terça-feira, 6 de outubro de 2020

Meio intolerante

 

Meio intolerante

 

Os olhos estão cansados, e a realidade, que poderia dar uma boa colaborada, continua no lugar de sempre. Sob tensão. Indisposta com o sofrimento que a gente anda passando. Então, o jeito é pedir com entusiasmo, pondo ênfase nas palavras mágicas: xô, corona!

Neca.

Claro. É óbvio que o mundo não vai ouvir desejos. Por mais que a pessoa tenha fé, autorize os céus a intervirem no cotidiano restrito de movimentos ou queira falar de outros assuntos que não sejam vírus e política. Sei, sei. É crueldade da vida ficar batendo nas mesmíssimas teclas dia sim, outro também.

Por ingenuidade ou ignorância, a miopia não deixa ler a vida nem com a praticidade dos realistas nem com o desagrado dos utopistas. Melhor selar a luz das coisas com as retinas afeitas à resignação.

Veja só, uma garça passa crocitando no começo da noite. Talvez ali por volta das oito, comigo lendo na cama. Já as pálpebras tecendo o peso nas letras, que viram uma mancha, com tendências a taturana a percorrer um tanto. Nem um palmo, uns milímetros. Só pra dificultar a leitura; portanto, prontamente interrompida. Seja pelo som do bicho que passa, seja pelo cansaço de todo um dia de tarefas.

Comprar a lâmpada da sala e trocá-la. Decepção, que coisa louca o soquete ou um fio oxidado. Sei lá. Mexo, mexo, até que acenda.

Consigo dominar a saliva, embora o pé force na escadinha.

Ainda de manhã, ida ao supermercado. Sem perda de tempo. Item por item, tudo pego. E toca voltar ao setor de frutas e legumes, pois a pesagem deveria ter sido feita antes da carantonha da caixa.

O sangue dobra a língua, encorpa o pqp. Escapa mentalmente.

Cultivo um mundo circulando dentro de mim. Visita os rins, e bebo água. Mais de quatro copos, é pra não enfurecer de cólica. Divulga a insuficiência do fígado quando há exagero de gordura. Contrafilé tem rebarbas de banha que dão gosto à carne, e nem só de sal vive este carnívoro. Puxa vida.

Como se vê, minhas neuroses clamam pela escuridão sem lua. Vá dormir, seu infeliz. É preciso encaixar seu esqueleto entre o sono que já está vindo e a orelha sem pulgas do ronco largado.

O amanhã mais próximo não é sábado. Terá negócios outra vez. Terá outra renovada agenda de afazeres. Trate de domesticar-se pra enfrentar a feira dos dias. Como se o horário comercial seguisse por umas horinhas a mais. Caramba.

Por curiosidade, atiçado pelas minhoquinhas da moringa, acendo o abajur. Fuço no celular na cabeceira da cama.

Descubro...

Garças gazeiam; quem crocita é o corvo.

Sinceramente, percebo alguma bondade formigando?

No sacro, à direita de mim, em pé ou deitado, há um desvio. Como bom desviante, curto uma dorzinha bem sacana. Ajuda tirar de mim o mel de outro mundo, aquele mais belo, cheio de garça crocitante.

Não quero nem saber da placidez como virtude.

Ou os fatos fazem as pazes comigo ou vou piorar, na ranhetice.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

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