quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Nos bailes da vida

 

Nos bailes da vida

 

Cruzando com você, por acaso, numa tarde de meio de primavera, com uma tempestade de fim de tarde já bem anunciada, a pandemia rolando solta por ruas e praças, ocorreu de repente perguntar-lhe: e a cabeça como vai? E sonso incontrolável, soltei: como tem passado?

Nem o escutei. Já meio que desistindo de ir ao festival, que soube tem lotado o estacionamento do Belas Artes/Memorial. Acabarei indo aonde a pirraça me guiar; comigo é assim: com opções, topo outra.

Sabe como é, burro véio emenda ir sem pressa. Pra tirar da mente minhas ideias de bocó, quero vedada a lateral, assim olho fixo o chão da estradinha esburacada, cheia de pedras.

Queria pensar, e penso um roteiro.

De que trataria o filme? Pergunta difícil. Então, para uma resposta simples, que apresente o conteúdo sem desmerecer o modo da sua encenação. Sendo razoável, a ficção trataria da junção de um Fuscão Preto com uma Lambreta azul, com vistas a um patinete com sorriso ortodôntico. Relações essas que se dão nos ambientes de trabalho e domésticos. Haveria um consultório de dentista, onde ele receberia a segunda das mulheres, a mais velha delas. Claro, haveria a casa em que o homem desempenharia as suas funções de marido. Crescidos próximos desde o primário, filhos da terrinha boa pra se viver, de cujo clima não se há de ter senões, pelos invernos bastante frios e pelas chuvas torrenciais de fins de março, conforme o figurino subtropical, e de montanha.

E o caso em foco?

O marido reforça a presença com umas delicadezas, no cotidiano instituído entre o quintal e a garagem. Não bebe mais que o usual a quem levemente cachaceiro, já ocupado em orientar a debutante que valsa de público a indignação com os comedores de proteína animal.

A amante, uma senhora trintona já com discretíssimas correções ao redor dos olhos, busca satisfazer seu companheiro abrindo a ele o mundo de vinhos refinadamente caros e crepúsculos fulminantemente românticos, e sempre a dinheiro.

Porém, quando se fala em dinheiro, há desavenças. Muitas.

E uma vez desabrochada a separação dos vícios das virtudes?

A vergonha enoja a filha, que não suporta ouvir da esposa traída as comiserações esperadas de madames quatrocentonas. Que acinte escutar os lamentos da provedora de seus genes, e mantenedora de um lar asqueroso, tão recatadamente mortiço.

Inquieta, e movida e comovida pela indignação espiritual, a moça suplica à mãe que se erga da tumba. Que ela venha pro sol, e ganhe a musculatura da mulher atual, moderna em sua liberdade de ser.

Na cena final, vê-se uma vitrola, o disco de vinil está parado, sem que se possa ler o selo, as manchas parecem de bolor, e um risco no lado A forma a letra M, de Maria ou Marta? De Madalena é que não é!

E afora isso aí?

Com todo um passado pela frente, no centro do telão, projeta-se em letras escarlates:

SEGUE O BAILE.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2020.

 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Amor de casa

 

Amor de casa

 

Contemplado com uma vinda inesperada, ô de casa!, seria o caso de desopilar o fel? Diante de braços tão efusivos, segura o passo um instante; mas demorar-se vai decepcionar, pode até causar irritação. Pra guardar-se diante da visita, destrava o cenho.

É pessoa que morde a língua pra cuspir sangue? Não é canalha, sabe sorrir. Está em casa.

É preciso dar o primeiro passo, como exemplo. Que se ampare no amor, para que se compare aos melhores. Pra não ficar na aparência, e traga ao mundo a contribuição verdadeiramente exemplar, tem suas tramoias abonadoras. Portanto, abre o sorriso.

Ainda que venham exuberantes as novidades, mantém a máscara no lugar. Pela consciência de estar no seu lugar, mantém a calma de figura que sabe de si como anfitriã instagramável.

Ainda que esteja na posição orgulhosa de defesa, faz o que pode para não dar com a língua nos dentes. Quer-se invisível, por isso sorri a quem se ajeita na inveja. Diante de alguém cuja segurança está em falar à toa, diz por gestos comedidos que está mesmo em casa.

Quando se deixam comparar, essas pessoas que invejam são as que fingem mal algum amor. E há tanto amor em quem inveja.

Trazem o fracasso de quem não consegue dominar-se, ainda mais quando na presença de gente centrada. Na convivência com alguém que se comporta condignamente, o amor intoxica.

E que futuro há de se projetar da ciumeira vil de quem sofre com a felicidade facilmente percebida? É bile brotando nos tontos.

Como têm em alta conta as pessoas que os desprezam, os tontos sofrem de ansioso desejo de aceitação. Vivem querendo sentir-se em paz, fazendo hora em casa alheia.

Pouco à vontade, extrapolam-se. Por amor.

O amor sabe desviar os olhos, prender as lágrimas. Não se deixa recuar de portas relutantes. Não se revela na dor que enrijece a nuca, entorta a boca e seca os olhos.

Como esses sofredores sabem sorrir?

Há lares no mundo que ignoram a retribuição. Fechados, isolados, negam-se a acolher. Não dispensam frivolidades e nem banalidades, só não servem café com bolinhos de chuva. Enoja ter intimidades, daí mascaram o cenário: preconceitos são cortinas; nojos são tapetes; as orquídeas vívidas, retratos patentes do desprezo.

Admitem-se tão sedutores?

Administram-se adoradores do amor ao próximo.

Respeitam-se e pedem respeito; ainda mais em ambiente privado. Como gente antiga, deixam evidente o direito de amar do jeito antigo, como aprenderam em casa, com a família. Fazem questão do amor à antiga.

Já o outro amor, de fora, de gente estranha?

Melhor evitar.

