Com
panelas no fogo, Jariel cortava batata quando chegou um zap. A irmã o chamava
para comer pizza. Ele passou a cortar uma cenoura. Nova mensagem, ela cobrava o
“sim”.
Juma
era quatro anos mais velha do que Jariel. Como primogênita, sentia-se no dever
da última palavra o tempo todo.
Quando
nem estavam alfabetizados, Juma contava histórias.
Numa
delas, Clemente, o avô, se escondera no meio da mata. Ficou sentado no alto de uma
maçaranduba por doze dias e onze noites. Até que aquele bicho apareceu: o
jaguaretê.
O
pai do pai deles usou um facão para talhar a fera no pescoço. Ela sangrou até
cessarem seus esturros. Seguro de que não seria morto, Clemente saltou do galho.
Quando
a gente entra dá com a cabeça da onça na sala de Juma. Já o facão, esse foi
enterrado com os ossos do avô. Dizem que a urna desapareceu sob canarana-do-brejo,
às margens do Tapajós.
Via
zap, Jariel pede um botijão. Para Juma, a mensagem é:
“Nada
de pizzaria. Venham jantar aqui.”
Jariel
despeja a água da panela na pia. E os legumes, já ensacados, vão para o
freezer.
“Venham
às oito. Pra você, tem pudim de coco.”
E
Juma responde: “OK”.
Ela
e o marido chegaram pouco depois das oito.
O
arroz à grega e a salada russa estavam muito bons. E Jariel não disse a qual
restaurante ele pediu que entregassem.
O
suco?
—
Maracujá e sal não nasceram pro mesmo copo, Maninho.
Juma
bateu uma vitamina com manga, abacate, maçã e leite.
—
Com duas colherinhas de açúcar, Maninho.
—
Depois de três anos, já é gerente. Parabéns, cunhado.
O
marido de Juma sorriu.
—
Ele não gosta de se exibir, Maninho. Você acredita que, durante estes anos
todos, ele nunca zanzou descalço?
—
Nas minhas férias do serviço, sempre fui pescar.
—
No Araguaia, Maninho.
—
Nunca tive grana pra ir pescar no Tapajós.
Ao
comer o pudim, o cunhado de Jariel fez uma careta.
Sem
repetir o novo gerente, Juma engoliu a colherada do pudim.
—
Maninho, a gente já vai indo.
—
Vai querer levar a metade, Juma?
—
Não, não. E obrigada pela noite, meu querido.
De
volta à cozinha, Jariel provou o quitute que havia cozinhado.
—
Pudinzinho, seu danado... Pra diabética, você tem muito açúcar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de maio de 2026.
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