terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Simples assim

 

Simples assim

 

Era uma noite qualquer, com o calor arretado do verão fazendo do quarto um ambiente asfixiante, incômodo, propício à insônia.

Suando, colado à pele que transpirava. Sem suas horas regulares de sono, estava irritado. Deitado naquela cama, desconfortável com o lençol mais do que úmido, encharcado, pegajoso. Colando o ar que o forrava de escuridão, suava sobre um colchão indiferente.

Imóvel no escuro, não era inerte. Como matéria porosa, orgânica, filtrava a noite pela respiração. Respirava suas dificuldades, opresso; em tamanho desassossego, perturbado pela realidade pesando sobre a sua epiderme. A pele contaminada pelo infortúnio de um verão bem quente, paralisante, modorrento, deprimente.

Como aliviar-se de toda aquela carga?

Ir ao banheiro, lavar o rosto. Molhar a nuca. Puxar cortinas, abrir a janela. Diminuir a transpiração dando livre circulação ao ar. Poderia ligar o ar-condicionado se tivesse um. Deveria ter ventilador de teto sem pensar em conta de luz.

Nem sim nem não? Foi beber água. Bebeu outro copo, e nada.

Não, de modo algum, nada tinha de especial aquela madrugada.

O óbvio dos mistérios impelia a não revelar as maravilhas sórdidas do cotidiano. Pois o cômico e o trágico zombam dos melodramáticos.

Multiuso higienicamente purgante, o sol quara roupa, seca fungo e espanta morcego que vive de frutinhas. Eis o drama: não é dia.

Além da obviedade, objetivamente concreta, da noite brasileira de verão? Era apenas outra noite cálida, própria à estação.

E, de novo, a esperada falta de sono, a mesma perda de apetite, o garfo pálido que mal roçou a salada de alface. Querendo-se sereno, desligou a TV tão logo o jornal acabara, passando de onze e meia. E, para fazer o correto, desligou o celular antes da meia-noite.

Queria, implorava, que os nervos evitassem levá-lo à beira de uma ansiedade generalizada? Mas... Eles eram uns fanfarrões surdos, que não o escutavam suspirante, profundamente suspirante.

Precisava desesperadamente ter vergonha de engolir todo aquele lixo que o mundo enviava sem nenhuma sutileza. Mas qual! Ele tinha a lucidez comprometida pelo fervor dos vorazes.

Era um dever intransferível: tinha de encontrar forças para vomitar os venenos que a vida vinha despejando por aí. De verdade, era hora de tapar a boca.

Talvez por isso a realidade sapateava em seu peito. Pipocando as novidades que lhe ritmavam o fôlego. Magnetizado como consumidor de notícias desconexas, quiçá preocupantes.

Simples, como o insosso não conecta a luz solar com o opaco do suor: a bonança vem depois da tempestade, antes do temporal vem a lufada brumosa.

Ora, se o universo não sabe que é de sua natureza ditar regras, cabe ao cabeçudo desapegar-se das pulgas numa única urinada.

Passivo paspalho parvo?

Não basta ter geladeira, é preciso abarrotá-la de água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2021.

 

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