domingo, 24 de maio de 2026

Marx e os ferinos

 

Marx e os ferinos

 

Como me assanham as intrigas, leio as folhas políticas com olhos de gentil homem. E a você, nobre ser humano que lê aquelas páginas ainda se espaventando com o que depreende do lido, digo-lhe que os pelos eriçados do meu peito me incitam a: dar pitacos sobre a estreia do filme O Azarão.

Sendo menos impreciso, pegou-me a comichão de tecer palavras a respeito do prazer que gerará entre os proselitistas — sejam eles a favor, sejam os do contra.

Com argumentos sóbrios, quero discorrer sobre as circunstâncias em que se dará a chegada da película aos cinemas, mas, olhando os jasmins do jardim, lembrei-me do dia em que Marx, pulando na minha perna, foi iracundo ao latir: resolva.

Como sói acontecer, tratei de respirar fundo e abri a janela. E Nina a pulou. E em seguida, veio o Tales.

Como haveria de acontecer, foi aquele perereco.

O pior é que nenhum dos gatos era meu. Todavia, o palco onde se deu a briga, sim, era meu. Parei de trabalhar. Meti-me no imbróglio.

E a confusão virou crônica. Eu a publiquei no dia 02/05/2021 e ela tinha o seguinte título: O filme da minha vida.

O texto publicado era este:

Com um baita tigre-de-bengala no meu encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio. Caramba. A fera nada melhor que eu. E que situação terrível a minha, pois meu nado cachorrinho é horrível. Sério. O bicho deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés. E o pavor é tanto que nem olho. Engulo tanta água. Cacilda!

Com a coragem aguda de mentir, esse afogamento crônico me fez agir como o último caçador azarado. Com tantas bestas dando sopa, saí do sonho de alma lavada, e mãos abanando.

Por meus botões!

Só que tais conselheiros nem sempre sacam o tanto que eu gosto de reclamar à esperança o muito que me falta.

Dando brevidade ao lampejo, veja bem, reajo como?

Ajoelho-me. A cabeça trama contra mim. Não rezo nem rezarei.

E quanto mais ponho fé que organizo as ideias, mais eu canalizo a energia para o onírico.

E lá estou eu: no papel de esportista nato.

Ao tiro de largada, conservo sensíveis meus calcanhares. Olho em linha reta. A cem metros, vejo a fita. Vindos pelo ar, escuto aplausos.

Segundos após essa cena ficar inteligível, pigarreio.

Posto que o bloco está solto, os tênis fustigam, canta o sabiá a um milésimo do disparo e as arquibancadas estão vazias, o que eu sinto é isso mesmo: alergia a ouro.

Com meu olhar sereno, perscruto tudo.

Com a coroa de louros exalando sensatez, inebria-me dissimular o desarranjo. Estrago a montagem porque sei fazer do fracasso a base do meu sucesso.

O jogo é outro: entrego a redação à professora.

Posso negar a alegria de estar no alto do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios — olímpicos ou chinfrins. Contudo, quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se fosse escrever algo imperativo.

Cubro a cara com um sorriso. Sei ser convincente.

Por quê? Ora, garoto não tem rugas simpáticas quando sorri.

Esse sorriso atira-me num cenário novo e veste-me outro figurino: senhor das margens, sou quem pratica artes de rio.

Com um fraco para tibiezas, tiro do bagre um salmão. E eu felicito o rio onde piranhas não pululam. Desejando fartura aos pescadores, aceno: sigam atrás de comida, e tenham quilos para vender.

Deixo-me fisgar pelo embalo. Bebo uma cachaça. E as tilápias vão desviando da canoa. E lambo os beiços; haverá brasa, logo mais.

De volta ao chão da folha, sincronizo sons e imagens.

Sem vocação para pregar jejuns a um faquir, defendo o meu pão. Como um ator que se alimenta das câmeras: cadê a fita do filme?

Não faço fita nem ponho laço no presente, o que ocorreu foi isso: defendi a gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado.

E lá estava eu — lavando as unhadas na destra.

Pena que sabão seja tão somente detergente, pois eu queria que minha canhota fosse inábil o bastante pra digitar com maior seriedade a derradeira palavra aos ferinos:

 

SIM

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de maio de 2026.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Otimismo redobrado

 

Otimismo redobrado

 

De minha parte, a atendente não teria motivos para irritar-se. Já os demais na sala, bem, isso é com eles.

Todos eles.

Sem exceção, porque a espera pela realização do exame tinha que ser ali, em meio àquelas pessoas.

