Pipoca
Pipoca!
Ouvindo, você dispara que é nome de
cachorro sapeca, serelepe, que não para quieto, vive fazendo arte, dando
trabalho o dia todo.
Nem cão nem macho, Pipoca é gata.
Pipoca!
Aqui, em vez de palavrão, é o nome da
dita cuja, da espoleta que vai passando feito furacão, tirando da sua mente, de
quem lê, o lugar comum que diz que gato, mas gato mesmo, é enigmático, ser
repleto de mistérios, uma esfinge, não um reles quadrúpede miador passível de
pulgas.
Pipoca!
Você perde as estribeiras e grita,
porque imagina útil quando a dor não diminui nem mesmo massageando o joelho
depois de dar aquela baita batida no estrado da bendita cama.
Como, gatos têm classe para portar-se
como deus egípcio?
Menos a Pipoca, que traz alegria
moderada a quem conta com a melancolia de uma tardezinha açucaradamente
bucólica e faz irritado à beça quem já espera o vendaval mas erra o nível de
periculosidade.
Ou seja, a gata tem muito de fofa, e
muito, muito, de travessa.
Pipoca!
A própria, ela que vem e que passa, num adorável
auê, de apuro em apuro, deixando o seu rastro, até que o cansaço a derrube,
afinal miados, saltos e sustos pedem baterias trincando, poxa.
Pinta uma quietude... Cadê?
Como não calça tênis, está roendo os cadarços.
De novo? Quando a fome aperta, está
miando por ração.
A danada nem liga pra sol ou chuva, ela sabe
miar, e capricha.
Haja guarda-roupa protetor quando troveja,
dá sumiço.
Quando o bicho age ansiosamente por
curiosidade, a sua pieguice enxerga traquinagem de animalzinho... elétrico,
feito molecão.
De fato, pueril mesmo é você ficar vidrado,
para lá e para cá, com a câmera do celular acompanhando a gatinha maravilhosa
que não para de fazer coisas do além, gente.
Com tão ardorosa dedicação, cuidado não
ter um troço.
Relaxe um pouco. Cidadãos onipresentes também
defecam. Aliás, usufruindo-se dessa prosaica obrigatoriedade de excretar as
massas alimentares produtivamente digeridas, realize com louvor outra tarefa, a
de cadastrar-se com folga na fila da vacina.
Entenda, não é fácil viver o tempo todo numa
montanha-russa.
Sem pegar pesado, note, você está se
saindo bem, entregue aos negócios normais, até que reconhece não serem bigodes
as patinhas mexendo na boca da bichana.
Pipoca!
Francamente, topada de testa na pia dói para
cacete, todavia isso não autoriza ninguém a soltar o monstro moral que desperdiça
água potável dando descarga exclusiva à barata mortinha da silva, caraca.
Pipoca aqui? Ali. Pipoca ali? Aqui.
Por um momentâneo lapso da imaginação, deixe
que a Pipoca lhe passe aquela sensação natural de estar agindo como a gata que
ela é, sem a responsabilidade de manter a caixinha de areia em ordem.
Dialeticamente fraterno, faça pulsar curtições
leves nas veias, não só o veneno ferino que corrói as entranhas.
Ê Pipoca que não pipoca quando pipoca
amor, numa boa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de fevereiro de 2021.
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