Afinal, quem chega da rua que bata da roupa o vírus da diferença. Quem entra no recesso do amor que recebe não fique exibindo uma alegria exagerada da vinda. Trate de ajustar-se.

Assim, preservando o mínimo de respeito, ao abrir o portão, indica aceitar que os cotovelos se toquem. É o amor sorrindo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2020.

domingo, 1 de novembro de 2020

O mágico

 

O mágico

 

Esta é uma crônica sentida, uma vez que James Randi morreu. Aí, sem tirar pelo em ovo, você emenda que sabe quem é Uri Geller, mas não quem seja esse daí. Tudo bem, é do jogo querer saber o que não se sabe. Então, o que O MÁGICO, o título, sugere?

Se a primeira ideia que lhe ocorre é esperar algo burlesco, com a típica música de circo ao fundo, de reconhecível alegria, mais aquele cheirinho de pipoca, se for, pare aqui.

No entanto, se a segunda ideia é a de se deixar surpreender pelos truques de profissional gabaritado, de renome na praça, então, tendo desejos de saber como está sendo feita a mágica, assim, continue.

Mas aqui entra o alerta: não se frustre com o que está vindo, pode ser que você esteja depositando no que está sendo escrito uma coisa mais sua do que propriamente do texto.

A hora é esta.

Deixe fluir. Mesmo que se perceba afogando, prossiga. É indo em frente que se deixa fluir o que lhe está sendo oferecido; como alguma engenhoca líquida, uma consciência sensível aos elementos que não travam nem estorvam o movimento. Fluente, seguindo em correnteza, é isso que faz movimentar o que precisa mesmo prosseguir. O que dá vida à existência.

Ou seja, ao fim e ao cabo, é feito rio. E tem a corrente: mais rápido ou mais lento, depende do prazer, da ansiedade, do divertimento.

Isso, isso. Alcance a diversão de seguir lendo. Portanto leia, opte continuar a leitura.

Afinal, pode ser que a surpresa esteja na transparência, às claras, quando a prestidigitação ocorre bem diante de seus olhos.

E dizem: o grande mágico causa o maior impacto na audiência; é quem fala o que está por fazer; quem faz enquanto fala, provocando o pasmo de afirmar o surpreendente, escondendo o objetivo da ação no próprio ato de revelar o ato.

A grande sacada está em continuar, despreparando para o truque. Ainda que tenha ensaiado a espontaneidade da reação; ainda que se policie; siga comprometido com o número. A cartada está em oferecer o encenado como algo novo; outra vez como novidade, para que seja novamente algo transformador, arrebatador, entusiasmante, causador do frisson. Sabendo-se que virá da maneira que tem de vir a tornar-se outro, rompendo minimamente com o ato de sempre, porque o mundo pede mais, pede coraçãozinho no alho e não apenas mortadela.

Então, um imprevisto moderado pode muito bem temperar o arroz e feijão de cada dia. Daí, sem mostrar a forma da forma, vem o futuro como uma iguaria diferente, nem batida nem requentada.

Só pra variar? Há palmas que nem precisam de mãos.

Assim, quando menos se espera, mesmo com o lenço trazendo o lenço trazendo o lenço, mesmo assim, da cartola ordinária, acaba-se, na ponta do último lenço, não com a moeda tirada do nariz, mas com uma flor, flor que tira o ar, arrepia, faz aplaudir, tal o arrebatamento. É flor que não petrifica, que arredonda o êxito num sonoro: óóóó.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de novembro de 2020.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Direitos reservados

 

Direitos reservados

 

No intuito de preservar a intimidade, conservando o teor medíocre de minhas circunstâncias de homem do povo, penso seja necessário adotar as seguintes providências.

Primeiro...

Muito me constrange vir a público tomar o partido da verdade, que deveria bastar-se pelo alcance de seu valor, dispensando terceiros da reiteração dessa amplitude, por acintosa desnecessidade. Por isso, e tão somente por isso, reafirme-se: a verdade é, ou será falsidade a se passar o que não é pelo que seja.

Depois...

Em defesa da inocência fulcral de minhas moralidades, assumo de público a culpa de ter consciência das consequências de meus atos. Fiz, portanto mereço responder por meus feitos. Disse, assim nego o que disse. Ofendi, então que me acuse quem se atreva à recíproca. Saibam, por conseguinte, que hei de defender minhas prerrogativas, uma vez que ainda tenho guarda da minha imagem, porque estou em perfeitas condições de controlar discursos, direitos e diplomas a meu respeito. Logo, lucrarei o que for possível com o êxito da empreitada, a fim de preservar-me visível às invasões de outrem. Afinal, eu posso. Se posso, terei poder. Se tenho poderes, é porque os exerço com a plenitude de minhas posses. E que país ordinário seria o Brasil se em suas fronteiras não imperassem a moral, a decência e a virtude, ou, em suma, não houvesse a liberdade do controle. Se me quero limpo, ordeno a higidez. Se me vejo puro, coordeno a honradez. Se atesto o incólume, faço entender o que me apresento honrado, inocente, bem capaz de manter o que todas e todos desta sociedade brasileira hão de compreender, desde que estejam aceites as minhas mais sinceras desculpas, ainda que doa em mim acusar quem me confronta. Sei de mim pelos meus defeitos, mas não recuo diante das liberdades, a de outro e a minha. E assim, não julgo, mas digo, afirmo e confirmo: são infelizes; e por infelizes, semeiam infelicidades. Como não me basta a mim sobreviver infeliz, vou cobrar aos justos a reparação das minhas justiças. Por que aviltam calúnias e mentiras? Pelas veracidades no que espalham. Se menti, menti em causa própria. Se digo que menti, faço-o em nome da honestidade da minha defesa. E se, porventura, há danos enquanto me defendo, irei mesmo perseverar em minhas integridades física, psíquica, ética, social e econômica. Uma vez que almejo multiplicado pelo justo o investimento empregado por mim nas salvaguardas da minha honra, a minha única e íntima honra.