E estavam desconfortáveis aquelas mulheres e os senhores, todos nós, porque eu também esperava.

E havia o atraso regular de meia hora ou mais, a depender de quem veio meia hora antes, em atendimento ao recomendado.

Quando feito o pedido de agendamento via telefone, a atendente faz questão de lembrar as recomendações: chegue com trinta minutos de antecedência, não esqueça de trazer toalha, vista roupa esportiva e, por favor, preencha a ficha com letra legível.

Meia hora antes, as mãos não estão suadas. Portanto, escreve-se com a letra que normalmente é um garranchinho simpático.

Simpático também é o cartazinho na parede.

É porque, abaixo da placa de plástico onde está escrito SILÊNCIO, afixaram com durex um sulfite em cuja impressão há uma figurinha infantil com um dedo sobre a boca e acima dessa cabecinha laranjinha fofurinha tascaram isso que me regala uma alegria supimpa:

 

FAÇA SILÊNCIO OU FALE BAIXINHO

 

Quem afixou o pedido ilustrado não sabe de mim que sou um sujeito baixinho que, consequentemente, fala baixinho com a desenvoltura de estar ao rés do chão, por genética.

Papai e mamãe tiveram lá a noite de amor que este bom filho acha que eles fizeram bem, ainda que eu continue baixinho.

Apesar dos ímpetos de conquistador do mundo, eu faço jus a quem debocha de mim quando falo baixinho mesmo quando contrariado, e gritando.

Se aqueles senhores da sala de espera me vissem todo pimpão na esteira, testemunhariam um homem cuja envergadura moral excede a estatura de tampinha, barrigudinho e folgado.

Folgo afirmar que dei de mim o meu melhor.

Se caminhei devagar, é porque a esteira estava posta junto a uma janela, e comprovei o desempenho exemplar dos homens a limpar as janelas do edifício do outro lado da rua.

Quando me aceleraram as passadas ao aumentarem a velocidade do rolamento da dita esteira, resisti.

Fui surpreendido, todavia, pelo computador do médico que assistia meu teste. Sejamos honestos quando houver necessidade de agirmos com a retidão dos puros: não pisquei luzinha vermelha nem apitei.

Apitar não apitei, mas agitei os braços, bati palmas e gritei.

O rato que havia roído a lixeira, o roedor que tinha aberto um buraco deste tamanhico, esse bicho alongou o corpo, afinou-se todo e passou por uma fresta que a mim me espantou pela finura de um dedo.

Senhores que estarão aí quando eu sair, fiz este teste com o dobro de raiva: pela lixeira roída, pelo saco de lixo roído e pela máquina de lavar que ficou sem fazer ruído algum.

E me invejem, senhores, uma vez que o médico foi realmente uma pessoinha bacanérrima:

— Ótimo! Teu coração é de bebê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2026.

terça-feira, 19 de maio de 2026

A convocação

 

A convocação

 

“Não falei?”

Só depois que Dona Cremilda bebeu o golinho de café é que lhe entreguei as cem pratas.

Eu duvidei. E o nosso dez jogará a Copa do Mundo.

“Não tem ninguém com o talento dele”.

Não tem. Nem o 10 da Celeste nem o Cérebro dos Hermanos, não tem ninguém que seja réplica desse, daquele ou de qualquer jogador que traga nas costas esta distinção: Camisa 10.

A camisa mais pesada de qualquer seleção de futebol precisa que o atleta que a enverga saiba lidar com a carga.

Para que a botinada não o avarie, flutue em campo. Quando notar que virá o carrinho do perna de pau, deixe que ele capote pela lateral afora. Se o cabeça de bagre xinga, passa a mão e peida adoidado na sua presença, é sua testada no contrapé do goleiro que resultará na entusiasmada vibração dos torcedores.

“Nunca duvidei que Deus é mesmo brasileiro, meu amigo.”

Dona Cremilda, esse país é que é divino, maravilhoso, o paraíso a dar chapéu, rolinho e bicicleta em quem desafie o amor que Deus tem pela gente.

Se chegamos ao penta, conquistaremos o hexa.

“Basta ter fé. Honrar a camisa. Ainda que a câmera não mostre no telão, a boca cante direitinho o Hino da Pátria.”

Louvados sejam, calos de chuteiras.

E eu imagino o craque esquadrinhando a cancha. Intuindo em que lugar a bola estará no próximo segundo. Inventando a melhor posição quando os adversários sequer a suponham provável.

“O fora de série desequilibra.”

E penso no Camisa 10.

