Amor
de casa
Contemplado com uma vinda inesperada,
ô de casa!, seria o caso de desopilar o fel? Diante de braços tão efusivos, segura
o passo um instante; mas demorar-se vai decepcionar, pode até causar irritação.
Pra guardar-se diante da visita, destrava o cenho.
É pessoa que morde a língua pra cuspir
sangue? Não é canalha, sabe sorrir. Está em casa.
É preciso dar o primeiro passo, como exemplo.
Que se ampare no amor, para que se compare aos melhores. Pra não ficar na
aparência, e traga ao mundo a contribuição verdadeiramente exemplar, tem suas
tramoias abonadoras. Portanto, abre o sorriso.
Ainda que venham exuberantes as novidades,
mantém a máscara no lugar. Pela consciência de estar no seu lugar, mantém a calma
de figura que sabe de si como anfitriã instagramável.
Ainda que esteja na posição orgulhosa de
defesa, faz o que pode para não dar com a língua nos dentes. Quer-se invisível,
por isso sorri a quem se ajeita na inveja. Diante de alguém cuja segurança está
em falar à toa, diz por gestos comedidos que está mesmo em casa.
Quando se deixam comparar, essas
pessoas que invejam são as que fingem mal algum amor. E há tanto amor em quem
inveja.
Trazem o fracasso de quem não consegue
dominar-se, ainda mais quando na presença de gente centrada. Na convivência com
alguém que se comporta condignamente, o amor intoxica.
E que futuro há de se projetar da ciumeira
vil de quem sofre com a felicidade facilmente percebida? É bile brotando nos tontos.
Como têm em alta conta as pessoas que
os desprezam, os tontos sofrem de ansioso desejo de aceitação. Vivem querendo sentir-se
em paz, fazendo hora em casa alheia.
Pouco à vontade, extrapolam-se. Por
amor.
O amor sabe desviar os olhos, prender
as lágrimas. Não se deixa recuar de portas relutantes. Não se revela na dor que
enrijece a nuca, entorta a boca e seca os olhos.
Como esses sofredores sabem sorrir?
Há lares no mundo que ignoram a
retribuição. Fechados, isolados, negam-se a acolher. Não dispensam frivolidades
e nem banalidades, só não servem café com bolinhos de chuva. Enoja ter intimidades,
daí mascaram o cenário: preconceitos são cortinas; nojos são tapetes; as
orquídeas vívidas, retratos patentes do desprezo.
Admitem-se tão sedutores?
Administram-se adoradores do amor ao
próximo.
Respeitam-se e pedem respeito; ainda mais
em ambiente privado. Como gente antiga, deixam evidente o direito de amar do
jeito antigo, como aprenderam em casa, com a família. Fazem questão do amor à
antiga.
Já o outro amor, de fora, de gente
estranha?
Melhor evitar.
Afinal, quem chega da rua que bata da
roupa o vírus da diferença. Quem entra no recesso do amor que recebe não fique exibindo
uma alegria exagerada da vinda. Trate de ajustar-se.
Assim, preservando o mínimo de respeito,
ao abrir o portão, indica aceitar que os cotovelos se toquem. É o amor sorrindo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de novembro de 2020.
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