Enfim...

Terei atendido meu pedido de obscuridade a me proteger da fama que degrada como mais um na praça, enoja como outro a lucrar com o fácil, e amaldiçoa como pessoa condenada a censuras do vulgo, ou isso ou apelarei à estupidez das ilicitudes, dado o meu desespero.

Sem mais, ciente de que dá fé ao que está escrito, subscreve com o vigor da personalidade,

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2020.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Via oral

 

Via oral

 

Como ficaria o primeiro parágrafo?

Embora estivesse fazendo uso ─ pleno ─ de balde, pano e rodo, a mulher seguia aturdida por aquelas vozes carcomidas, de paradoxos estrábicos, ensurdecidos e tartamudos. Coisa que uniformiza aquelas gentes estruturalmente anônimas, restando à operadora manual obrar por resoluções outras que validassem as prerrogativas tão brasileiras quanto às da maioria, a faminta de obrigações entendidas mas nunca atendidas. E como faz água, tão salgada, nesta pele, no ombro, neste ser sapiente, no vozerio animal de língua disseminadora de bruma.

O pernilongo tirou a concentração. Em vez de entrar uma torneira?

Sem dúvida, há benefício quando se honra a defesa do legítimo. Sem honra, há legitimidade que beneficia apenas a certeza que se defende da dúvida. Sem lucro algum, há alma que se vende quando a consequência vira causa bem no meio do papo.

Desconversando, a estupidez cava o fosso para que a água brote. E quanto mais fundo, mais denso; quanto mais denso, mais obscuro; quanto maior a obscuridade, maior a tensão. Abreviando pro absurdo, muito maior terá a pusilanimidade de haver-se; como não hão de vir ao mundo, inventam-se explicações: imbecis, que alegram corações afobados; e inúteis, que tornam leve o peito cavado arenoso. E seco, próprio à vilania dos resignados, devotos de infâmias.

Seco, diz o poço o seu abismo; deserto vertical como mortalha da humanidade falhada, fracasso imperdoável.

Queria perdão, mas não engenha a cura. Algum unguento, alguma drágea, algum invento químico que dominasse as entranhas de uma péssima memória, dessas tão cruéis, insuportavelmente incapazes de pôr um pano na mão que o torça.

O zunido perturba. A concentração se esvai.

No entanto? O que se ouve, quando é possível ouvir com atenção, não passa de mixórdia de recordações, de palavras em frangalhos, a perda de uma felicidade ─ temporã e pouco ancestral.

É evidente o embaraço com a falta de coesão entre as partes, fios soltos que sequer se enovelam, dando em um nó.

Que ânsias são essas que dispensam a coerência?

Falta algo. O que fosse lógico, imprescindível, tomasse as rédeas da mente. Que não levasse ao tombo. Algo normal, impetuosamente normal. Há queda, pois as pessoas têm paixões.

Há que se pensar em causa própria? Há.

E como há urgência em conhecer-se, em tomar a iniciativa de pôr razões à frente da noite perdida, então, que a mente perturbada dite quais razões são a fonte da perdição.

Humilhe-se? Perceba-se humilhado.

Mas a falta de sono atordoa, confunde, desequilibra.

Um pernilongo, só um; e a madrugada, travada, alucina.

A colcha cobre a cabeça; o som passa assim mesmo.

Pouco importa. Uma pessoa sem dormir pouco espera que o texto derrube jacas, enfureça marimbondos e espicace tatus.

E há de haver quem faça o fogo usando só dois parágrafos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.


domingo, 25 de outubro de 2020

E ponto final

 

E ponto final

 

Agenda apertada? Tinha consulta no oculista dali a dez minutos, e todavia uma rua fora do caminho atravessou de repente. Convidado a desviar-se, topou a parada. Pois a isca era irresistível: um gato. Todo pimpão, o bichano estava arisco ─ tinha algo à frente.

Entrou pela rua que não lhe serviria para segurar ponteiro algum. E sabendo que atrasaria, acelerou os passos? Viu o bicho partir para cima de uma maritaca. Era o objeto da cobiça: um pássaro colorido e barulhento que estranhamente agia diferente, como uma rolinha.

Hein?

Havia aquela maritaca dando sopa na calçada. Ela nem aí para as pessoas passando rente.

Ao que parece... Coisa real demais?

Só que tinha mesmo esta situação. Não há invenção nenhuma.

Mas, estando no limite do atraso, apertou mais ainda a passada e isso fez correr o gato no encalço da maritaca pedestre? Nada.

Por uma questão de princípios, não se alegue influência direta de um evento sobre outro.

Dali a um segundo, a maritaca voou. Talvez o motivo seja simples: voou pela sobrevivência. No entanto, teria voado pelo sexto sentido, que, de tão profundo, todo animal nem percebe que tem?

Sabe-se lá. Viu-se que voou e ponto final. Só isso.

E o que liga maritaca, gato e a pessoa que os interligava?

O tempo certo para fazer a coisa certa.

De olho na hora, com a cadeira do médico esfriando, tocou rápido para chegar a tempo. Ô alívio ─ chegou.

Tudo resolvido. De posse da receita, foi atrás do preço das lentes.

Levado pelo sorriso da moça estrategicamente à porta da óptica vizinha à clínica de olhos, entrou e recebeu por escrito o orçamento.

Saiu. Andou rua acima, rua abaixo. E buscou outras ruas.

Assuntaram materiais? Informaram qualidades?

Venderam o peixe.

O peixe que nenhum gato ataca, preferindo maritacas.

E veio mais uma? Essa surgiu à porta da última loja visitada.

Outra rolinha em pele de maritaca? Tal e qual.

Algo incrível.

Tratou de ajeitar a câmera do celular, focou. Quis parar de tremer. Procurou prender a respiração. Até usou a mão esquerda pra segurar o aparelho com maior estabilidade, que se sacudia como vara verde por estar com falta de álcool no sangue.

