terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Vacinada

 

Vacinada

 

Para muita gente, a realidade arisca gosta de fugir de quem a leva por demais a sério, esse pessoal que fica achando que joga caça ao rato, feito gato, é claro. Mas, por falta de uma perspectiva mais lúdica, nem percebe que está mesmo é num cerca-galinha endiabrado, com o bicho sempre frustrando por último.

Galináceos não comem apenas minhoca, e ideias não são assim tão sedutoras que sosseguem quem vive bicando onde pisa, atrás de informações que virem notícia, como se isso fosse milho na pança.

Ora, raposa tomando conta de galinheiro é chover no molhado, faz bocejar. Agora, galinha comandando raposeiro, isso faz pensar quem nem se dá conta da encrenca, fora o calafrio em quem vê lura e covil na velha raposeira que dicionário atesta existir.

Sim, imagine a coisa toda: a galinha faz a raposa ir comprar prego e madeira, exigindo nota fiscal e troco; a raposa pede à galinha que a faça ir dormir quando a coruja piar; a coruja fica de olhos arregalados vendo a cena do alto, empoleirada no cata-vento que gira anunciando tempestade à vista. Nem é preciso lembrar que galinha tem um medo danado de água, até de chuvisqueiro manso como galeto no espeto.

Metáforas?

O João Cabral pôs um poema a dizer: não há guarda-chuva contra o mundo, cada dia devorado nos jornais, sob as espécies de papel e tinta.

À parte a imaginação...

Sim, o mundo está lá fora, fluindo, tocando suas águas, indiferente à fogueirinha ardendo na cabeça. Longe do fumaceiro que vai indo, e vai subindo, até acabar disperso em algum lugar ali mesmo, dentro.

Este mundo não para, flui, entre uma ideia ainda não assimilada, como as escolas de portas reabertas, e uma certeza jamais posta à prova, de que estudantes têm mais o que fazer do que ficar evitando contato no pega-pega do recreio.

À vera, com quanto fubá se faz uma bela polenta?

Por uma vida cotidiana, outra vez ordinária, sem maiores atrativos que não sejam os goles da prosa fácil nem sempre dócil nos botecos e as paradas banais quase mesmo singelas nas esquinas, à porta do posto de saúde, naquela fila, estou com mamãe; e porque a conheço, percebo que ela apressa respirar o ar das ruas que a renova.

Esperançosa, falando mais do que o costumeiro, sua voz abafada pelo pano da máscara, sua mão assegurando-se da minha, a patente emoção apoderando-se do olho que lê o mundo com a leveza vivaz de suas pupilas positivamente nervosas.

Preenchida a ficha; comprovados os dados; escolhido o braço; é a sua vez, mamãe: de tremer um pouco com o tamanho da agulha, de sentir suportável a picada, de perguntar qual laboratório fez o bendito remédio, de questionar a data da segunda dose, de recuperar a velha verve que fervilha novamente, de ir-se embora pisando o chão tantas vezes interditado.

Na bandeja, a vacina visivelmente próxima...

Evoé!

Mamãe sorrindo vacinada, além de icônica, é bonita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2021.

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