Minutos antes de a equipe vir para a partida, espero que ele tome a iniciativa de complementar as falas do técnico. Não apenas enfatize que o conjunto será eficaz quando trabalhar pela vitória.

“Meu amigo, o melhor sempre tem que estar no time”.

Durante o almoço, a gente quer que o jogador mais talentoso não cometa o erro de reforçar qual a função de cada um. Faria bom papel se engolir o macarrão sem tagarelar.

“E o mais importante. O líder é aquele que, milésimos de segundo antes que o grupo sinta que é o momento de cada um tomar parte do círculo, ele é quem abre os braços pra roda ser formada.”

Levantará o caneco aquele que, no ônibus, a caminho do estádio, não desafinar no samba?

“O Nosso 10 é muito experiente. Já que será a sua despedida dos mundiais, ele vai trazer o hexa.”

Ter desligado o celular, será o seu gol de placa?

“Quando as bolsas de apostas tratam nosso escrete como azarão, aí, sim, é a nossa hora!”

— Quer apostar que a seleção cai nas oitavas?

— Com a canarinha campeã, virei pegar milzinho de você, OK?

— Se trouxer o chororô, topa comer pipoca?

— Fechado!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de maio de 2026.

domingo, 17 de maio de 2026

O mordomo

 

O mordomo

 

Sim, foi o mordomo.

Antes, contudo, de chegarmos ao culpado verdadeiro, façamos o percurso que começa justamente com aquele personagem que nos servirá. Evidentemente, ele passará batido, apontando o ônibus ainda com a porta aberta. A dúvida cairá nos ouvidos de quem nem quer se envolver. Que dúvida?

Lá vai o sujeito.

Ele mantém o passo, apressado. Com contas pra pagar, mentiras pra sustentar, um estressado. Tem coisas mal postas, por resolver. E que mais ninguém meta o bedelho. Porque apto a atar e desatar fatos e fotos, é o vivo interessado a repassar o que foi perguntado.

O outro nem fingia que fotografava pés.

Ambos, em virtude dessa pressa toda, em razão das ansiedades, tinham motivos de sobra para não ouvirem palpites. Eram camaradas que faziam questão de disfarçar a cara enfezada, sim, aquela carinha de gente atrasadíssima.

Portanto, culpemos as bitucas e não o fumante que se livra delas.

O ônibus já foi. O ponto ficou sendo o cinzeiro.

Poderíamos culpar o cronista, porquanto ele faça entrar na crônica um parágrafo inteirinho só pra demonstrar que nada tem de centrado, com uma personalidade tola o bastante pra gracejos pueris.

Sem que o cigarro de um deles tenha sido tragado.

Em outras palavras, vamos agir com condescendência e culpemos a cachola do escriba pelas fumaças pretensamente recreativas.

De passagem, voltemos nossa atenção para a sacola plástica, um típico veículo para transporte de mercadorias.

E a danada está quietinha na boca de um bueiro, só à espera da próxima chuva, que logo virá. Já que ela se dá em exemplo de como barrar o fluxo pluvial, causando estrago, dor de cabeça a quem fuma e gente que perde o ônibus, levando quem responsável a adiantar-se nas sinceras desculpas por transtornos prejuízos.

— Vovô, vou voltar pra casa na canoa?

O ponto também serve pra amarrar bote. Só que o fumante que se apresente para inflá-lo corre esse risco, de desfalecimento.

Destarte, menos pelo baixo custo e pela praticidade no manuseio, culpemos o polietileno pela durabilidade que torna maléfica a química industrial. Em vez de obstruir bocas de lobo, juntem-se milhares para que o bote torne-se um objeto flutuante.

Agora, passemos a sopesar gravemente o temporal.

A enfrentá-lo, empunhando a sua sombrinha com estampa do Bob Esponja, com faixinhas em degradê ─ amarelo, laranja e vermelho ─; reforcemos o ponto: ela mesma é dada a sutilezas.

Pessoa racional, a pedestre de tênis lilás usa a faixa de pedestres. Capaz de engolir a laranjada sem açúcar que o maninho preparou de manhã, de carimbar errada a data do relatório quando o chefe gritou, de sentar-se sozinha no ônibus vazio.

Por conseguinte, ainda que a menor distância entre o ponto x e o y seja uma reta, preferimos zanzar. Pra que as palavras não rasguem cicatrizes no calçado, culpemos a flora estomacal pelo bafo.

Para evitar que bagunceiros tomem a gerência, simplifiquemos, ou melhor, facilite-se a escolha: é sua.