E no que estava pronto pro disparo, o bicho surtou de vez. E foi-se embora, juntando-se a um bando que passava a dez metros do chão.

Chão? Um troço sujo, salpicado de bitucas, coberto de santinhos.

Ouviu um miado. Será possível?

Era. Justamente ele, o mesmo miau do começo desta história.

Tocou o celular. Era o alarme pro remédio da pressão. Tinha de ir, e foi. Voltou pra casa.

Assim que entrou, desabou aquela chuva. Pois é: no que engoliu o comprimido, caiu o mundo.

Caraca! A constatação de ter escapado por pouco o tirou do sério, que até se esqueceu de ter atirado um tchau ao gato.

Se tivesse dado atenção às condições do tempo, certamente teria tomado água na careca, que vira criança quando chapinha chuva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O intervalo

 

O intervalo

 

Como posso querer acordar a aurora?

Não depende de mim que o sol venha sorrindo, tão radiante, cioso das promessas que a manhã enfeixa como agenda por um dia, por mais este dia. Irei cumpri-la, com a tranquilidade dos que dão crédito ao discernimento de não ter muito controle. Fio-me na confiança de me sair bem, de alguma forma.

E esses pardais... Nem me deixam despertar direito.

Farei do modo que sei. Como aprendi, ou pelos exemplos que me deram ou pela cara quebrada por mim mesmo. Na correria, indo de ação em ação. Torcendo para que o amanhã possa vir como ontem veio, e como hoje.

Sim, o futuro tem a necessidade de um primeiro passo; e que me seja firme, seguro, sem o abuso de ser maior que as minhas pernas, sem exigir de mim o que meus pés e meus joelhos, já passados dos cinquenta anos, não têm como medir.

Os músculos são couraça, mas com um ponto falível, o humor. A reação orgânica do corpo influencia na eficiência das carnes moles. O gesto brusco, o lapso que tonteia, a paralisia momentânea.

Procuro a calma, transpiro constrangimentos.

A moral dita ao esqueleto a dança cotidiana.

O vexatório aflora no rosto enrubescido? Sob carga estressante, vêm cãibras às pernas? O pescoço duro faz ridículo o cumprimento?

Como foi torto o meu sono.

Ou seja, a vaidade domina o ser; faz gato e sapato da alma gentil que entra frouxa na dividida com o mundo. Daí que o mundo já nem contabiliza mais as vitórias. De antemão, seja admitida a debilidade e o enfrentamento da realidade seja dado como perdido.

Sem que o pé desnudo toque o chão frio ao lado da cama? Sem.

A consciência é barquinho frágil no mar aberto. Mesmo que diga o contrário? Que tenha esperanças? Ê cabeça de papel.

Que vergonha fugir da raia pela esperança.

E não tem jeito?

Culparei o diabo pelas coisas humanas que me fazem um verme. Cuidarei de encontrar a desculpinha mais esfarrapada que sirva de açúcar no café da manhã. Pedirei bisnaguinha com leite morno. Nem vou me chamar à razão ─ bastará a justiça de apontar um culpado.

Que alegria permanecer incompetente, mas em paz.

De humor recuperado, posso tirar onda. Até penso dar conselhos a quem nem me sabe um guru. Embora míope e calvo? Guru.

O que é isso, seu Rodrigues? Humorismo?

Vamos! Colabore. Escolha um futuro repleto de façanhas.

De manhã, lave roupa, passe o cheirosinho no chão dos quartos e da sala. E a cozinha? Depois do almoço; depois de lavar, enxugar e guardar pratos, panelas e talheres, só então faça florescer o jasmim no piso. Mas o banheiro? Após ter dado com a porta do guarda-roupa no dedão da esquerda, sinta a quentura da frigideira com o dedão da destra. Sua besta de meia-tigela, faça direito ou soltará os cachorros. E, por favor, pare de querer que a noite prometa o que não pode.

Dez da noite? Deite. Seis da manhã? Levante.

Entre um e outro, pra salvar a humanidade dela própria? Sonhe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2020.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O cru dos outros

 

O cru dos outros

 

O barco? À deriva. A tripulação? De primeira viagem. A situação? De mal a pior. O futuro? Catastrófico. A lição que fica? Muitas são as traves irremovíveis.

Líquido e certo? Um dia depois do outro. Ou não levaria por nome que bem define o imbróglio todo: realidade.

E que não fique o não dito pelo que não se disse? É por ouvir falar que poderia ter acontecido, mas, com prova em contrário, está vindo. Portanto, é de fato um acontecimento promissor e tanto. Com o tanto pondo as manguinhas de fora, dizendo-se: interpretação.

A interpretação de terceiros? Que conste nos autos, pois analisam os pratos limpos do que não tem pra comer. O que tem de sujo? Com a inteligência de quem vive sem pôr bois à frente do carro, algo forte. Com a sensibilidade de filho agora pai de outro pai? Picanha no alho. Com a agudeza da filha agora mãe de outra mãe? Cocada dura.

Sonha a esperança mais profunda? Que arde se rir. A pimenta ou o dólar? Nada de repolho nem feijão.

Assim a banda passa? O povo apupa. Enquanto a matilha cresce? Enquanto o barranco desbarranca. Tem coisa errada? Como sempre. E sempre resta tanto por fazer? Pra podermos deixar pra amanhã. Se não for sábado? Nem feriado.

Enfim? A caravana chega.

Do lombo, descem as mulheres suas crianças.

A simplicidade põe canecas ao fogo. Pra coar o café é preciso que a água esteja fervida, com aquela fumacinha de ainda quente.

A simpatia traz um banquinho, e na falta, espalha almofadas. Para bem acomodar quem anda carente de carinho, aconchego, abraço.

