quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Pipoca

 

Pipoca

 

Pipoca!

Ouvindo, você dispara que é nome de cachorro sapeca, serelepe, que não para quieto, vive fazendo arte, dando trabalho o dia todo.

Nem cão nem macho, Pipoca é gata.

Pipoca!

Aqui, em vez de palavrão, é o nome da dita cuja, da espoleta que vai passando feito furacão, tirando da sua mente, de quem lê, o lugar comum que diz que gato, mas gato mesmo, é enigmático, ser repleto de mistérios, uma esfinge, não um reles quadrúpede miador passível de pulgas.

Pipoca!

Você perde as estribeiras e grita, porque imagina útil quando a dor não diminui nem mesmo massageando o joelho depois de dar aquela baita batida no estrado da bendita cama.

Como, gatos têm classe para portar-se como deus egípcio?

Menos a Pipoca, que traz alegria moderada a quem conta com a melancolia de uma tardezinha açucaradamente bucólica e faz irritado à beça quem já espera o vendaval mas erra o nível de periculosidade.

Ou seja, a gata tem muito de fofa, e muito, muito, de travessa.

Pipoca!

A própria, ela que vem e que passa, num adorável auê, de apuro em apuro, deixando o seu rastro, até que o cansaço a derrube, afinal miados, saltos e sustos pedem baterias trincando, poxa.

Pinta uma quietude... Cadê?

Como não calça tênis, está roendo os cadarços.

De novo? Quando a fome aperta, está miando por ração.

A danada nem liga pra sol ou chuva, ela sabe miar, e capricha.

Haja guarda-roupa protetor quando troveja, dá sumiço.

Quando o bicho age ansiosamente por curiosidade, a sua pieguice enxerga traquinagem de animalzinho... elétrico, feito molecão.

De fato, pueril mesmo é você ficar vidrado, para lá e para cá, com a câmera do celular acompanhando a gatinha maravilhosa que não para de fazer coisas do além, gente.

Com tão ardorosa dedicação, cuidado não ter um troço.

Relaxe um pouco. Cidadãos onipresentes também defecam. Aliás, usufruindo-se dessa prosaica obrigatoriedade de excretar as massas alimentares produtivamente digeridas, realize com louvor outra tarefa, a de cadastrar-se com folga na fila da vacina.

Entenda, não é fácil viver o tempo todo numa montanha-russa.

Sem pegar pesado, note, você está se saindo bem, entregue aos negócios normais, até que reconhece não serem bigodes as patinhas mexendo na boca da bichana.

Pipoca!

Francamente, topada de testa na pia dói para cacete, todavia isso não autoriza ninguém a soltar o monstro moral que desperdiça água potável dando descarga exclusiva à barata mortinha da silva, caraca.

Pipoca aqui? Ali. Pipoca ali? Aqui.

Por um momentâneo lapso da imaginação, deixe que a Pipoca lhe passe aquela sensação natural de estar agindo como a gata que ela é, sem a responsabilidade de manter a caixinha de areia em ordem.

Dialeticamente fraterno, faça pulsar curtições leves nas veias, não só o veneno ferino que corrói as entranhas.

Ê Pipoca que não pipoca quando pipoca amor, numa boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2021.

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