Folgamos escutá-lo, mordomo, ao elencar os bebedores de café: os que fazem cara feia quando está frio; os que cospem de pronto se está pelando; os que pedem água sem gás.

E aqui ninguém desperdiçará seus créditos; e o ouvimos:

─ Quem pegou o ônibus errado?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de maio de 2026.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A irmandade

 

A irmandade

 

Pelo sangue, nenhum laço; pela cara de pau, siameses. Eles juntos sabem como combater caruncho e gorgulhos afins.

Montariam um negócio — uma borracharia. Num site, viram que o futuro é alvissareiro para quem entra no mercado de carros voadores. Pelas figurinhas, eles captaram o fundo: os pneus são caríssimos.

Fúlvio procurou Danilo. E a dupla foi atrás do cara certo.

— Nós dois pensamos. Bebemos só um café. Se a gente quer que o melhor publicitário faça a melhor propaganda, só um nome iluminou a nossa manhã: o seu.

— Cirilo, pagaremos o quanto você pedir.

— Cirilo, estamos prontos pra pagar do jeito que for.

Cirilo procurou na internet informações sobre o modelo mais falado do momento. O veículo não usa pneus.

— Meus amigos, pela consideração, eu topo.

— Quanto você vai cobrar?

— Mil reais.

— Mil? Cê tá loco!?!

— Cirilo, você precisa compreender o que está em jogo. Não vamos chegar nos nossos investidores com essa proposta: o cara mais genial da publicidade fará a nossa campanha por mil reais.

— Campanha? Não é pra bolar só um slogan?

— Campanha, sim, Cirilo. Nós dois queremos que você cuide dos filminhos da TV, dos cortes da internet, dos panfletos de rua, das faixas das fachadas da Faria Lima, dos botões de mochila e do sorriso gentil do Fúlvio.

— Você é o cara que vai iluminar o futuro, Cirilo.

Cirilo passou um café.

— Quero cinquenta mil.

— Cinquenta redondinho vai chamar a atenção.

— Cinquenta e cinco também?

— Cirilo, aceite sessenta. Tá OK?

— Fúlvio, é muito cinco na jogada.

— Pra desconfiarem só depois que tudo estiver feito, Danilo, arrume pra ele sessenta e seis.

— Tem que ser sessenta e um, Fúlvio.

— Caramba! Vocês estão mesmo dispostos a pagar sessenta e um mil reais pelo meu trabalho?

— Cirilo! Você não sacou o quanto te valorizamos, irmão.

— Estamos falando em sessenta e um milhões, irmão.

Sem nenhuma selfie, o pacto foi selado com um cafezinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2026.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Um cara evoluído

 

Um cara evoluído

 

A rua é uma reta ligando a Matriz à Capelinha. As pessoas seguem atravessando-a onde bem queiram — basta olhar para cima, pra evitar as bicicletas, e, por causa dos automóveis, tem que olhar pra baixo.

Só lá no final, no cruzamento da Avenida São Sebastião com a Rua Direita, há o semáforo.

Vinte anos atrás, o número de carros era muito menor. Hoje, o alerta precisa ficar ligado quando se está na rua. É recomendável que a gente fique parada enquanto papeia ao celular, ou vão buzinar, vão berrar, e terão de diminuir a velocidade.

Como humanistas, não usamos mais vira-latas para fazer sabão e não adotamos atropelamento como meio para reduzir a população da cidade.

Os automóveis evoluíram. A gente evoluiu.

Aceito que tenha havido tal evolução, pois há cadeirinhas de bebê no banco de trás e não usar cinto de segurança dá multa.

Na falta de um agente de trânsito para flagrar a infração?

Se o motorista fala ao celular quando o farol fica vermelho, cabe ao pedestre mostrar o dedo do meio e exercitar os pulmões saudando a progenitora do tagarela.

Denunciar o agente de trânsito que toma um refri na padoca em vez de fiscalizar o vaivém de carros, ciclistas e pedestres é perder o amigo que leva um engradado de latinhas no próximo churrasco.

— Tá indo ver o jogo no Chicão?

— Tô indo! Só vou usar o banheiro da São Domingos.

— E a cerveja?

— Vou comprar também.

— Beleza! A gente se vê lá.

Beleza! Churrasquinhos também mudaram.

Vai ter clássico. Vão jogar os nossos contra os deles. Vamos ter de vestir o manto sagrado do time do nosso coração.

Creio que o frio veio porque a fé afetou o tempo. As orações fizeram as nuvens chegarem no momento oportuno.