A sinceridade sorri, acolhe. Diz a essência de sua jovialidade por gestos espontâneos, no imediato que vem de berço.

A sincronicidade ganha um rosto, sem os disfarces de pessoa que só faz o que faz pensando na troca, no que vai obter pelo mérito.

Qualquer que seja a causa? Sob medida, ou o peito chia. Chiando consegue mudar alguma coisa? Do vinho pro vinagre. Tomando além da conta? Pra dormir o sono dos morgados. Mão pra toda obra? Pela metade, já que precisa de aditamento, e mais outro.

Assim, o oásis seca? Os camelos não passando de uns pangarés. As tâmaras? Uvas passas. As palmeiras? Coqueirinhos de jardim.

Então, qual deveria ter sido o pedido quando a lâmpada pifou?

Vez ou outra, a gente podia ter pensado com cuidado, sem que as bocas da fome se lembrassem de pedir a cabeça de quem vive para bailar a valsa dos que só lambem o osso.

É aqui que entram os amestrados? O circo tá bombando. Puseram fogo nas argolas? Passa o palhaço. E a criançada ri sem parar? Com os pais já meio grogues de tanta eucaristia improvisada. Como? Sem solução. E acha o quê? Um caminho.

Tem quem condene? Outros condenados. Pode acabar por aqui? Só se tiver coisa importante pra esconder. Se dá jeito? Nem depende do santo forte, da reza brava, da chave na porta.

Quem se importa? Quem se dana. Quem não mama? A mama.

Afinal, mãe é mãe. E vice-versa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2020.

domingo, 18 de outubro de 2020

Reserva moral

 

Reserva moral

 

Era o primeiro dia, já que se decidira. Tomada a decisão, todavia, que fosse definitiva, não houvesse a mínima hesitação. Convicto da deliberação, entraria de queixo erguido, apresentaria olhar inabalável, a voz de pessoa que iria incorporar o modelo exposto na vitrine sem precisar se explicar a vendedor ou abelhudos aquém do balcão. Para radicalizar de vez, mostraria ao mundo que mudara de fato.

Seria o começo da fase nova. Deixaria de agradar a quem nunca prestou atenção na sua transparência nata. Daria início a essa etapa que haveria de prolongar-se até o fim dos seus dias, estava certo de que conseguiria manter-se reto. Queria que a vida fosse de vencedor, de alguém disposto a ter seus direitos respeitados, de quem conhece maneiras de demonstrar tal consciência.

Sendo o princípio de uma transformação revolucionária, ao menos passara a pensar assim no exato instante em que o manequim da loja parisiense surgiu diante dele, logo no primeiro dia de sua temporada na capital francesa, como bolsista de filosofia estética.

Portando cabeça revolucionariamente íntegra, de quem dispensa qualquer divã, mesmo o do doutor Freud, a cujo objeto fotogênico até deu atenção quando visitou a casa inglesa do adorador de puros.

Como completava mais um ano de vida nesse dia, associou a data da morte do analista com o do seu renascimento em vida.

Esquisito era sentir um travo libertário, com ideias atrevidas, sem saudades do Ipiranga, fora da Pauliceia que desencaminha para bem encaminhar.

Não vamos pedir ao aniversariante maior infelicidade, pois as suas tristezas gostavam dele, tanto que viviam apegadas a tudo que fazia. Tão novo, recém-formado, já professor de graduação, já ocupado em avançar outro degrau, o do mestrado.

Ousemos concordar com o sujeito: realizasse o desejo.

E mesmo assim, melancólico?

Embora boamente orgulhoso, positivo, andava cabisbaixo, a medir os passos no calçamento da avenida, uma Champs Élysées que não o sabia fortificando-se a cada palmo.

Cumpria, naquela data, sob sol ameno de setembro, mais um ano de fidelidade a um sentimento difuso, informe, certa dormência, algo despregado da precisão do comovente.

Cumpria a experiência saboreando um belíssimo naco do sanduba de presunto cru com pasta de amêndoa, quitute que foi apresentado pela mãe de sua mãe quando era um menino de cinco anos. Ou seja, teve de passar ingredientes e montagem ao rapaz de um bistrô, bem simpático, polido, e, evidentemente, reconhecido com uns bons euros além do preço tabelado, já que tivera o capricho acatado.

Recorda-se?

Sobrevindos vinte e um anos desde que entrara um e saíra outro ─ aparecido em preto: dos sapatos ao chapéu de aba mole; o terno, a gravata estreita, a camisa de manga longa ─ e, de familiar, mantivera só uma peça, a cueca branca com bolinhas verdes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de outubro de 2020.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A maldição

 

A maldição

 

Ficar reto na cama. Com o travesseiro baixinho à nuca, as pernas esticadas, sem meia nos pés, os braços ao longo do corpo; e a mente notívaga crescendo o mau jeito. Tem sol pegando forte.

Dói dormir o domingo até mais tarde? Dói.

Ficar torto no sofá. Com o sono atravessando o almoço, mantendo o copo d’água vazio entre almofadas largadas no chão. Quer saída a preguiça. Já a barriga manifesta fome, querendo macarrão ao sugo e guaraná sem gelo.

Cansa construir castelos no ar? Cansa.

No plano ou no obtuso, o corpo padece.

Fica a pensar que as paredes não pedem nada, só oferecem. E o que oferecem sem pedir nada em troca?

Dor ou cansaço... Ambos.

Há momentos de lucidez; outros de imbecilidade.

À direita e à frente de quem entra na sala, a memória ameaça com a incomunicabilidade de vivências extraordinárias, a quem as viveu. E pode-se apreciar, ou desprezar, desenhos, quadros e fotografias que estão distribuídos, geometricamente espalhados, aguardando olhares curiosos, de visitantes casuais.

Já à esquerda, do outro lado do cômodo, uns metros a mais, na diagonal hipotenusa do quadradão da sala, só tem perpendicular um vazio, retângulo branco, propondo o espaço propício à meditação. Se for pra remediar o que não tem muito que remediar, há consciência.

