O
mágico
Esta é uma crônica
sentida, uma vez que James Randi morreu. Aí, sem tirar pelo em ovo, você emenda
que sabe quem é Uri Geller, mas não quem seja esse daí. Tudo bem, é do jogo
querer saber o que não se sabe. Então, o que O MÁGICO, o título, sugere?
Se a primeira ideia que
lhe ocorre é esperar algo burlesco, com a típica música de circo ao fundo, de
reconhecível alegria, mais aquele cheirinho de pipoca, se for, pare aqui.
No entanto, se a segunda
ideia é a de se deixar surpreender pelos truques de profissional gabaritado, de
renome na praça, então, tendo desejos de saber como está sendo feita a mágica,
assim, continue.
Mas aqui entra o alerta:
não se frustre com o que está vindo, pode ser que você esteja depositando no
que está sendo escrito uma coisa mais sua do que propriamente do texto.
A hora é esta.
Deixe fluir. Mesmo que se
perceba afogando, prossiga. É indo em frente que se deixa fluir o que lhe está
sendo oferecido; como alguma engenhoca líquida, uma consciência sensível aos
elementos que não travam nem estorvam o movimento. Fluente, seguindo em
correnteza, é isso que faz movimentar o que precisa mesmo prosseguir. O que dá
vida à existência.
Ou seja, ao fim e ao cabo,
é feito rio. E tem a corrente: mais rápido ou mais lento, depende do prazer, da
ansiedade, do divertimento.
Isso, isso. Alcance a
diversão de seguir lendo. Portanto leia, opte continuar a leitura.
Afinal, pode ser que a
surpresa esteja na transparência, às claras, quando a prestidigitação ocorre
bem diante de seus olhos.
E dizem: o grande mágico causa
o maior impacto na audiência; é quem fala o que está por fazer; quem faz
enquanto fala, provocando o pasmo de afirmar o surpreendente, escondendo o
objetivo da ação no próprio ato de revelar o ato.
A grande sacada está em
continuar, despreparando para o truque. Ainda que tenha ensaiado a
espontaneidade da reação; ainda que se policie; siga comprometido com o número.
A cartada está em oferecer o encenado como algo novo; outra vez como novidade,
para que seja novamente algo transformador, arrebatador, entusiasmante,
causador do frisson. Sabendo-se que
virá da maneira que tem de vir a tornar-se outro, rompendo minimamente com o ato
de sempre, porque o mundo pede mais, pede coraçãozinho no alho e não apenas
mortadela.
Então, um imprevisto
moderado pode muito bem temperar o arroz e feijão de cada dia. Daí, sem mostrar
a forma da forma, vem o futuro como uma iguaria diferente, nem batida nem requentada.
Só pra variar? Há palmas
que nem precisam de mãos.
Assim, quando menos se
espera, mesmo com o lenço trazendo o lenço trazendo o lenço, mesmo assim, da
cartola ordinária, acaba-se, na ponta do último lenço, não com a moeda tirada
do nariz, mas com uma flor, flor que tira o ar, arrepia, faz aplaudir, tal o arrebatamento.
É flor que não petrifica, que arredonda o êxito num sonoro: óóóó.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de novembro de 2020.
Nenhum comentário:
Postar um comentário