O
mordomo
Sim, foi o mordomo.
Antes, contudo, de chegarmos ao culpado verdadeiro,
façamos o percurso que começa justamente com aquele personagem que nos servirá.
Evidentemente, ele passará batido, apontando o ônibus ainda com a porta aberta.
A dúvida cairá nos ouvidos de quem nem quer se envolver. Que dúvida?
Lá vai o sujeito.
Ele mantém o passo, apressado. Com
contas pra pagar, mentiras pra sustentar, um estressado. Tem coisas mal postas,
por resolver. E que mais ninguém meta o bedelho. Porque apto a atar e desatar
fatos e fotos, é o vivo interessado a repassar o que foi perguntado.
O outro nem fingia que fotografava pés.
Ambos, em virtude dessa pressa toda, em
razão das ansiedades, tinham motivos de sobra para não ouvirem palpites. Eram camaradas
que faziam questão de disfarçar a cara enfezada, sim, aquela carinha de gente
atrasadíssima.
Portanto, culpemos as bitucas e não o
fumante que se livra delas.
O ônibus já foi. O ponto ficou sendo o
cinzeiro.
Poderíamos culpar o cronista, porquanto
ele faça entrar na crônica um parágrafo inteirinho só pra demonstrar que nada
tem de centrado, com uma personalidade tola o bastante pra gracejos pueris.
Sem que o cigarro de um deles tenha sido
tragado.
Em outras palavras, vamos agir com
condescendência e culpemos a cachola do escriba pelas fumaças pretensamente recreativas.
De passagem, voltemos nossa atenção para
a sacola plástica, um típico veículo para transporte de mercadorias.
E a danada está quietinha na boca de um
bueiro, só à espera da próxima chuva, que logo virá. Já que ela se dá em
exemplo de como barrar o fluxo pluvial, causando estrago, dor de cabeça a quem
fuma e gente que perde o ônibus, levando quem responsável a adiantar-se nas sinceras
desculpas por transtornos prejuízos.
— Vovô, vou voltar pra casa na canoa?
O ponto também serve pra amarrar bote.
Só que o fumante que se apresente para inflá-lo corre esse risco, de desfalecimento.
Destarte, menos pelo baixo custo e pela
praticidade no manuseio, culpemos o polietileno pela durabilidade que torna maléfica
a química industrial. Em vez de obstruir bocas de lobo, juntem-se milhares para
que o bote torne-se um objeto flutuante.
Agora, passemos a sopesar gravemente o
temporal.
A enfrentá-lo, empunhando a sua sombrinha
com estampa do Bob Esponja, com faixinhas em degradê ─ amarelo, laranja e vermelho
─; reforcemos o ponto: ela mesma é dada a sutilezas.
Pessoa racional, a pedestre de tênis lilás
usa a faixa de pedestres. Capaz de engolir a laranjada sem açúcar que o maninho
preparou de manhã, de carimbar errada a data do relatório quando o chefe gritou,
de sentar-se sozinha no ônibus vazio.
Por conseguinte, ainda que a menor
distância entre o ponto x e o y seja uma reta, preferimos zanzar. Pra que as
palavras não rasguem cicatrizes no calçado, culpemos a flora estomacal pelo bafo.
Para evitar que bagunceiros tomem a
gerência, simplifiquemos, ou melhor, facilite-se a escolha: é sua.
Folgamos escutá-lo, mordomo, ao elencar os
bebedores de café: os que fazem cara feia quando está frio; os que cospem de
pronto se está pelando; os que pedem água sem gás.
E aqui ninguém desperdiçará seus
créditos; e o ouvimos:
─ Quem pegou o ônibus errado?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 17 de maio de 2026.
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