terça-feira, 3 de novembro de 2020

Amor de casa

 

Amor de casa

 

Contemplado com uma vinda inesperada, ô de casa!, seria o caso de desopilar o fel? Diante de braços tão efusivos, segura o passo um instante; mas demorar-se vai decepcionar, pode até causar irritação. Pra guardar-se diante da visita, destrava o cenho.

É pessoa que morde a língua pra cuspir sangue? Não é canalha, sabe sorrir. Está em casa.

É preciso dar o primeiro passo, como exemplo. Que se ampare no amor, para que se compare aos melhores. Pra não ficar na aparência, e traga ao mundo a contribuição verdadeiramente exemplar, tem suas tramoias abonadoras. Portanto, abre o sorriso.

Ainda que venham exuberantes as novidades, mantém a máscara no lugar. Pela consciência de estar no seu lugar, mantém a calma de figura que sabe de si como anfitriã instagramável.

Ainda que esteja na posição orgulhosa de defesa, faz o que pode para não dar com a língua nos dentes. Quer-se invisível, por isso sorri a quem se ajeita na inveja. Diante de alguém cuja segurança está em falar à toa, diz por gestos comedidos que está mesmo em casa.

Quando se deixam comparar, essas pessoas que invejam são as que fingem mal algum amor. E há tanto amor em quem inveja.

Trazem o fracasso de quem não consegue dominar-se, ainda mais quando na presença de gente centrada. Na convivência com alguém que se comporta condignamente, o amor intoxica.

E que futuro há de se projetar da ciumeira vil de quem sofre com a felicidade facilmente percebida? É bile brotando nos tontos.

Como têm em alta conta as pessoas que os desprezam, os tontos sofrem de ansioso desejo de aceitação. Vivem querendo sentir-se em paz, fazendo hora em casa alheia.

Pouco à vontade, extrapolam-se. Por amor.

O amor sabe desviar os olhos, prender as lágrimas. Não se deixa recuar de portas relutantes. Não se revela na dor que enrijece a nuca, entorta a boca e seca os olhos.

Como esses sofredores sabem sorrir?

Há lares no mundo que ignoram a retribuição. Fechados, isolados, negam-se a acolher. Não dispensam frivolidades e nem banalidades, só não servem café com bolinhos de chuva. Enoja ter intimidades, daí mascaram o cenário: preconceitos são cortinas; nojos são tapetes; as orquídeas vívidas, retratos patentes do desprezo.

Admitem-se tão sedutores?

Administram-se adoradores do amor ao próximo.

Respeitam-se e pedem respeito; ainda mais em ambiente privado. Como gente antiga, deixam evidente o direito de amar do jeito antigo, como aprenderam em casa, com a família. Fazem questão do amor à antiga.

Já o outro amor, de fora, de gente estranha?

Melhor evitar.

Afinal, quem chega da rua que bata da roupa o vírus da diferença. Quem entra no recesso do amor que recebe não fique exibindo uma alegria exagerada da vinda. Trate de ajustar-se.

Assim, preservando o mínimo de respeito, ao abrir o portão, indica aceitar que os cotovelos se toquem. É o amor sorrindo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário