O
intervalo
Como posso querer acordar a aurora?
Não depende de mim que o sol venha
sorrindo, tão radiante, cioso das promessas que a manhã enfeixa como agenda por
um dia, por mais este dia. Irei cumpri-la, com a tranquilidade dos que dão crédito
ao discernimento de não ter muito controle. Fio-me na confiança de me sair bem,
de alguma forma.
E esses pardais... Nem me deixam despertar
direito.
Farei do modo que sei. Como aprendi,
ou pelos exemplos que me deram ou pela cara quebrada por mim mesmo. Na correria,
indo de ação em ação. Torcendo para que o amanhã possa vir como ontem veio, e
como hoje.
Sim, o futuro tem a necessidade de um
primeiro passo; e que me seja firme, seguro, sem o abuso de ser maior que as minhas
pernas, sem exigir de mim o que meus pés e meus joelhos, já passados dos
cinquenta anos, não têm como medir.
Os músculos são couraça, mas com um
ponto falível, o humor. A reação orgânica do corpo influencia na eficiência das
carnes moles. O gesto brusco, o lapso que tonteia, a paralisia momentânea.
Procuro a calma, transpiro
constrangimentos.
A moral dita ao esqueleto a dança
cotidiana.
O vexatório aflora no rosto
enrubescido? Sob carga estressante, vêm cãibras às pernas? O pescoço duro faz
ridículo o cumprimento?
Como foi torto o meu sono.
Ou seja, a vaidade domina o ser; faz
gato e sapato da alma gentil que entra frouxa na dividida com o mundo. Daí que
o mundo já nem contabiliza mais as vitórias. De antemão, seja admitida a
debilidade e o enfrentamento da realidade seja dado como perdido.
Sem que o pé desnudo toque o chão frio
ao lado da cama? Sem.
A consciência é barquinho frágil no
mar aberto. Mesmo que diga o contrário? Que tenha esperanças? Ê cabeça de
papel.
Que vergonha fugir da raia pela
esperança.
E não tem jeito?
Culparei o diabo pelas coisas humanas
que me fazem um verme. Cuidarei de encontrar a desculpinha mais esfarrapada que
sirva de açúcar no café da manhã. Pedirei bisnaguinha com leite morno. Nem vou
me chamar à razão ─ bastará a justiça de apontar um culpado.
Que alegria permanecer incompetente,
mas em paz.
De humor recuperado, posso tirar onda.
Até penso dar conselhos a quem nem me sabe um guru. Embora míope e calvo? Guru.
O que é isso, seu Rodrigues? Humorismo?
Vamos! Colabore. Escolha um futuro
repleto de façanhas.
De manhã, lave roupa, passe o
cheirosinho no chão dos quartos e da sala. E a cozinha? Depois do almoço;
depois de lavar, enxugar e guardar pratos, panelas e talheres, só então faça
florescer o jasmim no piso. Mas o banheiro? Após ter dado com a porta do guarda-roupa
no dedão da esquerda, sinta a quentura da frigideira com o dedão da destra. Sua
besta de meia-tigela, faça direito ou soltará os cachorros. E, por favor, pare
de querer que a noite prometa o que não pode.
Dez da noite? Deite. Seis da manhã?
Levante.
Entre um e outro, pra salvar a
humanidade dela própria? Sonhe.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de outubro de 2020.
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