O
cru dos outros
O barco? À deriva. A tripulação? De
primeira viagem. A situação? De mal a pior. O futuro? Catastrófico. A lição que
fica? Muitas são as traves irremovíveis.
Líquido e certo? Um dia depois do
outro. Ou não levaria por nome que bem define o imbróglio todo: realidade.
E que não fique o não dito pelo que
não se disse? É por ouvir falar que poderia ter acontecido, mas, com prova em
contrário, está vindo. Portanto, é de fato um acontecimento promissor e tanto.
Com o tanto pondo as manguinhas de fora, dizendo-se: interpretação.
A interpretação de terceiros? Que
conste nos autos, pois analisam os pratos limpos do que não tem pra comer. O
que tem de sujo? Com a inteligência de quem vive sem pôr bois à frente do carro,
algo forte. Com a sensibilidade de filho agora pai de outro pai? Picanha no
alho. Com a agudeza da filha agora mãe de outra mãe? Cocada dura.
Sonha a esperança mais profunda? Que arde
se rir. A pimenta ou o dólar? Nada de repolho nem feijão.
Assim a banda passa? O povo apupa. Enquanto
a matilha cresce? Enquanto o barranco desbarranca. Tem coisa errada? Como
sempre. E sempre resta tanto por fazer? Pra podermos deixar pra amanhã. Se não
for sábado? Nem feriado.
Enfim? A caravana chega.
Do lombo, descem as mulheres suas crianças.
A simplicidade põe canecas ao fogo. Pra
coar o café é preciso que a água esteja fervida, com aquela fumacinha de ainda
quente.
A simpatia traz um banquinho, e na
falta, espalha almofadas. Para bem acomodar quem anda carente de carinho,
aconchego, abraço.
A sinceridade sorri, acolhe. Diz a
essência de sua jovialidade por gestos espontâneos, no imediato que vem de
berço.
A sincronicidade ganha um rosto, sem
os disfarces de pessoa que só faz o que faz pensando na troca, no que vai obter
pelo mérito.
Qualquer que seja a causa? Sob medida,
ou o peito chia. Chiando consegue mudar alguma coisa? Do vinho pro vinagre.
Tomando além da conta? Pra dormir o sono dos morgados. Mão pra toda obra? Pela
metade, já que precisa de aditamento, e mais outro.
Assim, o oásis seca? Os camelos não
passando de uns pangarés. As tâmaras? Uvas passas. As palmeiras? Coqueirinhos
de jardim.
Então, qual deveria ter sido o pedido
quando a lâmpada pifou?
Vez ou outra, a gente podia ter
pensado com cuidado, sem que as bocas da fome se lembrassem de pedir a cabeça
de quem vive para bailar a valsa dos que só lambem o osso.
É aqui que entram os amestrados? O
circo tá bombando. Puseram fogo nas argolas? Passa o palhaço. E a criançada ri
sem parar? Com os pais já meio grogues de tanta eucaristia improvisada. Como?
Sem solução. E acha o quê? Um caminho.
Tem quem condene? Outros condenados.
Pode acabar por aqui? Só se tiver coisa importante pra esconder. Se dá jeito?
Nem depende do santo forte, da reza brava, da chave na porta.
Quem se importa? Quem se dana. Quem
não mama? A mama.
Afinal, mãe é mãe. E vice-versa?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de outubro de 2020.
Nenhum comentário:
Postar um comentário