Aleluia!

Bebo a latinha. E seguro a minha língua.

Como o coraçãozinho. E acho melhor ir urinar.

Abro outra latinha. E meu sorriso diz por mim que o voto é secreto.

Celebro o gol do meu time. Sob a japona, o escudo do clube mais amado não deixa de mexer comigo.

Evoluí. Até abraço o adversário ao fim do jogo.

Volto bêbado pra casa. Até atravesso a rua sem forçar que freiem.

Saúdam a minha mãe. Até me surpreendo que a conheçam.

A uma quadra de casa, vejo que o dono da padaria dá um quibe pro moço do cruzamento. Como sujeito evoluído, pago e vou embora.

Já que eu virei essa pessoa bastante evoluída, confesso que adotei as minhas mudanças para me transformar nesse cara que agora faz o que até gostam que ele faça.

Jesus!

Eu precisava ir ao churrasco? Fui pelos amigos.

Eu tinha que ver o jogo? Se bem que o meu time não ganhou...

Eu devia ter falado pro rapaz pôr pimenta no quibe?

Com esse frio, essa garoinha, essa necessidade de manter-me fiel ao amor de Cristo, eu sei que fiz bem em ir à missa das dez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de maio de 2026.

domingo, 10 de maio de 2026

O exibido

 

O exibido

 

Falar do Danilo é falar de uma pessoa sem igual. Não que ele seja alguém que procura se sobressair em tudo o que faz. Pelo contrário, o Danilo é o tipo de gente que se destaca quando a gente é chamada a fazer um balanço de tudo que ele tem feito de bom.

O esforço acaba recompensando porque não há esforço. A gente é que descobre o quanto foi beneficiado pelo bom homem que ele é. Pra gente, é natural ver que ele nem quer ocupar o centro da sala.

Danilo, a gente não olha pro tapete.

Todos os dias a gente pisa sem ver, sem se lembrar da pessoa que o deu. A gente tem o mundo pra ganhar. Então, a gente passa, vai em frente e o tapete continua lá, sempre útil, enfeitando a sala sob o nariz da gente.

É evidente que essa nossa indiferença é errada. A gente se justifica que tem sofrido, que tem trabalhado duro. A gente diz que batalhou pra merecer o pão e a mortadela.

Danilo, onde que a gente come o sanduíche?

Na sala, vendo TV.

Poxa, eu sei, migalhas caem no tapete que você deu pra gente.

E você não cobra da gente que o tapete dado seja limpo depois que os farelos caíram porque não mastigamos de boca fechada. Você nem recrimina os meninos que não tiram os tênis sujos de barro.

Danilo, você sempre encontrará aberta a porta da nossa casa.

Desde aquele aniversário da Samara. Foi naquele churrasco que a gente ganhou o amigo decente que você é.

A minha filha fez bem em convidá-lo, porque a gente nem sabia que podia contar com um fotógrafo tão bom que nem você, Danilo.

A foto que está na sala, você se lembra?

Aquela foto linda da nossa família quem tirou foi você.

A Samara nunca me disse que fez a tatuagem na batata da perna porque você a teria incentivado. Tá na cara que nem preciso dizer que o desenho ficou muito bem na minha menina.

Ora, Danilo, todo mundo gosta do Sansão da Mônica.

Então, não vou implicar com você sobre o que aconteceu já vão lá uns três anos. A minha implicância é de agora, porque eu queria muito que você tivesse vindo comer um pedaço do bolo que a minha patroa pediu naquela confeitaria que só vende bolo.

Marinalva, minha muito amada patroazinha, estava esperando que fosse você a pessoa certa para ter batido a foto no momento em que ela cortava o primeiro pedaço.

Nem vou dizer para quem seria o primeiro pedaço, pois é claro que ele era pra você, Danilo.

Sabe o que acho mais digno na sua pessoa? A camaradagem.

Pra tirar foto de batizado? E foto da picanha do campeonato?

Eu sei que o seu coração só conhece o bem. E eu nunca duvidei de que era você que precisava usar o celular porque o modelo era mesmo sempre novo, e sempre cheio de guere-guere.

Danilo, você é um cara único, pois, afinal, quem mais leria a etiqueta de um tapete pra descobrir que o mimo foi feito em Teerã?

Aliás, Danilo, a única pessoa do meu conhecimento que faz questão de chamar o Irã de Pérsia é você.

