Fim
de festa
Que as duas meninas eram gêmeas, as suas
roupas idênticas não deixavam dúvidas.
Tinham um vistoso laço de fita amarela
no coque lateral no campo direito da cabeça. Calçavam lustroso sapatinho preto de
boneca cujo cadarço era de cetim aveludado da mesma cor.
Que elas eram diferentes, o modo como
cada uma entrou na festa permitiu a suposição.
Com cara de quem está querendo sair
correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o
pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.
Que ambas eram cativantes, em minutos os
convidados estavam simpáticos ou antipáticos.
Logo, a jovem senhora pôs-se a comer coxinha,
entretida a relatar os feitos da sua prole exemplar. Logo, o jovem marido bebia
cerveja, pois a sua garganta secava pelo excesso de opiniões.
Mas nenhum vestido era impermeável à
visão.
A mais exuberante na peraltice correu
abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo
de alegria.
A menos atrevida tratou de fingir
direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável de sua elegante
figura.
Mas tecido algum era intocável.
Choramingando, frustrada com a própria
incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso
que caiu do bolinho assim que ela o mordeu.
Gritando, endiabrada como as coleguinhas
sapecas, Marina não ia ficar tomando refrigerante e usando guardanapo de papel
para limpar a boca cheia de energia.
Todavia, nenhuma roupagem era modelar.
A dupla univitelina largou tudo que
fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de
quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.
Brincalhão, sequer adestrado pela
coleira de um nome, era um ser fofinho, solto por natureza.
Num átimo, Marina e Mariana esqueceram
suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para
elas.
Impossível que ele não fosse destinado a
elas!
Nem pai nem mãe abalariam aquela
certeza: o cão era vítima.
Estava errado. Precisava ser consertado,
devia. Aquele erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma
injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.
Ignorar o caso seria feio, muito feio, e
elas não eram feias.
O coitado daquele cãozinho maravilhoso
estava em mãos erradas. Aquele menininho bobão era muito criança que nem iria
saber cuidar como deveria do bichinho indefeso.
Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha
crueldade.
Portanto, como verdadeira combatente das
mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote.
Portanto, como autêntica heroína contra
vilões malvados, Mariana quis apoderar-se do pobre animalzinho.
Sem controle, a festa virou gritaria, tapa,
unhada, choro, um caos.
Com o pandemônio instalado, nem as velas
do bolo foram acesas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de março de 2021.
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