domingo, 11 de outubro de 2020

Coisa besta

 

Coisa besta

 

Conheço quem tenha tarântula ou leitoa como membro integrante da família, o que não consola da solidão, mas permite conversações em que não há contrariedades fúteis de modo algum. No entanto, vou contar meu caso: em vez de bicho exótico, ou tradicionalmente aceito à mesa de jantar como um coelho ou hamster, adotei um friozinho na barriga.

Peguei carinho, que nem sei o que seria de mim sem ele.

Percebo a geada anunciando a madrugada, já emendo um pigarro no outro para enfatizar que estou respirando com a desenvoltura da minha estabilidade emocional. Entendo ter alguém pulando o muro do vizinho, pisco os olhos como se uma lágrima apagasse a gatunagem. E antes do gole de café quando em visita da amiga diabética que põe melado só para um agrado, logo a mim que aprecio beberagens sem sequer um minúsculo grão de açúcar.

E lá vem o danadinho pôr as caras.

A língua estuda o gosto, e desgosto. Sinto areia na garganta, que nem arrisco palavras. Subo espuma rasa pra maré dos olhos. Ajeito o esqueleto pro suor a me esgotar de tanta esperança abatida.

Sem o desespero dos hiperbólicos, contudo, trato de me confortar. Assim, não digo que ando certo de que posso vir a sofrer um colapso dos nervos. Acalanto o friozinho como quem cuida de pessoa inválida das pernas, mas que ainda conserva a cabeça funcionando dentro do razoável. Ou seja, pelo bê-á-bá da aritmética sentimental, a soma de um mais um continua dando dois.

Então, não vou exagerar que me arrepio inteiro.

Que sorte administrar o faniquito com a discrição dos tímidos, que sou mesmo bem reservado. Talvez seja falha minha pensar que sorte dá em quem tenha mérito, e nada do que faço me enquadra.

Vivo a vidinha dos destinados a pagar suas contas no prazo posto no boleto, comer meu pãozinho com presunto magro no café das três e roncar diante da TV antes de ir fazê-lo na cama.

Sem drama, minha rotina tem muito pouco do que imagino a quem merecedor de destaque na comunidade.

Dia a dia, calo a calo, durmo bem. Eleição depois de eleição, gripe a gripe, como bem. De lua a lua, no morde e assopra, a minha mente suporta uns trancos.

Embora um joelho inche quando corro atrás do ônibus que preciso pegar pra ir pra longe, tão longe, que topo atravancar o corredor com a minha máscara lavada.

Agora, estando no sofá de casa, de camiseta e bermuda, dispenso o rigor dos protocolos. Comendo maçã, e que delícia de carne macia, aguada, nutritiva. Isso me convém; convencido, permaneço a comer fatia a fatia. Tomara o geladinho da fruta não traga dor de dente.

Fecho os olhos, a dor que não sinto vai atrás de mim. Na torre da igreja, estou badalando os sinos. Quero acordar quem sonha. Mas os pardais não se compadecem. Tem chão até a alvorada. Na pracinha, tem cães dormindo. Com gente querendo ficar junto.

Não está doendo, mas poderia. A ideia nem mexe comigo.

O caso é sério, doutor?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de outubro de 2020.

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