quinta-feira, 21 de maio de 2026

Otimismo redobrado

 

Otimismo redobrado

 

De minha parte, a atendente não teria motivos para irritar-se. Já os demais na sala, bem, isso é com eles.

Todos eles.

Sem exceção, porque a espera pela realização do exame tinha que ser ali, em meio àquelas pessoas.

E estavam desconfortáveis aquelas mulheres e os senhores, todos nós, porque eu também esperava.

E havia o atraso regular de meia hora ou mais, a depender de quem veio meia hora antes, em atendimento ao recomendado.

Quando feito o pedido de agendamento via telefone, a atendente faz questão de lembrar as recomendações: chegue com trinta minutos de antecedência, não esqueça de trazer toalha, vista roupa esportiva e, por favor, preencha a ficha com letra legível.

Meia hora antes, as mãos não estão suadas. Portanto, escreve-se com a letra que normalmente é um garranchinho simpático.

Simpático também é o cartazinho na parede.

É porque, abaixo da placa de plástico onde está escrito SILÊNCIO, afixaram com durex um sulfite em cuja impressão há uma figurinha infantil com um dedo sobre a boca e acima dessa cabecinha laranjinha fofurinha tascaram isso que me regala uma alegria supimpa:

 

FAÇA SILÊNCIO OU FALE BAIXINHO

 

Quem afixou o pedido ilustrado não sabe de mim que sou um sujeito baixinho que, consequentemente, fala baixinho com a desenvoltura de estar ao rés do chão, por genética.

Papai e mamãe tiveram lá a noite de amor que este bom filho acha que eles fizeram bem, ainda que eu continue baixinho.

Apesar dos ímpetos de conquistador do mundo, eu faço jus a quem debocha de mim quando falo baixinho mesmo quando contrariado, e gritando.

Se aqueles senhores da sala de espera me vissem todo pimpão na esteira, testemunhariam um homem cuja envergadura moral excede a estatura de tampinha, barrigudinho e folgado.

Folgo afirmar que dei de mim o meu melhor.

Se caminhei devagar, é porque a esteira estava posta junto a uma janela, e comprovei o desempenho exemplar dos homens a limpar as janelas do edifício do outro lado da rua.

Quando me aceleraram as passadas ao aumentarem a velocidade do rolamento da dita esteira, resisti.

Fui surpreendido, todavia, pelo computador do médico que assistia meu teste. Sejamos honestos quando houver necessidade de agirmos com a retidão dos puros: não pisquei luzinha vermelha nem apitei.

Apitar não apitei, mas agitei os braços, bati palmas e gritei.

O rato que havia roído a lixeira, o roedor que tinha aberto um buraco deste tamanhico, esse bicho alongou o corpo, afinou-se todo e passou por uma fresta que a mim me espantou pela finura de um dedo.

Senhores que estarão aí quando eu sair, fiz este teste com o dobro de raiva: pela lixeira roída, pelo saco de lixo roído e pela máquina de lavar que ficou sem fazer ruído algum.

E me invejem, senhores, uma vez que o médico foi realmente uma pessoinha bacanérrima:

— Ótimo! Teu coração é de bebê.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário