domingo, 24 de maio de 2026

Marx e os ferinos

 

Marx e os ferinos

 

Como me assanham as intrigas, leio as folhas políticas com olhos de gentil homem. E a você, nobre ser humano que lê aquelas páginas ainda se espaventando com o que depreende do lido, digo-lhe que os pelos eriçados do meu peito me incitam a: dar pitacos sobre a estreia do filme O Azarão.

Sendo menos impreciso, pegou-me a comichão de tecer palavras a respeito do prazer que gerará entre os proselitistas — sejam eles a favor, sejam os do contra.

Com argumentos sóbrios, quero discorrer sobre as circunstâncias em que se dará a chegada da película aos cinemas, mas, olhando os jasmins do jardim, lembrei-me do dia em que Marx, pulando na minha perna, foi iracundo ao latir: resolva.

Como sói acontecer, tratei de respirar fundo e abri a janela. E Nina a pulou. E em seguida, veio o Tales.

Como haveria de acontecer, foi aquele perereco.

O pior é que nenhum dos gatos era meu. Todavia, o palco onde se deu a briga, sim, era meu. Parei de trabalhar. Meti-me no imbróglio.

E a confusão virou crônica. Eu a publiquei no dia 02/05/2021 e ela tinha o seguinte título: O filme da minha vida.

O texto publicado era este:

Com um baita tigre-de-bengala no meu encalço, a escolha óbvia é me atirar no rio. Caramba. A fera nada melhor que eu. E que situação terrível a minha, pois meu nado cachorrinho é horrível. Sério. O bicho deve estar a ponto de me abocanhar pelos pés. E o pavor é tanto que nem olho. Engulo tanta água. Cacilda!

Com a coragem aguda de mentir, esse afogamento crônico me fez agir como o último caçador azarado. Com tantas bestas dando sopa, saí do sonho de alma lavada, e mãos abanando.

Por meus botões!

Só que tais conselheiros nem sempre sacam o tanto que eu gosto de reclamar à esperança o muito que me falta.

Dando brevidade ao lampejo, veja bem, reajo como?

Ajoelho-me. A cabeça trama contra mim. Não rezo nem rezarei.

E quanto mais ponho fé que organizo as ideias, mais eu canalizo a energia para o onírico.

E lá estou eu: no papel de esportista nato.

Ao tiro de largada, conservo sensíveis meus calcanhares. Olho em linha reta. A cem metros, vejo a fita. Vindos pelo ar, escuto aplausos.

Segundos após essa cena ficar inteligível, pigarreio.

Posto que o bloco está solto, os tênis fustigam, canta o sabiá a um milésimo do disparo e as arquibancadas estão vazias, o que eu sinto é isso mesmo: alergia a ouro.

Com meu olhar sereno, perscruto tudo.

Com a coroa de louros exalando sensatez, inebria-me dissimular o desarranjo. Estrago a montagem porque sei fazer do fracasso a base do meu sucesso.

O jogo é outro: entrego a redação à professora.

Posso negar a alegria de estar no alto do pódio. Posso desdenhar quaisquer pódios — olímpicos ou chinfrins. Contudo, quando a inveja tira o valor do vulgo, passo a aquecer meus músculos como se fosse escrever algo imperativo.

Cubro a cara com um sorriso. Sei ser convincente.

Por quê? Ora, garoto não tem rugas simpáticas quando sorri.

Esse sorriso atira-me num cenário novo e veste-me outro figurino: senhor das margens, sou quem pratica artes de rio.

Com um fraco para tibiezas, tiro do bagre um salmão. E eu felicito o rio onde piranhas não pululam. Desejando fartura aos pescadores, aceno: sigam atrás de comida, e tenham quilos para vender.

Deixo-me fisgar pelo embalo. Bebo uma cachaça. E as tilápias vão desviando da canoa. E lambo os beiços; haverá brasa, logo mais.

De volta ao chão da folha, sincronizo sons e imagens.

Sem vocação para pregar jejuns a um faquir, defendo o meu pão. Como um ator que se alimenta das câmeras: cadê a fita do filme?

Não faço fita nem ponho laço no presente, o que ocorreu foi isso: defendi a gatinha espevitada das garras do gatão mal-humorado.

E lá estava eu — lavando as unhadas na destra.

Pena que sabão seja tão somente detergente, pois eu queria que minha canhota fosse inábil o bastante pra digitar com maior seriedade a derradeira palavra aos ferinos:

 

SIM

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de maio de 2026.

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