quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Dia da marmita

 

Dia da marmita

 

À espera de outro dia com os aborrecimentos de praxe, louco para dar corda às minhas ilusões bombásticas, que me pegam de surpresa quando acordo pela hora da morte, desliguei meu despertador. Afinal, com a manhã flagrantemente ensolarada, acordei sem tempo de ficar desapontado com a marmota que jura que este verão estarrecedor de minha vidinha ordinária, de brasileiro atrasado nas contas, vai longe.

À espera de que a taxa de juros continue irresistivelmente estável, deixo que virem uma gororoba intragável os boletos passados, os que estão passando e os que hão de passar, porque tomo para mim que devo seguir à risca a dieta festiva de procrastinador contumaz.

À espera da alegria vivaz que me incentive cair na gandaia antes do almoço, vou à farra comprando bugigangas que a minha casa até precisa. Afinal, ando sem tempo para ficar caçando manualmente as muriçocas que vêm se deliciar sugando meu sangue estressado, por isso, sem pestanejar, peço a raquete elétrica hipnotizadora, torcendo para que o treco tenha força de derrubar as visitantes draculinas.

À espera de uma inspiração que me dê uma mãozinha para baixar a fila de leituras interrompidas, pego da pilha em cima da mesa dois livros de uma vez. Porém, sem tempo para entender como é possível que o café tirado na hora permaneça quente mesmo uma hora depois de posto no copo de requeijão com manias de xícara de laca chinesa, quase dou razão ao ócio, que me quer de barrigão para o ar.

À espera de que o mar morto de tédio se abra com algum moisés cheio de graça fazendo a sua mágica antes mesmo que eu acabe de engolir o primeiro pedaço de pãozinho já coberto de patê de sardinha azeitado na maionese meio rançosa, de mês e meio aberta.

Sem tempo para afirmar que aceito a sobra de caráter que me intoxica a mente de cidadão enojado com as políticas sanitárias do mundo livre, jogo paciência no computador enquanto, lá na pia da cozinha, o feijão congelado no pote de sorvete vai ficando comestível.

À espera das varejeiras atraídas pelo meu feijãozinho azedo, pego na ideia negativa de desistir de preparar uma refeição a quem me traz o bife acebolado do meu dia a dia.

Sem tempo para me culpar só de ficar imaginando exausto quem vem me entregar os meus pedidos de comida, corro telefonar. Queria ir mas não vou; queria muito chegar a tempo de oferecer ociosamente o arroz com feijão mais o franguinho frito. Levaria a jato o meu rango, imaginando-o quentinho. Queria que estivesse bom de ser comido na entrega. Mas a realidade toca me beliscar.

À espera da minha quentinha, como quem espera não estragar o que não pode ser estragado, largo o jogo, bebo água, vou-me postar à porta, mas o vento não me antecipa infernal a sua vinda.

Sem tempo para cultivar a flor do juízo, assopro o cartão, esfrego o celular. Genioso, não escapo de pagar a marmita com a espera.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2021.

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