Simples
assim
Era uma noite qualquer, com o calor
arretado do verão fazendo do quarto um ambiente asfixiante, incômodo, propício
à insônia.
Suando, colado à pele que transpirava.
Sem suas horas regulares de sono, estava irritado. Deitado naquela cama, desconfortável
com o lençol mais do que úmido, encharcado, pegajoso. Colando o ar que o
forrava de escuridão, suava sobre um colchão indiferente.
Imóvel no escuro, não era inerte. Como
matéria porosa, orgânica, filtrava a noite pela respiração. Respirava suas
dificuldades, opresso; em tamanho desassossego, perturbado pela realidade
pesando sobre a sua epiderme. A pele contaminada pelo infortúnio de um verão
bem quente, paralisante, modorrento, deprimente.
Como aliviar-se de toda aquela carga?
Ir ao banheiro, lavar o rosto. Molhar a
nuca. Puxar cortinas, abrir a janela. Diminuir a transpiração dando livre
circulação ao ar. Poderia ligar o ar-condicionado se tivesse um. Deveria ter
ventilador de teto sem pensar em conta de luz.
Nem sim nem não? Foi beber água. Bebeu outro copo, e nada.
Não, de modo algum, nada tinha de
especial aquela madrugada.
O óbvio dos mistérios impelia a não revelar
as maravilhas sórdidas do cotidiano. Pois o cômico e o trágico zombam dos melodramáticos.
Multiuso higienicamente purgante, o sol quara
roupa, seca fungo e espanta morcego que vive de frutinhas. Eis o drama: não é
dia.
Além da obviedade, objetivamente concreta,
da noite brasileira de verão? Era apenas outra noite cálida, própria à estação.
E, de novo, a esperada falta de sono, a
mesma perda de apetite, o garfo pálido que mal roçou a salada de alface. Querendo-se
sereno, desligou a TV tão logo o jornal acabara, passando de onze e meia. E, para
fazer o correto, desligou o celular antes da meia-noite.
Queria, implorava, que os nervos evitassem
levá-lo à beira de uma ansiedade generalizada? Mas... Eles eram uns fanfarrões
surdos, que não o escutavam suspirante, profundamente suspirante.
Precisava desesperadamente ter vergonha
de engolir todo aquele lixo que o mundo enviava sem nenhuma sutileza. Mas qual!
Ele tinha a lucidez comprometida pelo fervor dos vorazes.
Era um dever intransferível: tinha de
encontrar forças para vomitar os venenos que a vida vinha despejando por aí. De
verdade, era hora de tapar a boca.
Talvez por isso a realidade sapateava em
seu peito. Pipocando as novidades que lhe ritmavam o fôlego. Magnetizado como consumidor
de notícias desconexas, quiçá preocupantes.
Simples, como o insosso não conecta a
luz solar com o opaco do suor: a bonança vem depois da tempestade, antes do
temporal vem a lufada brumosa.
Ora, se o universo não sabe que é de sua
natureza ditar regras, cabe ao cabeçudo desapegar-se das pulgas numa única
urinada.
Passivo paspalho parvo?
Não basta ter geladeira, é preciso abarrotá-la
de água.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2021.
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