domingo, 1 de novembro de 2020

O mágico

 

O mágico

 

Esta é uma crônica sentida, uma vez que James Randi morreu. Aí, sem tirar pelo em ovo, você emenda que sabe quem é Uri Geller, mas não quem seja esse daí. Tudo bem, é do jogo querer saber o que não se sabe. Então, o que O MÁGICO, o título, sugere?

Se a primeira ideia que lhe ocorre é esperar algo burlesco, com a típica música de circo ao fundo, de reconhecível alegria, mais aquele cheirinho de pipoca, se for, pare aqui.

No entanto, se a segunda ideia é a de se deixar surpreender pelos truques de profissional gabaritado, de renome na praça, então, tendo desejos de saber como está sendo feita a mágica, assim, continue.

Mas aqui entra o alerta: não se frustre com o que está vindo, pode ser que você esteja depositando no que está sendo escrito uma coisa mais sua do que propriamente do texto.

A hora é esta.

Deixe fluir. Mesmo que se perceba afogando, prossiga. É indo em frente que se deixa fluir o que lhe está sendo oferecido; como alguma engenhoca líquida, uma consciência sensível aos elementos que não travam nem estorvam o movimento. Fluente, seguindo em correnteza, é isso que faz movimentar o que precisa mesmo prosseguir. O que dá vida à existência.

Ou seja, ao fim e ao cabo, é feito rio. E tem a corrente: mais rápido ou mais lento, depende do prazer, da ansiedade, do divertimento.

Isso, isso. Alcance a diversão de seguir lendo. Portanto leia, opte continuar a leitura.

Afinal, pode ser que a surpresa esteja na transparência, às claras, quando a prestidigitação ocorre bem diante de seus olhos.

E dizem: o grande mágico causa o maior impacto na audiência; é quem fala o que está por fazer; quem faz enquanto fala, provocando o pasmo de afirmar o surpreendente, escondendo o objetivo da ação no próprio ato de revelar o ato.

A grande sacada está em continuar, despreparando para o truque. Ainda que tenha ensaiado a espontaneidade da reação; ainda que se policie; siga comprometido com o número. A cartada está em oferecer o encenado como algo novo; outra vez como novidade, para que seja novamente algo transformador, arrebatador, entusiasmante, causador do frisson. Sabendo-se que virá da maneira que tem de vir a tornar-se outro, rompendo minimamente com o ato de sempre, porque o mundo pede mais, pede coraçãozinho no alho e não apenas mortadela.

Então, um imprevisto moderado pode muito bem temperar o arroz e feijão de cada dia. Daí, sem mostrar a forma da forma, vem o futuro como uma iguaria diferente, nem batida nem requentada.

Só pra variar? Há palmas que nem precisam de mãos.

Assim, quando menos se espera, mesmo com o lenço trazendo o lenço trazendo o lenço, mesmo assim, da cartola ordinária, acaba-se, na ponta do último lenço, não com a moeda tirada do nariz, mas com uma flor, flor que tira o ar, arrepia, faz aplaudir, tal o arrebatamento. É flor que não petrifica, que arredonda o êxito num sonoro: óóóó.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de novembro de 2020.


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