Marx
e os ferinos
Como me assanham as intrigas, leio as
folhas políticas com olhos de gentil homem. E a você, nobre ser humano que lê
aquelas páginas ainda se espaventando com o que depreende do lido, digo-lhe que
os pelos eriçados do meu peito me incitam a: dar pitacos sobre a estreia do
filme O Azarão.
Sendo menos impreciso, pegou-me a
comichão de tecer palavras a respeito do prazer que gerará entre os
proselitistas — sejam eles a favor, sejam os do contra.
Com argumentos sóbrios, quero discorrer
sobre as circunstâncias em que se dará a chegada da película aos cinemas, mas,
olhando os jasmins do jardim, lembrei-me do dia em que Marx, pulando na minha
perna, foi iracundo ao latir: resolva.
Como sói acontecer, tratei de respirar
fundo e abri a janela. E Nina a pulou. E em seguida, veio o Tales.
Como haveria de acontecer, foi aquele
perereco.
O pior é que nenhum dos gatos era meu. Todavia,
o palco onde se deu a briga, sim, era meu. Parei de trabalhar. Meti-me no
imbróglio.
E a confusão virou crônica. Eu a
publiquei no dia 02/05/2021 e ela tinha o seguinte título: O filme da minha
vida.
O texto publicado era este:
Com um baita tigre-de-bengala no meu
encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio. Caramba. A fera nada melhor que eu.
E que situação terrível a minha, pois meu nado cachorrinho é horrível. Sério. O
bicho deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés. E o pavor é tanto que nem
olho. Engulo tanta água. Cacilda!
Com a coragem aguda de mentir, esse
afogamento crônico me fez agir como o último caçador azarado. Com tantas bestas
dando sopa, saí do sonho de alma lavada, e mãos abanando.
Por meus botões!
Só que tais conselheiros nem sempre sacam
o tanto que eu gosto de reclamar à esperança o muito que me falta.
Dando brevidade ao lampejo, veja bem, reajo
como?
Ajoelho-me. A cabeça trama contra mim. Não
rezo nem rezarei.
E quanto mais ponho fé que organizo as
ideias, mais eu canalizo a energia para o onírico.
E lá estou eu: no papel de esportista
nato.
Ao tiro de largada, conservo sensíveis
meus calcanhares. Olho em linha reta. A cem metros, vejo a fita. Vindos pelo
ar, escuto aplausos.
Segundos após essa cena ficar inteligível,
pigarreio.
Posto que o bloco está solto, os tênis fustigam,
canta o sabiá a um milésimo do disparo e as arquibancadas estão vazias, o que
eu sinto é isso mesmo: alergia a ouro.
Com meu olhar sereno, perscruto tudo.
Com a coroa de louros exalando sensatez,
inebria-me dissimular o desarranjo. Estrago a montagem porque sei fazer do
fracasso a base do meu sucesso.
O jogo é outro: entrego a redação à
professora.
Posso negar a alegria de estar no alto
do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios — olímpicos ou chinfrins. Contudo,
quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se
fosse escrever algo imperativo.
Cubro a cara com um sorriso. Sei ser
convincente.
Por quê? Ora, garoto não tem rugas
simpáticas quando sorri.
Esse sorriso atira-me num cenário novo e
veste-me outro figurino: senhor das margens, sou quem pratica artes de rio.
Com um fraco para tibiezas, tiro do
bagre um salmão. E eu felicito o rio onde piranhas não pululam. Desejando fartura
aos pescadores, aceno: sigam atrás de comida, e tenham quilos para vender.
Deixo-me fisgar pelo embalo. Bebo uma cachaça.
E as tilápias vão desviando da canoa. E lambo os beiços; haverá brasa, logo
mais.
De volta ao chão da folha, sincronizo
sons e imagens.
Sem vocação para pregar jejuns a um faquir,
defendo o meu pão. Como um ator que se alimenta das câmeras: cadê a fita do
filme?
Não faço fita nem ponho laço no presente,
o que ocorreu foi isso: defendi a gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado.
E lá estava eu — lavando as unhadas na
destra.
Pena que sabão seja tão somente
detergente, pois eu queria que minha canhota fosse inábil o bastante pra
digitar com maior seriedade a derradeira palavra aos ferinos:
SIM
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 24 de maio de 2026.
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