E
ponto final
Agenda apertada? Tinha consulta no
oculista dali a dez minutos, e todavia uma rua fora do caminho atravessou de
repente. Convidado a desviar-se, topou a parada. Pois a isca era irresistível:
um gato. Todo pimpão, o bichano estava arisco ─ tinha algo à frente.
Entrou pela rua que não lhe serviria
para segurar ponteiro algum. E sabendo que atrasaria, acelerou os passos? Viu o
bicho partir para cima de uma maritaca. Era o objeto da cobiça: um pássaro
colorido e barulhento que estranhamente agia diferente, como uma rolinha.
Hein?
Havia aquela maritaca dando sopa na
calçada. Ela nem aí para as pessoas passando rente.
Ao que parece... Coisa real demais?
Só que tinha mesmo esta situação. Não há
invenção nenhuma.
Mas, estando no limite do atraso,
apertou mais ainda a passada e isso fez correr o gato no encalço da maritaca
pedestre? Nada.
Por uma questão de princípios, não se
alegue influência direta de um evento sobre outro.
Dali a um segundo, a maritaca voou.
Talvez o motivo seja simples: voou pela sobrevivência. No entanto, teria voado
pelo sexto sentido, que, de tão profundo, todo animal nem percebe que tem?
Sabe-se lá. Viu-se que voou e ponto
final. Só isso.
E o que liga maritaca, gato e a pessoa
que os interligava?
O tempo certo para fazer a coisa
certa.
De olho na hora, com a cadeira do
médico esfriando, tocou rápido para chegar a tempo. Ô alívio ─ chegou.
Tudo resolvido. De posse da receita,
foi atrás do preço das lentes.
Levado pelo sorriso da moça
estrategicamente à porta da óptica vizinha à clínica de olhos, entrou e recebeu
por escrito o orçamento.
Saiu. Andou rua acima, rua abaixo. E buscou
outras ruas.
Assuntaram materiais? Informaram
qualidades?
Venderam o peixe.
O peixe que nenhum gato ataca, preferindo
maritacas.
E veio mais uma? Essa surgiu à porta
da última loja visitada.
Outra rolinha em pele de maritaca? Tal
e qual.
Algo incrível.
Tratou de ajeitar a câmera do celular,
focou. Quis parar de tremer. Procurou prender a respiração. Até usou a mão
esquerda pra segurar o aparelho com maior estabilidade, que se sacudia como
vara verde por estar com falta de álcool no sangue.
E no que estava pronto pro disparo, o
bicho surtou de vez. E foi-se embora, juntando-se a um bando que passava a dez
metros do chão.
Chão? Um troço sujo, salpicado de
bitucas, coberto de santinhos.
Ouviu um miado. Será possível?
Era. Justamente ele, o mesmo miau do
começo desta história.
Tocou o celular. Era o alarme pro
remédio da pressão. Tinha de ir, e foi. Voltou pra casa.
Assim que entrou, desabou aquela chuva.
Pois é: no que engoliu o comprimido, caiu o mundo.
Caraca! A constatação de ter escapado
por pouco o tirou do sério, que até se esqueceu de ter atirado um tchau ao gato.
Se tivesse dado atenção às condições
do tempo, certamente teria tomado água na careca, que vira criança quando chapinha
chuva.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.
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