terça-feira, 9 de março de 2021

Jeitinho

 

Jeitinho

 

A vida é isso, e isso passa. Se não passa, tem coisa errada. Fica perigoso, sugere desatenção, e isso não se faz. Não convém desafiar o destino. Sim, a pessoa distraída meio que se descuida. E ver a vida passar é destino e, com isso, dá-se o caso por encerrado. Mas, neste caso, o que há é a ilusão de estar adiando o inevitável, até que venha o próximo enrosco. De enrascada em enrascada, vai-se vivendo, algo simples assim. Se isso for assim, que seja. Se assim é a vida, então a explicação fica justificada. E a vida, ora, a vida demanda isso.

Com isso boiando na sombra da cabeça na calçada, Catarina não atravessa a rua sobre a faixa de pedestres.

Para chegar na hora marcada, precisa urgente tomar um atalho. E atalha que faz certo ao cortar caminho em linha reta, direta no alvo.

E o centro do mundo, agora, é o salão, pois tem mesmo que dar um jeito naquele cabelo mais grisalho de tanta morte, tanta, que vem sem aviso nem nada, e vem a qualquer hora, via TV, via zap.

E pelo que vê e ouve sobre o que há e houve, puxa vida, sente a vida passando por demais agitada e numa pressa alucinada que tira a lentidão que precisa ter para conseguir dar conta do que faz.

Sabe que precisa mostrar que se empenha, por isso não se nega a compartilhar o seu dia a dia, sem ter vergonha da vida que leva.

Fica horrorizada só de pensar que possam achar que ela faz tudo nas coxas, afobada, leviana, vivendo como se nem ligasse de prestar conta do que esperam dela.

Mas, se estão cobrando, a querem muito bem. Se a querem bem, é porque a amam de verdade. Que beleza! Ser amada é ser querida e ser querida é ser desejada. E para manter isso, que a queiram linda e formosa, faz bem em correr dar um trato no visual.

É bom, mesmo, tirar da frente do espelho a desleixada.

Portanto chegasse pontualmente, ou adeus à vez agendada.

E nova oportunidade? Só dali a meses, talvez a um ano.

Porque o salão tem muita fama, tem muito bem consideradas suas profissionais; até a própria dona, aliás, é famigerada cabeleireira, pela merecida aposentadoria atrás do nome, deste seu renome construído com a dedicação de gente porreta, decidida, de pessoa que não abre mão da qualidade feita por experiência própria, passando exemplo.

Ali é lugar afamado pelo atendimento às clientes. Sim, somente e tão somente, são atendidas mulheres. Afinal, preserva-se o prestígio evitando-se obscenidades.

Uma dessas obscenidades é deixar buraco, pois lugar vago gera ociosidade. No código da proprietária, perder a hora é deixar de fazer dinheiro; e isso provoca prejuízo, porque funcionária desocupada não tem serventia.

Clientela tagarelando e socializando seus problemas, tudo bem; já tesouras ociosas, isso não. A empreendedora tem horror àquele papo furado gostoso que faz passar o tempo.

Gente!

Enfática, apontando os dígitos no celular, fala a chinesa:

ꟷ Catalina, paciência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de março de 2021.

 

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