Dia
da marmita
À espera de outro dia com os
aborrecimentos de praxe, louco para dar corda às minhas ilusões bombásticas, que
me pegam de surpresa quando acordo pela hora da morte, desliguei meu despertador.
Afinal, com a manhã flagrantemente ensolarada, acordei sem tempo de ficar
desapontado com a marmota que jura que este verão estarrecedor de minha vidinha
ordinária, de brasileiro atrasado nas contas, vai longe.
À espera de que a taxa de juros continue
irresistivelmente estável, deixo que virem uma gororoba intragável os boletos passados,
os que estão passando e os que hão de passar, porque tomo para mim que devo
seguir à risca a dieta festiva de procrastinador contumaz.
À espera da alegria vivaz que me incentive
cair na gandaia antes do almoço, vou à farra comprando bugigangas que a minha
casa até precisa. Afinal, ando sem tempo para ficar caçando manualmente as muriçocas
que vêm se deliciar sugando meu sangue estressado, por isso, sem pestanejar,
peço a raquete elétrica hipnotizadora, torcendo para que o treco tenha força de
derrubar as visitantes draculinas.
À espera de uma inspiração que me dê uma
mãozinha para baixar a fila de leituras interrompidas, pego da pilha em cima da
mesa dois livros de uma vez. Porém, sem tempo para entender como é possível que
o café tirado na hora permaneça quente mesmo uma hora depois de posto no copo
de requeijão com manias de xícara de laca chinesa, quase dou razão ao ócio, que
me quer de barrigão para o ar.
À espera de que o mar morto de tédio se
abra com algum moisés cheio de graça fazendo a sua mágica antes mesmo que eu
acabe de engolir o primeiro pedaço de pãozinho já coberto de patê de sardinha
azeitado na maionese meio rançosa, de mês e meio aberta.
Sem tempo para afirmar que aceito a sobra
de caráter que me intoxica a mente de cidadão enojado com as políticas
sanitárias do mundo livre, jogo paciência no computador enquanto, lá na pia da
cozinha, o feijão congelado no pote de sorvete vai ficando comestível.
À espera das varejeiras atraídas pelo meu
feijãozinho azedo, pego na ideia negativa de desistir de preparar uma refeição
a quem me traz o bife acebolado do meu dia a dia.
Sem tempo para me culpar só de ficar
imaginando exausto quem vem me entregar os meus pedidos de comida, corro
telefonar. Queria ir mas não vou; queria muito chegar a tempo de oferecer
ociosamente o arroz com feijão mais o franguinho frito. Levaria a jato o meu
rango, imaginando-o quentinho. Queria que estivesse bom de ser comido na entrega.
Mas a realidade toca me beliscar.
À espera da minha quentinha, como quem
espera não estragar o que não pode ser estragado, largo o jogo, bebo água,
vou-me postar à porta, mas o vento não me antecipa infernal a sua vinda.
Sem tempo para cultivar a flor do juízo,
assopro o cartão, esfrego o celular. Genioso, não escapo de pagar a marmita com
a espera.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2021.
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