Vacinada
Para muita gente, a realidade arisca
gosta de fugir de quem a leva por demais a sério, esse pessoal que fica achando
que joga caça ao rato, feito gato, é claro. Mas, por falta de uma perspectiva
mais lúdica, nem percebe que está mesmo é num cerca-galinha endiabrado, com o
bicho sempre frustrando por último.
Galináceos não comem apenas minhoca, e
ideias não são assim tão sedutoras que sosseguem quem vive bicando onde pisa,
atrás de informações que virem notícia, como se isso fosse milho na pança.
Ora, raposa tomando conta de galinheiro
é chover no molhado, faz bocejar. Agora, galinha comandando raposeiro, isso faz
pensar quem nem se dá conta da encrenca, fora o calafrio em quem vê lura e
covil na velha raposeira que dicionário atesta existir.
Sim, imagine a coisa toda: a galinha faz
a raposa ir comprar prego e madeira, exigindo nota fiscal e troco; a raposa
pede à galinha que a faça ir dormir quando a coruja piar; a coruja fica de olhos
arregalados vendo a cena do alto, empoleirada no cata-vento que gira anunciando
tempestade à vista. Nem é preciso lembrar que galinha tem um medo danado de
água, até de chuvisqueiro manso como galeto no espeto.
Metáforas?
O João Cabral pôs um poema a dizer: não
há guarda-chuva contra o mundo, cada dia devorado nos jornais, sob as espécies
de papel e tinta.
À parte a imaginação...
Sim, o mundo está lá fora, fluindo,
tocando suas águas, indiferente à fogueirinha ardendo na cabeça. Longe do
fumaceiro que vai indo, e vai subindo, até acabar disperso em algum lugar ali mesmo,
dentro.
Este mundo não para, flui, entre uma
ideia ainda não assimilada, como as escolas de portas reabertas, e uma certeza jamais
posta à prova, de que estudantes têm mais o que fazer do que ficar evitando
contato no pega-pega do recreio.
À vera, com quanto fubá se faz uma bela polenta?
Por uma vida cotidiana, outra vez ordinária,
sem maiores atrativos que não sejam os goles da prosa fácil nem sempre dócil nos
botecos e as paradas banais quase mesmo singelas nas esquinas, à porta do posto
de saúde, naquela fila, estou com mamãe; e porque a conheço, percebo que ela apressa
respirar o ar das ruas que a renova.
Esperançosa, falando mais do que o
costumeiro, sua voz abafada pelo pano da máscara, sua mão assegurando-se da
minha, a patente emoção apoderando-se do olho que lê o mundo com a leveza vivaz
de suas pupilas positivamente nervosas.
Preenchida a ficha; comprovados os dados;
escolhido o braço; é a sua vez, mamãe: de tremer um pouco com o tamanho da
agulha, de sentir suportável a picada, de perguntar qual laboratório fez o
bendito remédio, de questionar a data da segunda dose, de recuperar a velha
verve que fervilha novamente, de ir-se embora pisando o chão tantas vezes interditado.
Na bandeja, a vacina visivelmente
próxima...
Evoé!
Mamãe sorrindo vacinada, além de
icônica, é bonita.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário