domingo, 25 de outubro de 2020

E ponto final

 

E ponto final

 

Agenda apertada? Tinha consulta no oculista dali a dez minutos, e todavia uma rua fora do caminho atravessou de repente. Convidado a desviar-se, topou a parada. Pois a isca era irresistível: um gato. Todo pimpão, o bichano estava arisco ─ tinha algo à frente.

Entrou pela rua que não lhe serviria para segurar ponteiro algum. E sabendo que atrasaria, acelerou os passos? Viu o bicho partir para cima de uma maritaca. Era o objeto da cobiça: um pássaro colorido e barulhento que estranhamente agia diferente, como uma rolinha.

Hein?

Havia aquela maritaca dando sopa na calçada. Ela nem aí para as pessoas passando rente.

Ao que parece... Coisa real demais?

Só que tinha mesmo esta situação. Não há invenção nenhuma.

Mas, estando no limite do atraso, apertou mais ainda a passada e isso fez correr o gato no encalço da maritaca pedestre? Nada.

Por uma questão de princípios, não se alegue influência direta de um evento sobre outro.

Dali a um segundo, a maritaca voou. Talvez o motivo seja simples: voou pela sobrevivência. No entanto, teria voado pelo sexto sentido, que, de tão profundo, todo animal nem percebe que tem?

Sabe-se lá. Viu-se que voou e ponto final. Só isso.

E o que liga maritaca, gato e a pessoa que os interligava?

O tempo certo para fazer a coisa certa.

De olho na hora, com a cadeira do médico esfriando, tocou rápido para chegar a tempo. Ô alívio ─ chegou.

Tudo resolvido. De posse da receita, foi atrás do preço das lentes.

Levado pelo sorriso da moça estrategicamente à porta da óptica vizinha à clínica de olhos, entrou e recebeu por escrito o orçamento.

Saiu. Andou rua acima, rua abaixo. E buscou outras ruas.

Assuntaram materiais? Informaram qualidades?

Venderam o peixe.

O peixe que nenhum gato ataca, preferindo maritacas.

E veio mais uma? Essa surgiu à porta da última loja visitada.

Outra rolinha em pele de maritaca? Tal e qual.

Algo incrível.

Tratou de ajeitar a câmera do celular, focou. Quis parar de tremer. Procurou prender a respiração. Até usou a mão esquerda pra segurar o aparelho com maior estabilidade, que se sacudia como vara verde por estar com falta de álcool no sangue.

E no que estava pronto pro disparo, o bicho surtou de vez. E foi-se embora, juntando-se a um bando que passava a dez metros do chão.

Chão? Um troço sujo, salpicado de bitucas, coberto de santinhos.

Ouviu um miado. Será possível?

Era. Justamente ele, o mesmo miau do começo desta história.

Tocou o celular. Era o alarme pro remédio da pressão. Tinha de ir, e foi. Voltou pra casa.

Assim que entrou, desabou aquela chuva. Pois é: no que engoliu o comprimido, caiu o mundo.

Caraca! A constatação de ter escapado por pouco o tirou do sério, que até se esqueceu de ter atirado um tchau ao gato.

Se tivesse dado atenção às condições do tempo, certamente teria tomado água na careca, que vira criança quando chapinha chuva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.

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