domingo, 14 de fevereiro de 2021

Doce garfada macarronada afora

 

Doce garfada macarronada afora

 

Você, se posso a intimidade, ponho gosto que puxe o fio que lhe é oferecido e ponha gosto também gozar do quitute, que este fio a você apresentado leva no sabor o gostoso das coisas graciosas. Embora, na aparência e substância, não passe de macarrão, este, entretanto, fio que seja um ótimo manjar caseiro. Parecer isento e justo, porque a mim me julgo apreciador modestamente equilibrado, postado à mesa; alguém que aprova o que afirma, ressaltando no prato a sua condição inigualável, pelo frescor, de pasto feito para o consumo imediato.

Venha, amiga. Mas não faça como o primeiro filho que irá chegar, certo de que, apesar das bochechas rosadas, a bala de menta terá o poder mágico de enganar o nariz de todo mundo, tornando primaveril o cheiro de uísque. Amiga, por favor, em caso de habitual pilequinho a emaranhar o estômago, não fique pincelando com tomilho o frango assando numa pegada que não a sua. Mesmo que seja para torrar a paciência, venha.

Venha, amigo. Só que evite ficar pigarreando para encobrir arroto de bêbado que insiste em mais um golinho de cerveja. De todo modo, fica feio agarrar o batente da porta, encanado com essa ventania que ninguém sente. Aliás, ainda que o banheiro esteja livre, dando tempo de chamar o hugo mais de uma vez, pega mal dizer que não deveria ter tomado o remédio da sinusite.

Venham, amiga e amigo, mas venham para comer. Sem apelar a sorrisinhos de pessoas que se acham críticas o bastante para acusar, sem o espelho do autoexame. Você sabe muito bem, por experiência própria, que álcool é bom demais da conta, só que dar esculacho por tirar as travas de outrem também é.

Será tentação provar caipirinha com siso?

Contudo, é preciso dar no pé para manter o atraso de sempre.

Vamos, amorosamente recapitulemos essa jornada: no jogo bruto da sobrevivência, a macarronada do domingo começa no sábado.

E tem começo quando os telefonemas são dados com a cobrança maternal, com a severidade da autoridade provecta, como senhora do bordado sobre o riscado. Sobretudo, atenção, porque telefonemas de mãe sempre devem ser encerrados com aquele "sim, senhora”, que a obediência singela tanto recomenda.

Sugestão assim, com tal cordialidade indiscutível, lembra-nos que a luta a favor da vida pode ser bastante divertida, convém que venha, então, a macarronada fraternalmente apetecível.

Ter gente chupando o dedo a contraria, ela age:

Seja bem-vinda. Seja bem-vindo.

Que os convidados conformados à circunstância, possam o riso, o abraço, o garfo farto, a emoção da lágrima feliz, as alegrias da família reunida, que o amor pede, exige, acolhe, e reparte entre iguais.

No fim da linha, minha amargura não se apraz apartando panelas raspadas das limpas. Todavia, comigo incomodado, digo que panduio cheio bem se assemelha à comorbidade adquirida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de fevereiro de 2021.

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