domingo, 18 de outubro de 2020

Reserva moral

 

Reserva moral

 

Era o primeiro dia, já que se decidira. Tomada a decisão, todavia, que fosse definitiva, não houvesse a mínima hesitação. Convicto da deliberação, entraria de queixo erguido, apresentaria olhar inabalável, a voz de pessoa que iria incorporar o modelo exposto na vitrine sem precisar se explicar a vendedor ou abelhudos aquém do balcão. Para radicalizar de vez, mostraria ao mundo que mudara de fato.

Seria o começo da fase nova. Deixaria de agradar a quem nunca prestou atenção na sua transparência nata. Daria início a essa etapa que haveria de prolongar-se até o fim dos seus dias, estava certo de que conseguiria manter-se reto. Queria que a vida fosse de vencedor, de alguém disposto a ter seus direitos respeitados, de quem conhece maneiras de demonstrar tal consciência.

Sendo o princípio de uma transformação revolucionária, ao menos passara a pensar assim no exato instante em que o manequim da loja parisiense surgiu diante dele, logo no primeiro dia de sua temporada na capital francesa, como bolsista de filosofia estética.

Portando cabeça revolucionariamente íntegra, de quem dispensa qualquer divã, mesmo o do doutor Freud, a cujo objeto fotogênico até deu atenção quando visitou a casa inglesa do adorador de puros.

Como completava mais um ano de vida nesse dia, associou a data da morte do analista com o do seu renascimento em vida.

Esquisito era sentir um travo libertário, com ideias atrevidas, sem saudades do Ipiranga, fora da Pauliceia que desencaminha para bem encaminhar.

Não vamos pedir ao aniversariante maior infelicidade, pois as suas tristezas gostavam dele, tanto que viviam apegadas a tudo que fazia. Tão novo, recém-formado, já professor de graduação, já ocupado em avançar outro degrau, o do mestrado.

Ousemos concordar com o sujeito: realizasse o desejo.

E mesmo assim, melancólico?

Embora boamente orgulhoso, positivo, andava cabisbaixo, a medir os passos no calçamento da avenida, uma Champs Élysées que não o sabia fortificando-se a cada palmo.

Cumpria, naquela data, sob sol ameno de setembro, mais um ano de fidelidade a um sentimento difuso, informe, certa dormência, algo despregado da precisão do comovente.

Cumpria a experiência saboreando um belíssimo naco do sanduba de presunto cru com pasta de amêndoa, quitute que foi apresentado pela mãe de sua mãe quando era um menino de cinco anos. Ou seja, teve de passar ingredientes e montagem ao rapaz de um bistrô, bem simpático, polido, e, evidentemente, reconhecido com uns bons euros além do preço tabelado, já que tivera o capricho acatado.

Recorda-se?

Sobrevindos vinte e um anos desde que entrara um e saíra outro ─ aparecido em preto: dos sapatos ao chapéu de aba mole; o terno, a gravata estreita, a camisa de manga longa ─ e, de familiar, mantivera só uma peça, a cueca branca com bolinhas verdes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de outubro de 2020.

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