terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Bola em jogo

 

Bola em jogo

 

De algum modo indisposto, talvez abalado pela segunda-feira que está à espreita, movendo o que não sabe dizer o que seja, o mané, com cara de bocó comendo mocotó, conforme lhe sugere o opaco da tela do micro ainda desligado, parece cansado de viver num palco, apropriado às estripulias bisonhamente paródicas, contudo o espelho só serve mesmo para espalhar os espetáculos de si.

A verdade, na verdade, é vaidade, só a vaidade, nada mais que a vaidade, pois, realmente, o resto é realidade.

Puxa, eu mereço. Levemente, desvio o olhar fechando os olhos.

Pois é, tenho por costume querer o mundo explicado, aliás muito bem explicadinho, assim, exagerado que sou, entro por aquela porta, que é a constatação de que as minhas vontades são pífias perante o caos do acaso, e saio por esta: interpreto-me quando tento interpretar a realidade.

E interpreto mal, de mal a pior. Perdendo pelo riso a seriedade do patético, eis-me um pacóvio tagarela, e canastrão por caras e bocas.

Se minha mente está empacada no escuro da obscuridade, vou às compras, deixando que a lista da vida me leve pela mão.

De repente? O semáforo inesperado no meio do meu trajeto.

Cidadezinha pacata, de rua que sobe e a que desce, ter sinaleiro controlando o trânsito é demonstração de modernidade.

Do farol, alguém grita meu nome, inteiro; paro, e vejo que é gente amiga, um parceiro velho de escola, pessoa que ajudava a entender quando usar a tal Máscara de Bhaskara.

Está num carro potente, grandão, um cheio de portas, com espaço para família toda, inclusive sogra, porque é cidadão que não esconde ter sogra própria.

Como não ligo pra isso, aceno de volta.

Tocado pelo reconhecimento em plena rua de minha cidade natal?

Já perdido, com ideias em disparada, entro no supermercado.

Tentando organizar a cabeça, sigo funcionalmente cortês a quem me cumprimenta. Querendo arrumar os pensamentos, concordo que os preços estão uma barbaridade.

Mas, seu Rodrigues.

Todavia, dou de frente com o dono do possante lá do sinal.

E ele reclama do preço da lasanha, condena a politicagem que só atrapalha o Planalto, e, timidamente, desculpa-se pelo LP que jamais foi devolvido.

Que disco? Ora essa, o Disco da Vaca do Pink Floyd.

Que coisa. Nem me lembrava do adolescente que vivia para ouvir rock, os dignos representantes do rock europeu, do rock progressivo inglês, do Pink Floyd do Syd Barrett ao Genesis do Peter Gabriel.

Caraca, ocorre-me agora: serão daltônicas as vacas?

Nem sei quando a memória pisca o alerta, então, digo que o verde é para tocar adiante; o amarelo é pra tirar o pé do freio; no vermelho, desembesto de vez.

E vem um eco do meu passado me atropelando sem dó. E tromba comigo numa pinguela, atrás do campinho, onde minhas bolas viviam caindo.

Como até o coração joga comigo, peguei pavor aos pântanos.

Alto lá! Sim, senhor, isso já foi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2021.

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