domingo, 4 de outubro de 2020

Dando linha

 

Dando linha

 

Sempre firme, o horizonte mantendo distância confortável da vista serpejante de rios e montanhas, assim há espaço pro azul aquietado, embora inquietante a quem ainda o quer bem bonito. Meteoro arisco, explode a ideiazinha diabólica de que ele possa um dia vir a sumir do mapa, varrido pros abismos da Terra, onde prosperam os humanos a comer, insaciáveis, as entranhas da sua face, e nosso lar já infernal.

Quando entro a pensar na postura da espécie à qual estou ligado por genética travessa, tonteia-me sabê-lo. Uma vez que como e bebo com a agonia dos inconformados, passando palavras amáveis sobre a hipocrisia, na torcida pra que a demão edulcore-a.

Meio pueril de minha parte, admito.

Sempre firme, no propósito de sustentar-me mais equilibrado, sigo trabalhando pro próximo e para mim. Ainda que os calos doam-me as mãos, as costas sintam o suor da carga morro acima, trabalhando. Já o riso, já a lágrima, os preservo não tão exagerados e reservo-os pros instantes de sua manifestação, menos pândego.

Assim, parado um instante na laje de casa, sentado numa cadeira de vime que acomodou o meu avô, olho estupidamente pra tarde que nada me diz das suas vontades.

O mistério do mundo está no sensato.

De repente, a criançada fora da escola solta pipas. O céu ganha o alarido daqueles volteios, fica tingido de esperanças desconcertantes a quem um dia irá soltá-las da linha 10, e mantém-se lúcido, que nem o bando de maritacas que passa ignorando a loucura da guerra aérea por varetas, sedas e metros e metros da tal linha.

Até numa brincadeira, somos vorazmente carniceiros.

Pra não desabar num mau humor que afete meu estômago, deixo que as nuvens contem histórias, movendo e removendo formas. Dali a pouco, a face horrenda da bruxa dos desenhos de meus nove anos. Depois, um bicho, elefante virando cachorro virando camelo.

Olho, e sinto o que vejo.

O sadio do meu coração espia o céu. Brilhando desafiador, há sol. Topo deitar no cimentado da laje. Além dos muros de casa, há esta cidade que envolve. O entorno tão vivo convida a sentir o corpo como objeto de prazer, e gozo, outro dos “irresponsáveis trabalhando”.

Tiro tênis e meias. Tiro a camiseta. E meus óculos.

Estico as pernas. Pouso os calcanhares no chão. Passo os braços sob a nuca. Sinto-me flertando com a vida azul daquele céu. Falta um silêncio de mosteiro no alto da montanha. Tudo bem, o Monte Athos fica longe, bem longe de onde estou, mas estou numa boa, curtindo a folga do apocalipse. Quero uns minutinhos.

Sem um real a mais no salário ─ calço as meias, preciso cortar as unhas dos pés; calço os tênis, que pedem água com urgência; e visto a camiseta encardida, desbotada, bem surrada.

A coisa aperta. Há em mim esse sentimento que pouco se parece com satisfação, que já não tem pastel de palmito na rua onde a gente andou de bicicleta pela primeira vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de outubro de 2020.

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