Meu amigo, é claro que você já faz parte da família.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de maio de 2026.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

A mangueira

 

A mangueira

 

No dia 06/05/2026, às 14h45, Cláudio escreveu:

Há uma tortura que me dá nos fins de semana prolongados, quando o calendário abre uma janela generosa e a vida, em vez de simplificar, apresenta uma bifurcação cruel.

Se viajo, gasto o dinheiro que levei três meses guardando com a disciplina austera de quem anota despesas numa planilha cor-de-rosa.

Imagino a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade provisória de ser ninguém numa cidade estranha — e então imagino também a fatura chegando em seguida, pontual e impiedosa como um cobrador de alma.

O prazer já nasce endividado.

Se fico, o quintal me olha. Não é uma metáfora: ele me encara pela janela da cozinha. Enquanto tomo café. Olha-me com aquela grama crescida torta, o vaso tombado desde a chuva de abril, a mangueira enrolada de qualquer jeito — sobre si mesma — como uma cobra que desistiu de ter forma.

Nesse cenário, relaxar é uma ficção que o quintal não aceita. Cada minuto sentado no sofá com um livro é atravessado pela consciência de que há um mundo bagunçado a doze passos de mim.

Até a luva e a vassoura contam com minha culpa. Assim, sem ruído, o feriadão rói-me.

Não viajei, não sosseguei, não limpei o quintal. Entre a decisão e o arrependimento, deliberando com a seriedade de quem salva a pátria, os patriotas e o pão na chapa.

No fim, restou-me a honestidade: não prometi nada.

Às 20h59, Cláudio anotou:

“Às vezes me pergunto se a desordem é minha ou se simplesmente parei de corrigi-la.”

No dia seguinte, às 7h 33, Cláudio voltou ao texto da véspera:

Me dá uma graça genuína nos feriadões, quando o calendário abre uma janela generosa e a vida, em vez de simplificar, bifurca-me.

E sem placa.

Se viajo, gasto o dinheiro que levei três meses poupando.

Imagino a passagem, o hotel com cheiro de ar-condicionado velho, a liberdade ilusória de ser ninguém numa cidade onde as pessoas  nem se ocupam do fim do mundo — e então imagino a fatura chegando em seguida: é meu prazer, reinventar-me na função de inadimplente.

E não viajo. Deixo o quintal me olhar: a grama alta; o vaso tombado desde a chuva de abril; a mangueira serpentando junto ao muro.

Tudo me comove. E eu só não quero me mover.

E então, mangueira?

Uma linha abaixo do texto, às 7h48, Cláudio escreveu:

“Talvez seja disso que se trate sempre: não do destino, mas do que nos abandona.”

Dez minutos depois, Cláudio enviou o texto ao robozinho inteligente que o faz matutar.

Sobre o humor, o xará foi taxativo:

“Ninguém escreve crônica existencial sobre mangueira.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2026.

 

 

 

PS – O título, os itálicos (com algumas alterações de minha lavra) e as aspas são de Claude.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Jantar de confrontalização

 

Jantar de confrontalização

 

Com panelas no fogo, Jariel cortava batata quando chegou um zap. A irmã o chamava para comer pizza. Ele passou a cortar uma cenoura. Nova mensagem, ela cobrava o “sim”.

Juma era quatro anos mais velha do que Jariel. Como primogênita, sentia-se no dever da última palavra o tempo todo.

Quando nem estavam alfabetizados, Juma contava histórias.

Numa delas, Clemente, o avô, se escondera no meio da mata. Ficou sentado no alto de uma maçaranduba por doze dias e onze noites. Até que aquele bicho apareceu: o jaguaretê.

O pai do pai deles usou um facão para talhar a fera no pescoço. Ela sangrou até cessarem seus esturros. Seguro de que não seria morto, Clemente saltou do galho.

Quando a gente entra dá com a cabeça da onça na sala de Juma. Já o facão, esse foi enterrado com os ossos do avô. Dizem que a urna desapareceu sob canarana-do-brejo, às margens do Tapajós.

Via zap, Jariel pede um botijão. Para Juma, a mensagem é:

“Nada de pizzaria. Venham jantar aqui.”

Jariel despeja a água da panela na pia. E os legumes, já ensacados, vão para o freezer.

“Venham às oito. Pra você, tem pudim de coco.”

E Juma responde: “OK”.

Ela e o marido chegaram pouco depois das oito.

O arroz à grega e a salada russa estavam muito bons. E Jariel não disse a qual restaurante ele pediu que entregassem.

O suco?

— Maracujá e sal não nasceram pro mesmo copo, Maninho.

