Dando
linha
Sempre firme, o horizonte mantendo
distância confortável da vista serpejante de rios e montanhas, assim há espaço pro
azul aquietado, embora inquietante a quem ainda o quer bem bonito. Meteoro
arisco, explode a ideiazinha diabólica de que ele possa um dia vir a sumir do
mapa, varrido pros abismos da Terra, onde prosperam os humanos a comer, insaciáveis,
as entranhas da sua face, e nosso lar já infernal.
Quando entro a pensar na postura da
espécie à qual estou ligado por genética travessa, tonteia-me sabê-lo. Uma vez
que como e bebo com a agonia dos inconformados, passando palavras amáveis sobre
a hipocrisia, na torcida pra que a demão edulcore-a.
Meio pueril de minha parte, admito.
Sempre firme, no propósito de sustentar-me
mais equilibrado, sigo trabalhando pro próximo e para mim. Ainda que os calos
doam-me as mãos, as costas sintam o suor da carga morro acima, trabalhando. Já
o riso, já a lágrima, os preservo não tão exagerados e reservo-os pros instantes
de sua manifestação, menos pândego.
Assim, parado um instante na laje de
casa, sentado numa cadeira de vime que acomodou o meu avô, olho estupidamente
pra tarde que nada me diz das suas vontades.
O mistério do mundo está no sensato.
De repente, a criançada fora da escola
solta pipas. O céu ganha o alarido daqueles volteios, fica tingido de
esperanças desconcertantes a quem um dia irá soltá-las da linha 10, e mantém-se
lúcido, que nem o bando de maritacas que passa ignorando a loucura da guerra
aérea por varetas, sedas e metros e metros da tal linha.
Até numa brincadeira, somos vorazmente
carniceiros.
Pra não desabar num mau humor que
afete meu estômago, deixo que as nuvens contem histórias, movendo e removendo
formas. Dali a pouco, a face horrenda da bruxa dos desenhos de meus nove anos.
Depois, um bicho, elefante virando cachorro virando camelo.
Olho, e sinto o que vejo.
O sadio do meu coração espia o céu. Brilhando
desafiador, há sol. Topo deitar no cimentado da laje. Além dos muros de casa, há
esta cidade que envolve. O entorno tão vivo convida a sentir o corpo como objeto
de prazer, e gozo, outro dos “irresponsáveis trabalhando”.
Tiro tênis e meias. Tiro a camiseta. E
meus óculos.
Estico as pernas. Pouso os calcanhares
no chão. Passo os braços sob a nuca. Sinto-me flertando com a vida azul daquele
céu. Falta um silêncio de mosteiro no alto da montanha. Tudo bem, o Monte Athos
fica longe, bem longe de onde estou, mas estou numa boa, curtindo a folga do
apocalipse. Quero uns minutinhos.
Sem um real a mais no salário ─ calço as meias, preciso cortar as unhas dos pés; calço os tênis, que pedem água com urgência; e visto a camiseta encardida, desbotada, bem surrada.
A coisa aperta. Há em mim esse sentimento
que pouco se parece com satisfação, que já não tem pastel de palmito na rua
onde a gente andou de bicicleta pela primeira vez.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de outubro de 2020.
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