Otimismo
redobrado
De minha parte, a atendente não teria
motivos para irritar-se. Já os demais na sala, bem, isso é com eles.
Todos eles.
Sem exceção, porque a espera pela
realização do exame tinha que ser ali, em meio àquelas pessoas.
E estavam desconfortáveis aquelas
mulheres e os senhores, todos nós, porque eu também esperava.
E havia o atraso regular de meia hora ou
mais, a depender de quem veio meia hora antes, em atendimento ao recomendado.
Quando feito o pedido de agendamento via
telefone, a atendente faz questão de lembrar as recomendações: chegue com
trinta minutos de antecedência, não esqueça de trazer toalha, vista roupa
esportiva e, por favor, preencha a ficha com letra legível.
Meia hora antes, as mãos não estão
suadas. Portanto, escreve-se com a letra que normalmente é um garranchinho
simpático.
Simpático também é o cartazinho na
parede.
É porque, abaixo da placa de plástico
onde está escrito SILÊNCIO, afixaram com durex um sulfite em cuja impressão há
uma figurinha infantil com um dedo sobre a boca e acima dessa cabecinha
laranjinha fofurinha tascaram isso que me regala uma alegria supimpa:
FAÇA SILÊNCIO OU FALE BAIXINHO
Quem afixou o pedido ilustrado não sabe
de mim que sou um sujeito baixinho que, consequentemente, fala baixinho com a
desenvoltura de estar ao rés do chão, por genética.
Papai e mamãe tiveram lá a noite de amor
que este bom filho acha que eles fizeram bem, ainda que eu continue baixinho.
Apesar dos ímpetos de conquistador do
mundo, eu faço jus a quem debocha de mim quando falo baixinho mesmo quando
contrariado, e gritando.
Se aqueles senhores da sala de espera me
vissem todo pimpão na esteira, testemunhariam um homem cuja envergadura moral
excede a estatura de tampinha, barrigudinho e folgado.
Folgo afirmar que dei de mim o meu
melhor.
Se caminhei devagar, é porque a esteira
estava posta junto a uma janela, e comprovei o desempenho exemplar dos homens a
limpar as janelas do edifício do outro lado da rua.
Quando me aceleraram as passadas ao
aumentarem a velocidade do rolamento da dita esteira, resisti.
Fui surpreendido, todavia, pelo computador
do médico que assistia meu teste. Sejamos honestos quando houver necessidade de
agirmos com a retidão dos puros: não pisquei luzinha vermelha nem apitei.
Apitar não apitei, mas agitei os braços,
bati palmas e gritei.
O rato que havia roído a lixeira, o
roedor que tinha aberto um buraco deste tamanhico, esse bicho alongou o corpo,
afinou-se todo e passou por uma fresta que a mim me espantou pela finura de um
dedo.
Senhores que estarão aí quando eu sair,
fiz este teste com o dobro de raiva: pela lixeira roída, pelo saco de lixo
roído e pela máquina de lavar que ficou sem fazer ruído algum.
E me invejem, senhores, uma vez que o
médico foi realmente uma pessoinha bacanérrima:
— Ótimo! Teu coração é de bebê.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de maio de 2026.
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