terça-feira, 2 de março de 2021

Fim de festa

 

Fim de festa

 

Que as duas meninas eram gêmeas, as suas roupas idênticas não deixavam dúvidas.

Tinham um vistoso laço de fita amarela no coque lateral no campo direito da cabeça. Calçavam lustroso sapatinho preto de boneca cujo cadarço era de cetim aveludado da mesma cor.

Que elas eram diferentes, o modo como cada uma entrou na festa permitiu a suposição.

Com cara de quem está querendo sair correndo, Mariana chegou de mão dada com a mãe; pedindo-lhe que o esperasse, o pai sorriu à porta, no encalço da saltitante Marina.

Que ambas eram cativantes, em minutos os convidados estavam simpáticos ou antipáticos.

Logo, a jovem senhora pôs-se a comer coxinha, entretida a relatar os feitos da sua prole exemplar. Logo, o jovem marido bebia cerveja, pois a sua garganta secava pelo excesso de opiniões.

Mas nenhum vestido era impermeável à visão.

A mais exuberante na peraltice correu abraçar as amiguinhas que retribuíram, amarrotando-se em congraçamento festivo de alegria.

A menos atrevida tratou de fingir direitinho que dava importância a que a elogiassem o arranjo impecável de sua elegante figura.

Mas tecido algum era intocável.

Choramingando, frustrada com a própria incompetência, Mariana pediu à mãe que limpasse a manchinha de queijo cremoso que caiu do bolinho assim que ela o mordeu.

Gritando, endiabrada como as coleguinhas sapecas, Marina não ia ficar tomando refrigerante e usando guardanapo de papel para limpar a boca cheia de energia.

Todavia, nenhuma roupagem era modelar.

A dupla univitelina largou tudo que fazia para querer tomar para si o presente de aniversário que o menino de quatro anos, tão inocente, achou que poderia exibir impunemente.

Brincalhão, sequer adestrado pela coleira de um nome, era um ser fofinho, solto por natureza.

Num átimo, Marina e Mariana esqueceram suas particularidades e viraram uma fera diante do cachorrinho que não era para elas.

Impossível que ele não fosse destinado a elas!

Nem pai nem mãe abalariam aquela certeza: o cão era vítima.

Estava errado. Precisava ser consertado, devia. Aquele erro teria de ser corrigido ou o mundo ficaria injusto. Nenhuma injustiça haveria de ser tolerada. Nenhuma vítima poderia ser ignorada.

Ignorar o caso seria feio, muito feio, e elas não eram feias.

O coitado daquele cãozinho maravilhoso estava em mãos erradas. Aquele menininho bobão era muito criança que nem iria saber cuidar como deveria do bichinho indefeso.

Unidas, tinham de impedir o absurdo de tamanha crueldade.

Portanto, como verdadeira combatente das mazelas da realidade, Marina quis tomar à força o filhote.

Portanto, como autêntica heroína contra vilões malvados, Mariana quis apoderar-se do pobre animalzinho.

Sem controle, a festa virou gritaria, tapa, unhada, choro, um caos.

Com o pandemônio instalado, nem as velas do bolo foram acesas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de março de 2021.

 

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