terça-feira, 5 de maio de 2026

Jantar de confrontalização

 

Jantar de confrontalização

 

Com panelas no fogo, Jariel cortava batata quando chegou um zap. A irmã o chamava para comer pizza. Ele passou a cortar uma cenoura. Nova mensagem, ela cobrava o “sim”.

Juma era quatro anos mais velha do que Jariel. Como primogênita, sentia-se no dever da última palavra o tempo todo.

Quando nem estavam alfabetizados, Juma contava histórias.

Numa delas, Clemente, o avô, se escondera no meio da mata. Ficou sentado no alto de uma maçaranduba por doze dias e onze noites. Até que aquele bicho apareceu: o jaguaretê.

O pai do pai deles usou um facão para talhar a fera no pescoço. Ela sangrou até cessarem seus esturros. Seguro de que não seria morto, Clemente saltou do galho.

Quando a gente entra dá com a cabeça da onça na sala de Juma. Já o facão, esse foi enterrado com os ossos do avô. Dizem que a urna desapareceu sob canarana-do-brejo, às margens do Tapajós.

Via zap, Jariel pede um botijão. Para Juma, a mensagem é:

“Nada de pizzaria. Venham jantar aqui.”

Jariel despeja a água da panela na pia. E os legumes, já ensacados, vão para o freezer.

“Venham às oito. Pra você, tem pudim de coco.”

E Juma responde: “OK”.

Ela e o marido chegaram pouco depois das oito.

O arroz à grega e a salada russa estavam muito bons. E Jariel não disse a qual restaurante ele pediu que entregassem.

O suco?

— Maracujá e sal não nasceram pro mesmo copo, Maninho.

Juma bateu uma vitamina com manga, abacate, maçã e leite.

— Com duas colherinhas de açúcar, Maninho.

— Depois de três anos, já é gerente. Parabéns, cunhado.

O marido de Juma sorriu.

— Ele não gosta de se exibir, Maninho. Você acredita que, durante estes anos todos, ele nunca zanzou descalço?

— Nas minhas férias do serviço, sempre fui pescar.

— No Araguaia, Maninho.

— Nunca tive grana pra ir pescar no Tapajós.

Ao comer o pudim, o cunhado de Jariel fez uma careta.

Sem repetir o novo gerente, Juma engoliu a colherada do pudim.

— Maninho, a gente já vai indo.

— Vai querer levar a metade, Juma?

— Não, não. E obrigada pela noite, meu querido.

De volta à cozinha, Jariel provou o quitute que havia cozinhado.

— Pudinzinho, seu danado... Pra diabética, você tem muito açúcar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de maio de 2026.

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