Agora, atrás do sofá, passa um gato, zanza também uma gatinha, e ali no encontro das costas do caminho estreito detrás do móvel com o mural do silêncio ─ tem parede desnuda de formas, mas faminta de espantos quando examinada de perto ─ aí é que brota um nada.

Caso se pense na dor ou no cansaço? Parece mesmo, um nada.

Então, o domingo cresce de dentro pra fora, com o fermento que o tédio dá a entender que não esconde nenhuma angústia. Embora aja o mal-estar, azedando o olhar. Como gordurinha localizada nas partes pudendas que a cueca amolda do que jeito que pode. O esteta tem a boca cogitando o pudim de leite e o pacotão de polvilho.

Então, o domingo pede uma anca ampla, ampliada pela sofrência do indeterminado. É dia flácido, de esparramar sem medo, tomando o guaraná de dois litros; mais e mais; com panetone fora de época, tem que ir tomando e comendo pouco a pouco; curtindo como quem está no controle da azia, do avanço do tic-tac; como quem desconfia que a convicção de estar obcecado a satisfazer-se pelo instinto é ilusória.

Come por amar-se? Come pra sofrer? Empanturra-se.

E daí vem o que nem era segredo.

Pega a emburrar, do nada. Não sente frio nem calor. Permanece a ideia idiota de permanecer como está. Cresce o estupor estúpido de afundar a bunda no sofá. Percebe engatinhando certa vontade, esse estranho convite que falha; e vontade contrafeita provoca algo.

E os olhos nem tchum?

Sem ter como ignorar o ambiente, desliga a TV. Pra não levantar, nem apaga a luz.

Paredes, suas danadas, com tanta concretude ao redor, a pessoa acaba em prostração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2020.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Madeira de lei

 

Madeira de lei


Há assuntos irrelevantes. Há assuntos que me deixam indiferente. Há maneiras odiosas de abordar determinados assuntos. Há ideias que desviam o foco quando se aborda um assunto. Há confusão de sentidos quando determinadas palavras me deixam bem perplexo ao pensar um assunto candente, daqueles que puxam, sacodem e dão um tranco, ou seja, pegam daquele jeito. Há muito assunto à espera de uma palavrinha que lhe abra caminho neste mundo de labirintos, encruzilhadas e becos sem saída.

Uma ponte ajuda. E como.

Assim, com isso na cabeça, tomo o rumo de juntar gravetos. Faço um dique. Abandono a construção. Poderia melhorá-la, porém o outro lado acaba submerso onde deveria estar à tona, e firme. Nem sei se posso falar que estou na margem oposta, pois, de fato, estou perdido. E bem cansado de fazer coisas inúteis. Como ir a milhão atrás do que fazer sem a mínima ideia do que fazer, apenas pelo impulso de agir.

Preciso começar a trabalhar com a mentalidade dos práticos, dos que fazem tudo com um objetivo, de quem, tendo a meta em mente, não perde tempo e ganha um dinheirinho. Afinal, leva tempo ganhar dinheiro, ainda mais com alguma coisa trabalhosa, cheia de detalhes, algo que valha a pena desde o princípio, e justamente pela canseira. Contudo, um guindaste, de tão pesado, afunda na lama da beira, fica impraticável sua movimentação e é preciso largar. Puxa vida, não foi desta vez, de novo.

Então, puxo o ar, paro, olho as condições, calculo ângulos, levanto os problemas, estudo com paciência as circunstâncias, vai dar certo. Dará certo: desde que aquilo funcione assim; aqui pode ser a base contanto que ali siga sendo assado; então, fico a par do que existe, do mais necessário, do que pode fugir ao riscado, do que vai pedindo correções enquanto vai sendo realizado, do que serve mesmo à coisa toda lá no fim da trabalheira. Oba. Desta feita, o que tinha de ser feito está de pé, funcionando que é uma beleza.

Olho a obra realizada, a produção imprescindível. Sorrio, ô glória.

Problema encontrado e solução implementada?

Como tudo que é humano, chega um momento, este momento, o instante em que o jeito é encarar a realidade. Mudanças ocorrem com ou sem planejamento, tendo previsibilidade ou fora do esperado, por acaso, pelo componente precário que nós humanos trazemos dentro da gente. Todavia, isso quer dizer...

Significa que inteligente é ter guardado os ensinamentos, não só do que deu certo. É preciso ter cabeça, pesar os prós e os contras. E daí bolar um dique, uma balsa, um bote, uma jangada, uma pinguela, uma boia, um colete, uma ponte, um submarino amarelo.

Só fica uma maçada se sair juntando palavra depois de palavra, ir assoreando o riozinho apenas para exibir o orgulho de ter vencido, ter chegado, finalmente, aonde queria.

Taí, bom mesmo é não bancar saúva com bico de tungstênio.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2020.

domingo, 11 de outubro de 2020

Coisa besta

 

Coisa besta

 

Conheço quem tenha tarântula ou leitoa como membro integrante da família, o que não consola da solidão, mas permite conversações em que não há contrariedades fúteis de modo algum. No entanto, vou contar meu caso: em vez de bicho exótico, ou tradicionalmente aceito à mesa de jantar como um coelho ou hamster, adotei um friozinho na barriga.

Peguei carinho, que nem sei o que seria de mim sem ele.

Percebo a geada anunciando a madrugada, já emendo um pigarro no outro para enfatizar que estou respirando com a desenvoltura da minha estabilidade emocional. Entendo ter alguém pulando o muro do vizinho, pisco os olhos como se uma lágrima apagasse a gatunagem. E antes do gole de café quando em visita da amiga diabética que põe melado só para um agrado, logo a mim que aprecio beberagens sem sequer um minúsculo grão de açúcar.

E lá vem o danadinho pôr as caras.

