Coisa
besta
Conheço quem tenha tarântula ou leitoa
como membro integrante da família, o que não consola da solidão, mas permite
conversações em que não há contrariedades fúteis de modo algum. No entanto, vou
contar meu caso: em vez de bicho exótico, ou tradicionalmente aceito à mesa de jantar
como um coelho ou hamster, adotei um friozinho na barriga.
Peguei carinho, que nem sei o que
seria de mim sem ele.
Percebo a geada anunciando a madrugada,
já emendo um pigarro no outro para enfatizar que estou respirando com a
desenvoltura da minha estabilidade emocional. Entendo ter alguém pulando o muro
do vizinho, pisco os olhos como se uma lágrima apagasse a gatunagem. E antes do
gole de café quando em visita da amiga diabética que põe melado só para um
agrado, logo a mim que aprecio beberagens sem sequer um minúsculo grão de
açúcar.
E lá vem o danadinho pôr as caras.
A língua estuda o gosto, e desgosto.
Sinto areia na garganta, que nem arrisco palavras. Subo espuma rasa pra maré
dos olhos. Ajeito o esqueleto pro suor a me esgotar de tanta esperança abatida.
Sem o desespero dos hiperbólicos,
contudo, trato de me confortar. Assim, não digo que ando certo de que posso vir
a sofrer um colapso dos nervos. Acalanto o friozinho como quem cuida de pessoa
inválida das pernas, mas que ainda conserva a cabeça funcionando dentro do
razoável. Ou seja, pelo bê-á-bá da aritmética sentimental, a soma de um mais um
continua dando dois.
Então, não vou exagerar que me arrepio
inteiro.
Que sorte administrar o faniquito com
a discrição dos tímidos, que sou mesmo bem reservado. Talvez seja falha minha
pensar que sorte dá em quem tenha mérito, e nada do que faço me enquadra.
Vivo a vidinha dos destinados a pagar
suas contas no prazo posto no boleto, comer meu pãozinho com presunto magro no
café das três e roncar diante da TV antes de ir fazê-lo na cama.
Sem drama, minha rotina tem muito
pouco do que imagino a quem merecedor de destaque na comunidade.
Dia a dia, calo a calo, durmo bem.
Eleição depois de eleição, gripe a gripe, como bem. De lua a lua, no morde e
assopra, a minha mente suporta uns trancos.
Embora um joelho inche quando corro
atrás do ônibus que preciso pegar pra ir pra longe, tão longe, que topo
atravancar o corredor com a minha máscara lavada.
Agora, estando no sofá de casa, de
camiseta e bermuda, dispenso o rigor dos protocolos. Comendo maçã, e que
delícia de carne macia, aguada, nutritiva. Isso me convém; convencido,
permaneço a comer fatia a fatia. Tomara o geladinho da fruta não traga dor de
dente.
Fecho os olhos, a dor que não sinto
vai atrás de mim. Na torre da igreja, estou badalando os sinos. Quero acordar
quem sonha. Mas os pardais não se compadecem. Tem chão até a alvorada. Na
pracinha, tem cães dormindo. Com gente querendo ficar junto.
Não está doendo, mas poderia. A ideia nem
mexe comigo.
O caso é sério, doutor?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de outubro de 2020.
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