terça-feira, 20 de outubro de 2020

O cru dos outros

 

O cru dos outros

 

O barco? À deriva. A tripulação? De primeira viagem. A situação? De mal a pior. O futuro? Catastrófico. A lição que fica? Muitas são as traves irremovíveis.

Líquido e certo? Um dia depois do outro. Ou não levaria por nome que bem define o imbróglio todo: realidade.

E que não fique o não dito pelo que não se disse? É por ouvir falar que poderia ter acontecido, mas, com prova em contrário, está vindo. Portanto, é de fato um acontecimento promissor e tanto. Com o tanto pondo as manguinhas de fora, dizendo-se: interpretação.

A interpretação de terceiros? Que conste nos autos, pois analisam os pratos limpos do que não tem pra comer. O que tem de sujo? Com a inteligência de quem vive sem pôr bois à frente do carro, algo forte. Com a sensibilidade de filho agora pai de outro pai? Picanha no alho. Com a agudeza da filha agora mãe de outra mãe? Cocada dura.

Sonha a esperança mais profunda? Que arde se rir. A pimenta ou o dólar? Nada de repolho nem feijão.

Assim a banda passa? O povo apupa. Enquanto a matilha cresce? Enquanto o barranco desbarranca. Tem coisa errada? Como sempre. E sempre resta tanto por fazer? Pra podermos deixar pra amanhã. Se não for sábado? Nem feriado.

Enfim? A caravana chega.

Do lombo, descem as mulheres suas crianças.

A simplicidade põe canecas ao fogo. Pra coar o café é preciso que a água esteja fervida, com aquela fumacinha de ainda quente.

A simpatia traz um banquinho, e na falta, espalha almofadas. Para bem acomodar quem anda carente de carinho, aconchego, abraço.

A sinceridade sorri, acolhe. Diz a essência de sua jovialidade por gestos espontâneos, no imediato que vem de berço.

A sincronicidade ganha um rosto, sem os disfarces de pessoa que só faz o que faz pensando na troca, no que vai obter pelo mérito.

Qualquer que seja a causa? Sob medida, ou o peito chia. Chiando consegue mudar alguma coisa? Do vinho pro vinagre. Tomando além da conta? Pra dormir o sono dos morgados. Mão pra toda obra? Pela metade, já que precisa de aditamento, e mais outro.

Assim, o oásis seca? Os camelos não passando de uns pangarés. As tâmaras? Uvas passas. As palmeiras? Coqueirinhos de jardim.

Então, qual deveria ter sido o pedido quando a lâmpada pifou?

Vez ou outra, a gente podia ter pensado com cuidado, sem que as bocas da fome se lembrassem de pedir a cabeça de quem vive para bailar a valsa dos que só lambem o osso.

É aqui que entram os amestrados? O circo tá bombando. Puseram fogo nas argolas? Passa o palhaço. E a criançada ri sem parar? Com os pais já meio grogues de tanta eucaristia improvisada. Como? Sem solução. E acha o quê? Um caminho.

Tem quem condene? Outros condenados. Pode acabar por aqui? Só se tiver coisa importante pra esconder. Se dá jeito? Nem depende do santo forte, da reza brava, da chave na porta.

Quem se importa? Quem se dana. Quem não mama? A mama.

Afinal, mãe é mãe. E vice-versa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2020.

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