terça-feira, 12 de maio de 2026

Um cara evoluído

 

Um cara evoluído

 

A rua é uma reta ligando a Matriz à Capelinha. As pessoas seguem atravessando-a onde bem queiram — basta olhar para cima, pra evitar as bicicletas, e, por causa dos automóveis, tem que olhar pra baixo.

Só lá no final, no cruzamento da Avenida São Sebastião com a Rua Direita, há o semáforo.

Vinte anos atrás, o número de carros era muito menor. Hoje, o alerta precisa ficar ligado quando se está na rua. É recomendável que a gente fique parada enquanto papeia ao celular, ou vão buzinar, vão berrar, e terão de diminuir a velocidade.

Como humanistas, não usamos mais vira-latas para fazer sabão e não adotamos atropelamento como meio para reduzir a população da cidade.

Os automóveis evoluíram. A gente evoluiu.

Aceito que tenha havido tal evolução, pois há cadeirinhas de bebê no banco de trás e não usar cinto de segurança dá multa.

Na falta de um agente de trânsito para flagrar a infração?

Se o motorista fala ao celular quando o farol fica vermelho, cabe ao pedestre mostrar o dedo do meio e exercitar os pulmões saudando a progenitora do tagarela.

Denunciar o agente de trânsito que toma um refri na padoca em vez de fiscalizar o vaivém de carros, ciclistas e pedestres é perder o amigo que leva um engradado de latinhas no próximo churrasco.

— Tá indo ver o jogo no Chicão?

— Tô indo! Só vou usar o banheiro da São Domingos.

— E a cerveja?

— Vou comprar também.

— Beleza! A gente se vê lá.

Beleza! Churrasquinhos também mudaram.

Vai ter clássico. Vão jogar os nossos contra os deles. Vamos ter de vestir o manto sagrado do time do nosso coração.

Creio que o frio veio porque a fé afetou o tempo. As orações fizeram as nuvens chegarem no momento oportuno.

Aleluia!

Bebo a latinha. E seguro a minha língua.

Como o coraçãozinho. E acho melhor ir urinar.

Abro outra latinha. E meu sorriso diz por mim que o voto é secreto.

Celebro o gol do meu time. Sob a japona, o escudo do clube mais amado não deixa de mexer comigo.

Evoluí. Até abraço o adversário ao fim do jogo.

Volto bêbado pra casa. Até atravesso a rua sem forçar que freiem.

Saúdam a minha mãe. Até me surpreendo que a conheçam.

A uma quadra de casa, vejo que o dono da padaria dá um quibe pro moço do cruzamento. Como sujeito evoluído, pago e vou embora.

Já que eu virei essa pessoa bastante evoluída, confesso que adotei as minhas mudanças para me transformar nesse cara que agora faz o que até gostam que ele faça.

Jesus!

Eu precisava ir ao churrasco? Fui pelos amigos.

Eu tinha que ver o jogo? Se bem que o meu time não ganhou...

Eu devia ter falado pro rapaz pôr pimenta no quibe?

Com esse frio, essa garoinha, essa necessidade de manter-me fiel ao amor de Cristo, eu sei que fiz bem em ir à missa das dez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de maio de 2026.

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