Juma bateu uma vitamina com manga, abacate, maçã e leite.

— Com duas colherinhas de açúcar, Maninho.

— Depois de três anos, já é gerente. Parabéns, cunhado.

O marido de Juma sorriu.

— Ele não gosta de se exibir, Maninho. Você acredita que, durante estes anos todos, ele nunca zanzou descalço?

— Nas minhas férias do serviço, sempre fui pescar.

— No Araguaia, Maninho.

— Nunca tive grana pra ir pescar no Tapajós.

Ao comer o pudim, o cunhado de Jariel fez uma careta.

Sem repetir o novo gerente, Juma engoliu a colherada do pudim.

— Maninho, a gente já vai indo.

— Vai querer levar a metade, Juma?

— Não, não. E obrigada pela noite, meu querido.

De volta à cozinha, Jariel provou o quitute que havia cozinhado.

— Pudinzinho, seu danado... Pra diabética, você tem muito açúcar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de maio de 2026.

domingo, 3 de maio de 2026

Frio na barriga

 

Frio na barriga

 

Depois de urinar, Evaristo sentou-se no vaso. Por estar escuro, ele temeu bater o joelho nalguma quina. Se se deitou sem hematoma, sua cachola rangia. É que encafifavam-no aqueles números: 3,0,8.

Contou para Angelina. Já que cismou, olhou. Pela segunda noite, o celular marcava três horas e oito minutos.

Angelina fechou a lancheira da filha. Depois de dizer que aquilo era uma coisinha qualquer, ela lhe beijou a careca.

Manú entrou na cozinha sem os tênis. A mãe, com o nó de lacinho, ajustou os tênis nos pezinhos da menina.

A filha foi ao pai, pediu com as mãos que se inclinasse e, assim que ela terminou de cochichar-lhe, ele sorriu.

Angelina colocou uma pera na lancheira. Disse para o Evaristo não esquecer os boletos. Ela cheirou e deu dois beijinhos no rabo de cavalo da Manú. Da cozinha, deu para ouvir o barulho do chuveiro.

No carro, o pai contou que foi fazer xixi de noite. A menina continuou olhando o celular. Evaristo falou que algum mistério o estava testando. Manú olhou-o até que ele a olhasse.

Evaristo falou que estava frio, chovia e sequer o sem-fim piava. Ele quis fumar. Abriu o armarinho do banheiro, não havia maço algum. Daí, pisando descalço o chão gelado, Evaristo arrepiou-se. Tinha que olhar as horas. E viu que era a segunda vez que acordara às 3:08.

— O senhor se mijou na hora que viu que a hora era repetida?

Evaristo se mijou. E declinou da confissão.

— Pai, o senhor vai contar tudo?

O homem parou o carro no acostamento. Acendeu um cigarro. Tirou sujeirinhas do polegar direito. Ajeitou o retrovisor com a mão esquerda.

— Manú, a mamãe ainda não pode ficar sabendo.

— Não sou bebê, pai. Tenho quatro anos.

Evaristo disse que apostou na loteria. Jogou as dezenas que achou com o três, o zero e o oito; e com o um da terceira vez, já que acordou às 3:18. Ele fez tudo sozinho: apostou, ganhou e abriu uma poupança para cada uma.

— Jura pela mamãe, pai?

— Eu não vou jurar, porque um pai não mente pra filha, Manú.

Com as mãozinhas, ela fez para ele se inclinar. E cochichou.

O homem jogou a guimba. Ligou o motor.

— Mas isso é muito caro, Manú.

Demorou um instante até se decidir por levá-la ao parquinho.

Manú não desceu do carro.

— Você tem que ir brincar na escolinha.

Evaristo abriu a porta. Manú cruzou os braços.

— Eu tenho que ir trabalhar, filha. As pessoas vão desconfiar se eu nem avisar que estou doente.

A menina fingiu que chorava. O pai fechou a porta.

A funcionária veio perguntar se estava tudo bem. O homem contou que de repente deu dor de barriga na menina. Manú choramingava. A funcionária disse que o pai devia levar a garota ao postinho atrás da escola.

— Viu, papai? Agora que a moça falou que está tudo bem, o senhor não vai ter que inventar nenhuma desculpa pra gente ir poder saltar de paraquedas.

Pra chuparem um corneto antes do salto, Manú pediu pro Evaristo falar pra Angelina que ninguém esconde dor de barriga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de maio de 2026.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Cem anos de solidão

 

Cem anos de solidão

 

Bom dia! Chegou e-mail.

