O
sabiá
Em certa alvorada de nuvens carregadas,
estirado enviesado na cama, contorcido pela espinha espicaçada pelo tanto dos
seus ossos estranhos ao sono pleno noturno, o suposto pescador viu-se fisgado
pela tentação de ir à forra.
De caniço e samburá, foi.
Foi-se pela estrada no robusto jipe
comedor de poeira, parceiro de décadas, sem molejo para o confortável dos luxos
acessórios. É carro próprio ao chão batido para a sua travessia até a serpente que
dança pela mata adentro.
E foi convicto de que poderia esquecer os
trabalhos diários, pois a sua alma cansada de cultivar-se urbana entre urbanos irritadiços
não estava só abatida, vibrava escuridão, entrevada numa energia imbecil que
fazia a água virar a mesma, feito gelo desfeito.
Pela paz, foi à luta.
No barco, recolhidos os remos, aliviou-se,
estava respirando como se nas veias o oxigênio do cosmos o sintonizasse com a
correnteza.
Observou o rio. Estava influenciado pela
quietude que amansa.
A fluidez silenciosa fazia tranquilizante
o ar a quem pedia livrar-se do neurótico que grunhia, grunhia, vivia grunhindo,
sem nem mesmo notar que assustava os carás, punha sobressaltadas as preás.
Sem cavalos de batalha, calou-se.
Sob chuva, concentrou no braço a força
pensada para jogar longe a linha. Tanto pensou em alcançar um cardume de suculentos
peixes graúdos que o fio foi acabar enroscado no galho de uma árvore alta, cuja
copa densa de amarelo tão vivo punha-se contrastante ao ocre barrento da cobra de
morosidade enervante.
Deu um puxão. A linha arrebentou. E o
barco girou.
Só com um braço, remou. E o barco girou
torto.
De que lado aquela coisa estava? Pelo
jeito, do avesso.
Não era de esmorecer dócil, portanto
esmoreceria rezingando.
De fibra comprovada por bravias bravatas,
soltou a rede sobre as águas. Viu-a sumir. E deixou que sumisse. Molemente, afundando.
Todavia, logo veio outra puxada. Tratou
de subi-la. Foi a trazendo à tona. E como queria que a rede voltasse sem auê.
O peso, porém, obrigou-o a dar um tranco.
Por tamanha brutalidade, o barco girou.
Novamente, girou.
Chega! Basta! Fora!
E subiu à estrada. Foi amassando o barro.
Indo com o sentimento doloroso, muito humano, que é a frustração.
De mãos abanando, compraria tilápias na
primeira peixaria.
Já no alto, com vista ampla da várzea, nem
ligou para o lodo todo.
Teria poderes fora do normal o mais
comum dos homens?
Pois ele tinha mais de um, tinha dois.
Como burro de carga, vinha carregado de
tralhas. Já como burro d’água, virara e revirara a canoa desnorteada.
Que domingo insolente!
Avaliando vã a sua filosofia, pensou que
um super-herói bacana não encana porque não passa de um banana.
Com o Cruzeiro do Sul muito além do céu
fechado, ao sabiá que não canta o encantado por curió suplicou uma realidade mais
solar.
Foi quando, facilmente lunático, caiu de
cara na lama.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de março de 2021.