A
rua é uma reta ligando a Matriz à Capelinha. As pessoas seguem atravessando-a
onde bem queiram — basta olhar para cima, pra evitar as bicicletas, e, por
causa dos automóveis, tem que olhar pra baixo.
Só
lá no final, no cruzamento da Avenida São Sebastião com a Rua Direita, há o
semáforo.
Vinte
anos atrás, o número de carros era muito menor. Hoje, o alerta precisa ficar
ligado quando se está na rua. É recomendável que a gente fique parada enquanto papeia
ao celular, ou vão buzinar, vão berrar, e terão de diminuir a velocidade.
Como
humanistas, não usamos mais vira-latas para fazer sabão e não adotamos
atropelamento como meio para reduzir a população da cidade.
Os
automóveis evoluíram. A gente evoluiu.
Aceito
que tenha havido tal evolução, pois há cadeirinhas de bebê no banco de trás e não
usar cinto de segurança dá multa.
Na
falta de um agente de trânsito para flagrar a infração?
Se
o motorista fala ao celular quando o farol fica vermelho, cabe ao pedestre mostrar
o dedo do meio e exercitar os pulmões saudando a progenitora do tagarela.
Denunciar
o agente de trânsito que toma um refri na padoca em vez de fiscalizar o vaivém
de carros, ciclistas e pedestres é perder o amigo que leva um engradado de
latinhas no próximo churrasco.
—
Tá indo ver o jogo no Chicão?
—
Tô indo! Só vou usar o banheiro da São Domingos.
—
E a cerveja?
—
Vou comprar também.
—
Beleza! A gente se vê lá.
Beleza!
Churrasquinhos também mudaram.
Vai
ter clássico. Vão jogar os nossos contra os deles. Vamos ter de vestir o manto
sagrado do time do nosso coração.
Creio
que o frio veio porque a fé afetou o tempo. As orações fizeram as nuvens
chegarem no momento oportuno.
Aleluia!
Bebo
a latinha. E seguro a minha língua.
Como
o coraçãozinho. E acho melhor ir urinar.
Abro
outra latinha. E meu sorriso diz por mim que o voto é secreto.
Celebro
o gol do meu time. Sob a japona, o escudo do clube mais amado não deixa de
mexer comigo.
Evoluí.
Até abraço o adversário ao fim do jogo.
Volto
bêbado pra casa. Até atravesso a rua sem forçar que freiem.
Saúdam
a minha mãe. Até me surpreendo que a conheçam.
A
uma quadra de casa, vejo que o dono da padaria dá um quibe pro moço do
cruzamento. Como sujeito evoluído, pago e vou embora.
Já
que eu virei essa pessoa bastante evoluída, confesso que adotei as minhas
mudanças para me transformar nesse cara que agora faz o que até gostam que ele
faça.
Jesus!
Eu
precisava ir ao churrasco? Fui pelos amigos.
Eu
tinha que ver o jogo? Se bem que o meu time não ganhou...
Eu
devia ter falado pro rapaz pôr pimenta no quibe?
Com
esse frio, essa garoinha, essa necessidade de manter-me fiel ao amor de Cristo,
eu sei que fiz bem em ir à missa das dez.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 12 de maio de 2026.
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