quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A maldição

 

A maldição

 

Ficar reto na cama. Com o travesseiro baixinho à nuca, as pernas esticadas, sem meia nos pés, os braços ao longo do corpo; e a mente notívaga crescendo o mau jeito. Tem sol pegando forte.

Dói dormir o domingo até mais tarde? Dói.

Ficar torto no sofá. Com o sono atravessando o almoço, mantendo o copo d’água vazio entre almofadas largadas no chão. Quer saída a preguiça. Já a barriga manifesta fome, querendo macarrão ao sugo e guaraná sem gelo.

Cansa construir castelos no ar? Cansa.

No plano ou no obtuso, o corpo padece.

Fica a pensar que as paredes não pedem nada, só oferecem. E o que oferecem sem pedir nada em troca?

Dor ou cansaço... Ambos.

Há momentos de lucidez; outros de imbecilidade.

À direita e à frente de quem entra na sala, a memória ameaça com a incomunicabilidade de vivências extraordinárias, a quem as viveu. E pode-se apreciar, ou desprezar, desenhos, quadros e fotografias que estão distribuídos, geometricamente espalhados, aguardando olhares curiosos, de visitantes casuais.

Já à esquerda, do outro lado do cômodo, uns metros a mais, na diagonal hipotenusa do quadradão da sala, só tem perpendicular um vazio, retângulo branco, propondo o espaço propício à meditação. Se for pra remediar o que não tem muito que remediar, há consciência.

Agora, atrás do sofá, passa um gato, zanza também uma gatinha, e ali no encontro das costas do caminho estreito detrás do móvel com o mural do silêncio ─ tem parede desnuda de formas, mas faminta de espantos quando examinada de perto ─ aí é que brota um nada.

Caso se pense na dor ou no cansaço? Parece mesmo, um nada.

Então, o domingo cresce de dentro pra fora, com o fermento que o tédio dá a entender que não esconde nenhuma angústia. Embora aja o mal-estar, azedando o olhar. Como gordurinha localizada nas partes pudendas que a cueca amolda do que jeito que pode. O esteta tem a boca cogitando o pudim de leite e o pacotão de polvilho.

Então, o domingo pede uma anca ampla, ampliada pela sofrência do indeterminado. É dia flácido, de esparramar sem medo, tomando o guaraná de dois litros; mais e mais; com panetone fora de época, tem que ir tomando e comendo pouco a pouco; curtindo como quem está no controle da azia, do avanço do tic-tac; como quem desconfia que a convicção de estar obcecado a satisfazer-se pelo instinto é ilusória.

Come por amar-se? Come pra sofrer? Empanturra-se.

E daí vem o que nem era segredo.

Pega a emburrar, do nada. Não sente frio nem calor. Permanece a ideia idiota de permanecer como está. Cresce o estupor estúpido de afundar a bunda no sofá. Percebe engatinhando certa vontade, esse estranho convite que falha; e vontade contrafeita provoca algo.

E os olhos nem tchum?

Sem ter como ignorar o ambiente, desliga a TV. Pra não levantar, nem apaga a luz.

Paredes, suas danadas, com tanta concretude ao redor, a pessoa acaba em prostração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2020.

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