A
maldição
Ficar reto na cama. Com o travesseiro
baixinho à nuca, as pernas esticadas, sem meia nos pés, os braços ao longo do
corpo; e a mente notívaga crescendo o mau jeito. Tem sol pegando forte.
Dói dormir o domingo até mais tarde?
Dói.
Ficar torto no sofá. Com o sono
atravessando o almoço, mantendo o copo d’água vazio entre almofadas largadas no
chão. Quer saída a preguiça. Já a barriga manifesta fome, querendo macarrão ao
sugo e guaraná sem gelo.
Cansa construir castelos no ar? Cansa.
No plano ou no obtuso, o corpo padece.
Fica a pensar que as paredes não pedem
nada, só oferecem. E o que oferecem sem pedir nada em troca?
Dor ou cansaço... Ambos.
Há momentos de lucidez; outros de
imbecilidade.
À direita e à frente de quem entra na
sala, a memória ameaça com a incomunicabilidade de vivências extraordinárias, a
quem as viveu. E pode-se apreciar, ou desprezar, desenhos, quadros e
fotografias que estão distribuídos, geometricamente espalhados, aguardando
olhares curiosos, de visitantes casuais.
Já à esquerda, do outro lado do
cômodo, uns metros a mais, na diagonal hipotenusa do quadradão da sala, só tem
perpendicular um vazio, retângulo branco, propondo o espaço propício à
meditação. Se for pra remediar o que não tem muito que remediar, há
consciência.
Agora, atrás do sofá, passa um gato,
zanza também uma gatinha, e ali no encontro das costas do caminho estreito
detrás do móvel com o mural do silêncio ─ tem parede desnuda de formas, mas
faminta de espantos quando examinada de perto ─ aí é que brota um nada.
Caso se pense na dor ou no cansaço?
Parece mesmo, um nada.
Então, o domingo cresce de dentro pra
fora, com o fermento que o tédio dá a entender que não esconde nenhuma angústia.
Embora aja o mal-estar, azedando o olhar. Como gordurinha localizada nas partes
pudendas que a cueca amolda do que jeito que pode. O esteta tem a boca cogitando
o pudim de leite e o pacotão de polvilho.
Então, o domingo pede uma anca ampla,
ampliada pela sofrência do indeterminado. É dia flácido, de esparramar sem
medo, tomando o guaraná de dois litros; mais e mais; com panetone fora de
época, tem que ir tomando e comendo pouco a pouco; curtindo como quem está no
controle da azia, do avanço do tic-tac; como quem desconfia que a convicção de
estar obcecado a satisfazer-se pelo instinto é ilusória.
Come por amar-se? Come pra sofrer?
Empanturra-se.
E daí vem o que nem era segredo.
Pega a emburrar, do nada. Não sente
frio nem calor. Permanece a ideia idiota de permanecer como está. Cresce o
estupor estúpido de afundar a bunda no sofá. Percebe engatinhando certa
vontade, esse estranho convite que falha; e vontade contrafeita provoca algo.
E os olhos nem tchum?
Sem ter como ignorar o ambiente, desliga
a TV. Pra não levantar, nem apaga a luz.
Paredes, suas danadas, com tanta
concretude ao redor, a pessoa acaba em prostração.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de outubro de 2020.
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