Doce
garfada macarronada afora
Você, se posso a intimidade, ponho gosto
que puxe o fio que lhe é oferecido e ponha gosto também gozar do quitute, que este
fio a você apresentado leva no sabor o gostoso das coisas graciosas. Embora, na
aparência e substância, não passe de macarrão, este, entretanto, fio que seja
um ótimo manjar caseiro. Parecer isento e justo, porque a mim me julgo apreciador
modestamente equilibrado, postado à mesa; alguém que aprova o que afirma,
ressaltando no prato a sua condição inigualável, pelo frescor, de pasto feito para
o consumo imediato.
Venha, amiga. Mas não faça como o
primeiro filho que irá chegar, certo de que, apesar das bochechas rosadas, a
bala de menta terá o poder mágico de enganar o nariz de todo mundo, tornando
primaveril o cheiro de uísque. Amiga, por favor, em caso de habitual pilequinho
a emaranhar o estômago, não fique pincelando com tomilho o frango assando numa
pegada que não a sua. Mesmo que seja para torrar a paciência, venha.
Venha, amigo. Só que evite ficar
pigarreando para encobrir arroto de bêbado que insiste em mais um golinho de
cerveja. De todo modo, fica feio agarrar o batente da porta, encanado com essa
ventania que ninguém sente. Aliás, ainda que o banheiro esteja livre, dando
tempo de chamar o hugo mais de uma vez, pega mal dizer que não deveria ter
tomado o remédio da sinusite.
Venham, amiga e amigo, mas venham para
comer. Sem apelar a sorrisinhos de pessoas que se acham críticas o bastante
para acusar, sem o espelho do autoexame. Você sabe muito bem, por experiência
própria, que álcool é bom demais da conta, só que dar esculacho por tirar as
travas de outrem também é.
Será tentação provar caipirinha com
siso?
Contudo, é preciso dar no pé para manter
o atraso de sempre.
Vamos, amorosamente recapitulemos essa
jornada: no jogo bruto da sobrevivência, a macarronada do domingo começa no
sábado.
E tem começo quando os telefonemas são
dados com a cobrança maternal, com a severidade da autoridade provecta, como
senhora do bordado sobre o riscado. Sobretudo, atenção, porque telefonemas de
mãe sempre devem ser encerrados com aquele "sim, senhora”, que a obediência
singela tanto recomenda.
Sugestão assim, com tal cordialidade
indiscutível, lembra-nos que a luta a favor da vida pode ser bastante divertida,
convém que venha, então, a macarronada fraternalmente apetecível.
Ter gente chupando o dedo a contraria, ela
age:
Seja bem-vinda. Seja bem-vindo.
Que os convidados conformados à
circunstância, possam o riso, o abraço, o garfo farto, a emoção da lágrima feliz,
as alegrias da família reunida, que o amor pede, exige, acolhe, e reparte entre
iguais.
No fim da linha, minha amargura não se apraz
apartando panelas raspadas das limpas. Todavia, comigo incomodado, digo que panduio
cheio bem se assemelha à comorbidade adquirida.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de fevereiro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário