quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Nos bailes da vida

 

Nos bailes da vida

 

Cruzando com você, por acaso, numa tarde de meio de primavera, com uma tempestade de fim de tarde já bem anunciada, a pandemia rolando solta por ruas e praças, ocorreu de repente perguntar-lhe: e a cabeça como vai? E sonso incontrolável, soltei: como tem passado?

Nem o escutei. Já meio que desistindo de ir ao festival, que soube tem lotado o estacionamento do Belas Artes/Memorial. Acabarei indo aonde a pirraça me guiar; comigo é assim: com opções, topo outra.

Sabe como é, burro véio emenda ir sem pressa. Pra tirar da mente minhas ideias de bocó, quero vedada a lateral, assim olho fixo o chão da estradinha esburacada, cheia de pedras.

Queria pensar, e penso um roteiro.

De que trataria o filme? Pergunta difícil. Então, para uma resposta simples, que apresente o conteúdo sem desmerecer o modo da sua encenação. Sendo razoável, a ficção trataria da junção de um Fuscão Preto com uma Lambreta azul, com vistas a um patinete com sorriso ortodôntico. Relações essas que se dão nos ambientes de trabalho e domésticos. Haveria um consultório de dentista, onde ele receberia a segunda das mulheres, a mais velha delas. Claro, haveria a casa em que o homem desempenharia as suas funções de marido. Crescidos próximos desde o primário, filhos da terrinha boa pra se viver, de cujo clima não se há de ter senões, pelos invernos bastante frios e pelas chuvas torrenciais de fins de março, conforme o figurino subtropical, e de montanha.

E o caso em foco?

O marido reforça a presença com umas delicadezas, no cotidiano instituído entre o quintal e a garagem. Não bebe mais que o usual a quem levemente cachaceiro, já ocupado em orientar a debutante que valsa de público a indignação com os comedores de proteína animal.

A amante, uma senhora trintona já com discretíssimas correções ao redor dos olhos, busca satisfazer seu companheiro abrindo a ele o mundo de vinhos refinadamente caros e crepúsculos fulminantemente românticos, e sempre a dinheiro.

Porém, quando se fala em dinheiro, há desavenças. Muitas.

E uma vez desabrochada a separação dos vícios das virtudes?

A vergonha enoja a filha, que não suporta ouvir da esposa traída as comiserações esperadas de madames quatrocentonas. Que acinte escutar os lamentos da provedora de seus genes, e mantenedora de um lar asqueroso, tão recatadamente mortiço.

Inquieta, e movida e comovida pela indignação espiritual, a moça suplica à mãe que se erga da tumba. Que ela venha pro sol, e ganhe a musculatura da mulher atual, moderna em sua liberdade de ser.

Na cena final, vê-se uma vitrola, o disco de vinil está parado, sem que se possa ler o selo, as manchas parecem de bolor, e um risco no lado A forma a letra M, de Maria ou Marta? De Madalena é que não é!

E afora isso aí?

Com todo um passado pela frente, no centro do telão, projeta-se em letras escarlates:

SEGUE O BAILE.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2020.

 

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