A
voz da vez
Tolo o bastante para me acreditar imune
aos desencantos de um mundo sem mistérios, busco estabelecer conexões lógicas
ainda que a mente siga distraída.
Fácil, fácil, me distraio.
São ímãs potentes as pepitas que reluzem
nos veios da memória sem que me caiba o esforço de prospectá-las além do brilho.
Inevitável, como o primeiro sutiã nas
minhas retinas preservadas, acho bom dizer que negócio ter alma é propaganda.
Se entro de gaiato?
Preciso lembrar que nunca usei sutiã. Sim,
desconfio de mim sem a convicção dos incrédulos profissionais. Não que isso de ter
dúvidas me proteja das instabilidades da vida. Todavia, posso ao menos me
concentrar.
Por exemplo, vendo na TV um filminho
bom, com roteiro coerente e atores convincentes, procuro manter os olhos na
história contada e, concomitantemente, trato de não morder com força um piruá.
Poxa, se não quero ter um dente quebrado
por displicência minha, também não vou gostar muito de perder algum detalhe
importante.
Se desejo, pago pelo que desejo. Ora
essa.
Sei bem que não faz parte do pacote. Afinal,
viver não tem roteiro, embora existam momentos que mereçam visitas monitoradas,
porque recomendadas ou obrigatórias.
Zás! Transbordam os rios Tarauacá,
Enviara, Iaco e Acre.
Zás! Pela fronteira, haitianos irrompem Peru
adentro.
Puxa vida. Quando poderia estar ligado
na corrente que me toma, já sinto brotar uma lágrima num dos olhos, enquanto sigo
espiando a Fernanda Montenegro, de costas pra mim que a observo, dar rosto ao
tom laranja daquele texto, “a esperança não existe sem você”.
Pois é, minha credibilidade de aço
inoxidável como cidadão crítico vai por água abaixo assim que a areia que me
constitui esse humano inflexível é lambida pela maré da renovação
fraternalmente cósmica.
Minha cabeça faz confundir agora com
quase ontem, esse passo atrás. Então, o quê? Poderia ter dado, mesmo, maior
atenção ao ato? Com ou sem explicação, nada justifica uma besteira feita? E o
cálculo torto tem jeito? Nem de bobeira a foice me escapa.
Zás! A mão não larga a Marielle da
placa.
Zás! Por vacina, fazem fila em Serrana.
Na correria do mundo, não prendo a
respiração, por isso mergulho de cabeça. E respiro, ainda respiro, pois ponho
dormir o cérebro que filtra os seios, os sutiãs, as ideias de proteção, de
amamentação.
Ladeira acima, ladeira abaixo.
E a primeira vez num ônibus sem cobrador?
Já foi.
A primeira vez num ônibus sem motorista?
Está chegando.
Não adianta nada, trem imperfeito, tirar
atraso na banguela.
Oxe.
Sem nenhuma ironia, agora que estão
tentando amordaçá-lo com a prisão, digo que esta não será a última vez que
penso e digo umas palavrinhas sobre o direito de uma pessoa poder pensar e
dizer o que queira, e da forma que queira, por isso aproveito esta vez única
para dizer que nunca antes tinha ouvido o seu nome, Pablo Hasél.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de fevereiro de 2021.
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