A língua estuda o gosto, e desgosto. Sinto areia na garganta, que nem arrisco palavras. Subo espuma rasa pra maré dos olhos. Ajeito o esqueleto pro suor a me esgotar de tanta esperança abatida.

Sem o desespero dos hiperbólicos, contudo, trato de me confortar. Assim, não digo que ando certo de que posso vir a sofrer um colapso dos nervos. Acalanto o friozinho como quem cuida de pessoa inválida das pernas, mas que ainda conserva a cabeça funcionando dentro do razoável. Ou seja, pelo bê-á-bá da aritmética sentimental, a soma de um mais um continua dando dois.

Então, não vou exagerar que me arrepio inteiro.

Que sorte administrar o faniquito com a discrição dos tímidos, que sou mesmo bem reservado. Talvez seja falha minha pensar que sorte dá em quem tenha mérito, e nada do que faço me enquadra.

Vivo a vidinha dos destinados a pagar suas contas no prazo posto no boleto, comer meu pãozinho com presunto magro no café das três e roncar diante da TV antes de ir fazê-lo na cama.

Sem drama, minha rotina tem muito pouco do que imagino a quem merecedor de destaque na comunidade.

Dia a dia, calo a calo, durmo bem. Eleição depois de eleição, gripe a gripe, como bem. De lua a lua, no morde e assopra, a minha mente suporta uns trancos.

Embora um joelho inche quando corro atrás do ônibus que preciso pegar pra ir pra longe, tão longe, que topo atravancar o corredor com a minha máscara lavada.

Agora, estando no sofá de casa, de camiseta e bermuda, dispenso o rigor dos protocolos. Comendo maçã, e que delícia de carne macia, aguada, nutritiva. Isso me convém; convencido, permaneço a comer fatia a fatia. Tomara o geladinho da fruta não traga dor de dente.

Fecho os olhos, a dor que não sinto vai atrás de mim. Na torre da igreja, estou badalando os sinos. Quero acordar quem sonha. Mas os pardais não se compadecem. Tem chão até a alvorada. Na pracinha, tem cães dormindo. Com gente querendo ficar junto.

Não está doendo, mas poderia. A ideia nem mexe comigo.

O caso é sério, doutor?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de outubro de 2020.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Um sol pra cada um

 

Um sol pra cada um

 

Tem feito calor, muito. Se as condições me permitem adiar meus compromissos, faço-o que nem disfarço o sorriso. Ficar em casa tem preferência em dias de sol de rachar. Há vários dias, por sinal, tenho ficado no quarto. Longe do sol, mas não do suor, do esgotamento, do cansaço úmido. Certamente, há quem veja alguma vantagem em ficar em casa a maior parte do tempo. Se consigo resolver o que preciso, então, o dia está salvo. Como, no entanto, as quatro paredes não me protegem da temperatura elevada, nem mesmo a careca está isenta do suor. Nem preciso falar do ar parado, terrivelmente abafado.

A inclemência? Seca-me a boca. Tomo muita água, fazer o quê.

Reclamo da situação do planeta; a que ponto a civilização levou a Terra. Há no ar um panorama de fim dos tempos. Mas não é por isso que bebo água. Tenho: sede; tendência a ter pedras nos rins; e gosto de molhar a garganta antes de ralhar contra a sociedade de bípedes, mamíferos, seres habilitados a usar a dupla polegar e indicador como ferramenta. Duvido muito que tal uso tenha origem natural, pode bem ser que tenhamos copiado de algum bicho mais esperto. Logo, vítima de nossa barbárie, que a cobiça e a ganância nos mobilizam a querer dar a nossa cara a tudo que tocamos. Achando que somos o rei, daí que destruímos em nome de progresso, bem-estar, como se o mundo fosse nosso.

Reinamos? Sinto que estou pegando fogo. Sinto as queimadas do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Tenho pescoço, e minha nuca fica suada. Dia e noite, sinto-me suado, pegajoso. Da nuca para baixo, suarento. Contrariado com a realidade.

Os dedos sob os raios do sol também suam. E conferem a pele do pescoço. E sabem que fico chato quando não durmo direito. Ponho a tamborilar por qualquer motivo. Todos os motivos são um só, dar um basta ao calorão que aborrece, impacienta e tanto irrita. Tanto pego a batucar que mais fico suado, deveras aborrecido.

A neve preta denuncia a devastação. De resto, é preciso recolher a cinza que o vento traz. País afora, o vento espalha.

Como queria que o calorão acabasse em água. Mas não chove.

Então, as águas evaporam, viram nuvens e vão inundar Sampa? Então, é assim que os céus compensam a minha prostração? Chover só em São Paulo?

Vai chover longe daqui. Isso nada tem que ver com a intensidade que meus vizinhos atribuem ao calor. Vai chover por aí, e sentimos o termômetro frustrando nossos desejos. De que chova aqui também, a dar alívio ao mormaço que gruda na pele, ensopa as roupas, e acaba criando micose.

Estou confuso; leio o que vim escrevendo. Dou por encerrado. O cérebro diz que está bom. E a consciência? O cérebro ignora-a.

Quero honrar a educação que recebi.

Quero água.

Quero um final feliz, um bem bacana.

E como quero.

Com dez graus a menos, a minha sapiência ficaria evidente. Mole, mole. Todavia fritos, os neurônios impedem-me.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2020.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Meio intolerante

 

Meio intolerante

 

Os olhos estão cansados, e a realidade, que poderia dar uma boa colaborada, continua no lugar de sempre. Sob tensão. Indisposta com o sofrimento que a gente anda passando. Então, o jeito é pedir com entusiasmo, pondo ênfase nas palavras mágicas: xô, corona!

Neca.