Ter endereço eletrônico reconhecível não o isenta de arapucas. A entrada de correio virtual é que nem coração inocente que não trava como porta de banco: farsantes têm acesso irrestrito.

A prudência adverte para precaver-se, uma vez que a identificação da pessoa como remetente talvez não seja algo criterioso.

Quem mandou o e-mail é a pessoa dada como remetente?

Se for mesmo ela, é provável que as notícias sejam o de sempre: alguém da família morreu ou falta grana pra pagar aquelas dívidas que nunca são quitadas.

Faz anos que não se falam.

Seria presunçoso identificar traços na escrita que permitam alguma segurança. Não dá para afirmar quem tenha enviado o e-mail, porque escrever e despachar são atos diferentes.

Apesar das muitas chateações com bugigangas oferecidas sem ter necessidade e dos tantos prejuízos por aceitar que ofertas imperdíveis são mesmo sedutoras, a ingenuidade diz para confiar outra vez que a leitura da mensagem não provocará nenhum revés.

Por conhecer a pessoa há mais de cinquenta anos, a tolice faz crer que não verá o vídeo de um gatinho peralta. Ela estará doente ou avisa que virá visitar-me?

Abrir o e-mail... Apagá-lo...

Como há muitos modos de lidar com o mundo, a curiosidade prefere que o e-mail seja lido. Até porque hoje é feriado!

Eis a mensagem:

Estive doente.

Tive a sensação de que estava muito mal, tanto que desconfiava de que escondiam de mim o quanto eu realmente estava doente.

Fiz exames, tantos exames. Foram desagradáveis, doloridos, e até bem invasivos. Alguns foram feitos mais de uma vez.

Precisei ir de médico em médico. Como se houvesse um mistério no meu corpo, tenho sobrevivido às decepções.

Na condição de paciente, percebi que não era somente o corpo que sofria, a minha mente acompanhava ou agravava o que ele precisava que fosse visto. Certamente ambos — corpo e alma —, em interação indivisível.

Estar doente traz uma urgência que beira o insuportável.

A falta de diagnóstico acelera o processo. Não ter um nome preciso provoca dores, tonturas. Vomita-se tanto. O receio de que a comida vai causar mais sofrimento abala a ponto de ter-se medo de dormir.

E o que me exigem?

É meu dever comer, dormir, medicar-me e, sobretudo, controlar-me. Manter-me controlado! E pensar no corpo e na mente como agentes. Controlar a respiração para que meu corpo doente e a minha alma não trabalhem contra mim. Que eu produza a harmonia que me ajudará na cura do que nem sei o que é.

Que curandeiros são esses!

Pra que o caminho da doença pra saúde seja curto, é preciso querer a cura. Curar-me de dentro pra fora, com a mente agindo pela cura, e de fora pra dentro, com pílulas e sopinha. Tornar-se ativo no processo, acreditando na cura que a palavra positiva gera positividade. Acreditar na transição do negativo para o positivo, do péssimo para o excelente, do abominável para o adorável.

Aprendi: crer é curar-se. Senti que aprendi: vou curar-me pela fé.

Fé em quê, afinal?

Quando a gente sente que o mundo não se compadece das nossas angústias, é neste instante... Foi então que o universo me tocou. E me enviaram esta história que vai comover você também.

“Um homem tinha noventa e nove anos quando um dos seus filhos morreu num acidente de carro.

Ele ficou muito triste. A sua tristeza era tanta que os filhos temeram que o pai fosse morrer.

Os filhos trouxeram papel de seda e linha, cola e tesoura. O pai não quis fazer bandeirolas. Mas os filhos cortavam de qualquer jeito e suas linhas eram de uma só cor.

O pai traçou retas num modelo, cortou as bandeirinhas, colou-as de modo aleatório e cruzou as fileiras pelo quintal.

Vendo o céu colorido, o homem compreendeu que o amor pelo filho morto e por seus filhos vivos não tinha nada que ver com bandeirinhas baloiçando à brisa.

Ele nunca mais fez bandeirinhas.”

Espero que esta história tenha sido cativante como ela foi para mim. Espero que você compartilhe esta história. Envie-a a cem pessoas que considera importantes na sua vida. Mil vezes você será lembrada como a pessoa importante na vida de tanta gente.

Confio em você para que a corrente seja mantida.

Deus saberá que você trabalha para o bem, pois os dedos da mão e o oxigênio na mente são armas do bem.

Enviarem uma corrente dessas depois de barrarem o Messias?

Deleto-a sem dó, correntinha do caramba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de maio de 2026.