quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Um sol pra cada um

 

Um sol pra cada um

 

Tem feito calor, muito. Se as condições me permitem adiar meus compromissos, faço-o que nem disfarço o sorriso. Ficar em casa tem preferência em dias de sol de rachar. Há vários dias, por sinal, tenho ficado no quarto. Longe do sol, mas não do suor, do esgotamento, do cansaço úmido. Certamente, há quem veja alguma vantagem em ficar em casa a maior parte do tempo. Se consigo resolver o que preciso, então, o dia está salvo. Como, no entanto, as quatro paredes não me protegem da temperatura elevada, nem mesmo a careca está isenta do suor. Nem preciso falar do ar parado, terrivelmente abafado.

A inclemência? Seca-me a boca. Tomo muita água, fazer o quê.

Reclamo da situação do planeta; a que ponto a civilização levou a Terra. Há no ar um panorama de fim dos tempos. Mas não é por isso que bebo água. Tenho: sede; tendência a ter pedras nos rins; e gosto de molhar a garganta antes de ralhar contra a sociedade de bípedes, mamíferos, seres habilitados a usar a dupla polegar e indicador como ferramenta. Duvido muito que tal uso tenha origem natural, pode bem ser que tenhamos copiado de algum bicho mais esperto. Logo, vítima de nossa barbárie, que a cobiça e a ganância nos mobilizam a querer dar a nossa cara a tudo que tocamos. Achando que somos o rei, daí que destruímos em nome de progresso, bem-estar, como se o mundo fosse nosso.

Reinamos? Sinto que estou pegando fogo. Sinto as queimadas do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Tenho pescoço, e minha nuca fica suada. Dia e noite, sinto-me suado, pegajoso. Da nuca para baixo, suarento. Contrariado com a realidade.

Os dedos sob os raios do sol também suam. E conferem a pele do pescoço. E sabem que fico chato quando não durmo direito. Ponho a tamborilar por qualquer motivo. Todos os motivos são um só, dar um basta ao calorão que aborrece, impacienta e tanto irrita. Tanto pego a batucar que mais fico suado, deveras aborrecido.

A neve preta denuncia a devastação. De resto, é preciso recolher a cinza que o vento traz. País afora, o vento espalha.

Como queria que o calorão acabasse em água. Mas não chove.

Então, as águas evaporam, viram nuvens e vão inundar Sampa? Então, é assim que os céus compensam a minha prostração? Chover só em São Paulo?

Vai chover longe daqui. Isso nada tem que ver com a intensidade que meus vizinhos atribuem ao calor. Vai chover por aí, e sentimos o termômetro frustrando nossos desejos. De que chova aqui também, a dar alívio ao mormaço que gruda na pele, ensopa as roupas, e acaba criando micose.

Estou confuso; leio o que vim escrevendo. Dou por encerrado. O cérebro diz que está bom. E a consciência? O cérebro ignora-a.

Quero honrar a educação que recebi.

Quero água.

Quero um final feliz, um bem bacana.

E como quero.

Com dez graus a menos, a minha sapiência ficaria evidente. Mole, mole. Todavia fritos, os neurônios impedem-me.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2020.


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