Claro. É óbvio que o mundo não vai ouvir desejos. Por mais que a pessoa tenha fé, autorize os céus a intervirem no cotidiano restrito de movimentos ou queira falar de outros assuntos que não sejam vírus e política. Sei, sei. É crueldade da vida ficar batendo nas mesmíssimas teclas dia sim, outro também.

Por ingenuidade ou ignorância, a miopia não deixa ler a vida nem com a praticidade dos realistas nem com o desagrado dos utopistas. Melhor selar a luz das coisas com as retinas afeitas à resignação.

Veja só, uma garça passa crocitando no começo da noite. Talvez ali por volta das oito, comigo lendo na cama. Já as pálpebras tecendo o peso nas letras, que viram uma mancha, com tendências a taturana a percorrer um tanto. Nem um palmo, uns milímetros. Só pra dificultar a leitura; portanto, prontamente interrompida. Seja pelo som do bicho que passa, seja pelo cansaço de todo um dia de tarefas.

Comprar a lâmpada da sala e trocá-la. Decepção, que coisa louca o soquete ou um fio oxidado. Sei lá. Mexo, mexo, até que acenda.

Consigo dominar a saliva, embora o pé force na escadinha.

Ainda de manhã, ida ao supermercado. Sem perda de tempo. Item por item, tudo pego. E toca voltar ao setor de frutas e legumes, pois a pesagem deveria ter sido feita antes da carantonha da caixa.

O sangue dobra a língua, encorpa o pqp. Escapa mentalmente.

Cultivo um mundo circulando dentro de mim. Visita os rins, e bebo água. Mais de quatro copos, é pra não enfurecer de cólica. Divulga a insuficiência do fígado quando há exagero de gordura. Contrafilé tem rebarbas de banha que dão gosto à carne, e nem só de sal vive este carnívoro. Puxa vida.

Como se vê, minhas neuroses clamam pela escuridão sem lua. Vá dormir, seu infeliz. É preciso encaixar seu esqueleto entre o sono que já está vindo e a orelha sem pulgas do ronco largado.

O amanhã mais próximo não é sábado. Terá negócios outra vez. Terá outra renovada agenda de afazeres. Trate de domesticar-se pra enfrentar a feira dos dias. Como se o horário comercial seguisse por umas horinhas a mais. Caramba.

Por curiosidade, atiçado pelas minhoquinhas da moringa, acendo o abajur. Fuço no celular na cabeceira da cama.

Descubro...

Garças gazeiam; quem crocita é o corvo.

Sinceramente, percebo alguma bondade formigando?

No sacro, à direita de mim, em pé ou deitado, há um desvio. Como bom desviante, curto uma dorzinha bem sacana. Ajuda tirar de mim o mel de outro mundo, aquele mais belo, cheio de garça crocitante.

Não quero nem saber da placidez como virtude.

Ou os fatos fazem as pazes comigo ou vou piorar, na ranhetice.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 4 de outubro de 2020

Dando linha

 

Dando linha

 

Sempre firme, o horizonte mantendo distância confortável da vista serpejante de rios e montanhas, assim há espaço pro azul aquietado, embora inquietante a quem ainda o quer bem bonito. Meteoro arisco, explode a ideiazinha diabólica de que ele possa um dia vir a sumir do mapa, varrido pros abismos da Terra, onde prosperam os humanos a comer, insaciáveis, as entranhas da sua face, e nosso lar já infernal.

Quando entro a pensar na postura da espécie à qual estou ligado por genética travessa, tonteia-me sabê-lo. Uma vez que como e bebo com a agonia dos inconformados, passando palavras amáveis sobre a hipocrisia, na torcida pra que a demão edulcore-a.

Meio pueril de minha parte, admito.

Sempre firme, no propósito de sustentar-me mais equilibrado, sigo trabalhando pro próximo e para mim. Ainda que os calos doam-me as mãos, as costas sintam o suor da carga morro acima, trabalhando. Já o riso, já a lágrima, os preservo não tão exagerados e reservo-os pros instantes de sua manifestação, menos pândego.

Assim, parado um instante na laje de casa, sentado numa cadeira de vime que acomodou o meu avô, olho estupidamente pra tarde que nada me diz das suas vontades.

O mistério do mundo está no sensato.

De repente, a criançada fora da escola solta pipas. O céu ganha o alarido daqueles volteios, fica tingido de esperanças desconcertantes a quem um dia irá soltá-las da linha 10, e mantém-se lúcido, que nem o bando de maritacas que passa ignorando a loucura da guerra aérea por varetas, sedas e metros e metros da tal linha.

Até numa brincadeira, somos vorazmente carniceiros.

Pra não desabar num mau humor que afete meu estômago, deixo que as nuvens contem histórias, movendo e removendo formas. Dali a pouco, a face horrenda da bruxa dos desenhos de meus nove anos. Depois, um bicho, elefante virando cachorro virando camelo.

Olho, e sinto o que vejo.

O sadio do meu coração espia o céu. Brilhando desafiador, há sol. Topo deitar no cimentado da laje. Além dos muros de casa, há esta cidade que envolve. O entorno tão vivo convida a sentir o corpo como objeto de prazer, e gozo, outro dos “irresponsáveis trabalhando”.

Tiro tênis e meias. Tiro a camiseta. E meus óculos.

Estico as pernas. Pouso os calcanhares no chão. Passo os braços sob a nuca. Sinto-me flertando com a vida azul daquele céu. Falta um silêncio de mosteiro no alto da montanha. Tudo bem, o Monte Athos fica longe, bem longe de onde estou, mas estou numa boa, curtindo a folga do apocalipse. Quero uns minutinhos.

Sem um real a mais no salário ─ calço as meias, preciso cortar as unhas dos pés; calço os tênis, que pedem água com urgência; e visto a camiseta encardida, desbotada, bem surrada.

A coisa aperta. Há em mim esse sentimento que pouco se parece com satisfação, que já não tem pastel de palmito na rua onde a gente andou de bicicleta pela primeira vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de outubro de 2020.