frescura; menos quando tem beringela, que só o cheiro já me deixa mareado.

Talvez a cabeça não esteja mesmo funcionando muito bem, pois, ao ouvir o homem pedir fogo, gelei de cabo a rabo.

Fiquei no ar um instante, que nem sei quanto tempo durou, porque peguei viajar pela primeira nuvem que veio a calhar.

Boiando o susto, comecei com uma fogueira de São João, só que tinha alguma coisa esquisita com a figura, já que imediatamente intuí que era outra era, no céu o cometa Halley negava fosse junho; tinha a luneta caçando a cauda daquele ser ꟷ ser ou coisa ou objeto, a indefinição me levou a dilatar o universo além do embaraço; e nada disso, por sinal, deveria estar perfilando a sua sombra nesta história, ainda mais às onze e pouco deste carnaval suspenso, a muitos anos daquela cósmica passagem.

Apesar da pinta de brucutu, quis manter a simpatia. Contrariando certo pragmatismo urbano, ostensivamente insensível, optei o recato de agir como cidadão cordato que transmite ao corpo um tom menos hostil. Cara de pau, mas sorridente.

Com o piloto automático fazendo água, reagi como quem recusa o papel de vilão e, para não morder a própria boca, surfei o sorriso.

Convém a desculpa de que ninguém que surja abrupto de algum silenciamento miserável deixe de passar a impressão de um iminente choque obsceno.

Quando vi que empaquei, pelejei pela calma.

Focaria no almoço de logo mais. Poderia a franqueza das pessoas que fogem do cinismo. Destacaria que a sua necessidade de fogo era mesmo fundamental.

E dizer que fumar faz mal? Que é bom deixar o vício? Que gente boa não gasta dinheiro com o veneno que vicia, empobrece e tutela o fumante pelo medo da abstinência?

Que bacana. Mas quem tem saúde que a estrague.

Sim, a bílis tóxica, confesso pedindo perdão, reinava em mim, nas minhas inações de perplexo em displicência.

Era óbvio que precisava repousar, não ficar imóvel.

Como sou quem precisa escapulir das distrações ou as tentações vencem, descansaria se fosse pescar.

Mas, com o sol rachando a cachola, o melhor seria ficar enchendo a cara, ficar chumbado de cerveja, correndo urinar para dar conforto à bexiga e espaço aos processos orgânicos a regular o humor.

Transbordando intimidades com a justiça: não dá pé cair na rua.

Então é assim?

Então, meio ensandecido, meio sedutor de sereias engraçadinhas, feito poeta a pisar o espelho líquido com o qual a maré replica o azul do céu sobre a areia de uma realidade profilaticamente verídica, mas nem isso ateia fogo ao meu olhar de humanista mesmerizado.

Que beleza!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de fevereiro de 2021.

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