Jeitinho
A vida é isso, e isso passa. Se não
passa, tem coisa errada. Fica perigoso, sugere desatenção, e isso não se faz. Não
convém desafiar o destino. Sim, a pessoa distraída meio que se descuida. E ver
a vida passar é destino e, com isso, dá-se o caso por encerrado. Mas, neste
caso, o que há é a ilusão de estar adiando o inevitável, até que venha o
próximo enrosco. De enrascada em enrascada, vai-se vivendo, algo simples assim.
Se isso for assim, que seja. Se assim é a vida, então a explicação fica
justificada. E a vida, ora, a vida demanda isso.
Com isso boiando na sombra da cabeça na
calçada, Catarina não atravessa a rua sobre a faixa de pedestres.
Para chegar na hora marcada, precisa
urgente tomar um atalho. E atalha que faz certo ao cortar caminho em linha
reta, direta no alvo.
E o centro do mundo, agora, é o salão,
pois tem mesmo que dar um jeito naquele cabelo mais grisalho de tanta morte, tanta,
que vem sem aviso nem nada, e vem a qualquer hora, via TV, via zap.
E pelo que vê e ouve sobre o que há e
houve, puxa vida, sente a vida passando por demais agitada e numa pressa
alucinada que tira a lentidão que precisa ter para conseguir dar conta do que
faz.
Sabe que precisa mostrar que se empenha,
por isso não se nega a compartilhar o seu dia a dia, sem ter vergonha da vida
que leva.
Fica horrorizada só de pensar que possam
achar que ela faz tudo nas coxas, afobada, leviana, vivendo como se nem ligasse
de prestar conta do que esperam dela.
Mas, se estão cobrando, a querem muito bem. Se a querem bem, é porque a amam de verdade. Que beleza! Ser amada é ser querida e ser querida é ser desejada. E para manter isso, que a queiram linda e formosa, faz bem em correr dar um trato no visual.
É bom, mesmo, tirar da frente do espelho
a desleixada.
Portanto chegasse pontualmente, ou adeus
à vez agendada.
E nova oportunidade? Só dali a meses, talvez
a um ano.
Porque o salão tem muita fama, tem muito
bem consideradas suas profissionais; até a própria dona, aliás, é famigerada cabeleireira,
pela merecida aposentadoria atrás do nome, deste seu renome construído com a
dedicação de gente porreta, decidida, de pessoa que não abre mão da qualidade
feita por experiência própria, passando exemplo.
Ali é lugar afamado pelo atendimento às
clientes. Sim, somente e tão somente, são atendidas mulheres. Afinal, preserva-se
o prestígio evitando-se obscenidades.
Uma dessas obscenidades é deixar buraco,
pois lugar vago gera ociosidade. No código da proprietária, perder a hora é deixar
de fazer dinheiro; e isso provoca prejuízo, porque funcionária desocupada não
tem serventia.
Clientela tagarelando e socializando
seus problemas, tudo bem; já tesouras ociosas, isso não. A empreendedora tem
horror àquele papo furado gostoso que faz passar o tempo.
Gente!
Enfática, apontando os dígitos no
celular, fala a chinesa:
ꟷ Catalina, paciência.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 09 de março de 2021.
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